Questão de Português — Elementos da Comunicação e Funções da Linguagem — FGV 2025
Português›Elementos da Comunicação e Funções da Linguagem
Código
fg167864
Banca
FGV
Órgão
CPRM
Ano
2025
Cargo
Ana Geo ( )
O Brasil na crise do clima
Dimas Ramalho
Chuvas apocalípticas no Rio Grande do Sul, secas extremas no Pantanal e na Amazônia, inundações recordes em países da Ásia e da Europa, ondas de calor mortíferas nos quatro cantos do mundo. São gritantes os sinais de que algo está profundamente errado no clima planetário.
Nem todo mundo entende, porém, que por trás desse fenômeno alarmante está a mão do homem. Após décadas de estudos e medições, não resta dúvida de que a causa do aquecimento global são os gases do efeito estufa emitidos por seres humanos, a maior parte deles proveniente da queima de petróleo e seus derivados.
Com a elevação da temperatura média do globo, tornam-se mais frequentes os chamados eventos climáticos extremos, com consequências tremendas para as populações humanas e os ecossistemas naturais. Segundo a pesquisa Datafolha, 77% da população brasileira vivenciou recentemente algum evento desse tipo.
Por mais que os efeitos da mudança climática venham ficando cada dia mais evidentes no planeta, enfrentar as suas causas tem-se mostrado uma tarefa imensamente complexa. A principal razão é que reduzir drasticamente as emissões de gases do efeito estufa implica uma mudança radical na matriz energética global, ainda amplamente baseada no petróleo.
Nessa verdadeira corrida contra o tempo, o Brasil curiosamente desponta de maneira singular. Por aqui, as principais fontes de poluição não provêm, como nas outras grandes economias do mundo, de atividades industriais e da queima de combustíveis fósseis, mas do desmatamento.
A floresta derrubada libera na atmosfera todo o carbono armazenado na madeira, nas folhas e nas raízes quando é queimada ou apodrece sobre o solo. Já a atividade pecuária, além de relevante indutor do desmatamento na Amazônia, libera, por meio da digestão dos ruminantes, o metano, um dos gases que mais potencializam o efeito estufa.
Hoje, felizmente, boa parte dos produtores já entendeu isso, e vêm investindo no aumento da produtividade no campo e ampliando a chamada agricultura de baixo carbono. Um agronegócio com consciência ambiental combinado a um combate firme do desmatamento por parte dos governos forma uma aliança poderosa, que beneficiará o Brasil e o mundo.
As questões da prova de Língua Portuguesa referem-se ao TEXTO a seguir:
Assinale a opção em que a função de linguagem predominante no texto, e sua justificativa, está corretamente indicada.
AFunção fática, tendo em vista que se faz um apelo ao leitor do texto sobre os efeitos da ação humana no clima.
BFunção metalinguística, uma vez que há reflexões sobre os próprios procedimentos do fazer textual.
CFunção conativa, considerando que o canal de recepção do artigo é fundamental para seu alcance.
DFunção referencial, já que o conteúdo ganha destaque em relação à forma como o texto é escrito.
EFunção subjetiva, devido às inúmeras inscrições de ponto de vista do autor, como “apocalípticas” e “mortíferas”.
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GabaritoD — Função referencial, já que o conteúdo ganha destaque em relação à forma como o texto é escrito.
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Função referencial no texto sobre a crise do clima
Gabarito: letra D. O texto de Dimas Ramalho tem como função predominante a função referencial, pois o foco está no conteúdo informativo — o assunto (a crise climática e suas causas) — e não na forma, no emissor ou no receptor. A justificativa da alternativa D é exatamente essa: "o conteúdo ganha destaque em relação à forma como o texto é escrito". Isso se comprova ao longo de todo o texto, que apresenta dados objetivos, como a pesquisa Datafolha citada no 3º parágrafo.
O comando pede que se identifique a função de linguagem predominante e sua justificativa correta. Isso exige, primeiro, reconhecer qual elemento da comunicação recebe maior relevo no texto: o referente (o assunto, o contexto). O texto é um artigo de opinião com forte base informativa — ele expõe fatos, dados e explicações sobre a crise climática, priorizando a transmissão objetiva de informações. A função referencial (também chamada denotativa ou informativa) é aquela centrada no referente, no conteúdo da mensagem, e é típica de textos jornalísticos, científicos e expositivos.
O texto apresenta marcas claras dessa função. No 2º parágrafo, o autor afirma: "não resta dúvida de que a causa do aquecimento global são os gases do efeito estufa emitidos por seres humanos". No 3º parágrafo, recorre a um dado concreto: "Segundo a pesquisa Datafolha, 77% da população brasileira vivenciou recentemente algum evento desse tipo". Esses trechos demonstram a preocupação em informar o leitor sobre um tema, com base em evidências, e não em expressar emoções pessoais ou persuadir diretamente o interlocutor. A linguagem é predominantemente denotativa, com o uso comedido de adjetivos — embora existam alguns, como "apocalípticas" e "mortíferas", eles servem para caracterizar os eventos, não para colocar o emissor em primeiro plano.
A técnica para resolver a questão é associar cada função ao elemento da comunicação que ela privilegia: emotiva = emissor; conativa = receptor; referencial = referente/contexto; fática = canal; metalinguística = código; poética = mensagem. No texto, o que se destaca é o assunto, o conteúdo — logo, função referencial. As demais alternativas ou apontam para funções que não predominam, ou apresentam justificativas incorretas para a função indicada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a presença de marcas de outras funções (como adjetivos que sugerem subjetividade) e a função que de fato predomina. A alternativa E, por exemplo, tenta atrair o candidato citando palavras como "apocalípticas" e "mortíferas", mas a existência de alguns adjetivos não torna o texto subjetivo — o foco continua no conteúdo informativo.
Funções da linguagem (Jakobson): Emotiva (centrada no emissor); Conativa (centrada no receptor); Referencial (centrada no referente (assunto)); Fática (centrada no canal); Metalinguística (centrada no código); Poética (centrada na mensagem)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A função fática está centrada no canal de comunicação, ou seja, na verificação do contato entre emissor e receptor. São exemplos típicos: "Alô?", "Está me ouvindo?", "Entendeu?". O texto não tem essa finalidade; ele não busca testar ou manter o canal, mas sim informar sobre a crise climática. A justificativa apresentada — "faz-se um apelo ao leitor" — na verdade descreve a função conativa (apelativa), não a fática. Há, portanto, uma troca de conceitos: a alternativa confunde a função fática com a conativa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A função metalinguística ocorre quando o texto explica o próprio código, ou seja, quando a linguagem fala sobre a linguagem. Exemplo: um dicionário, uma gramática, um texto que explica o que é um soneto. O texto sobre a crise do clima não reflete sobre os procedimentos do fazer textual; ele usa a linguagem para falar de um assunto externo a ela. A justificativa "há reflexões sobre os próprios procedimentos do fazer textual" é inventada — não há nenhuma passagem no texto que trate disso. A alternativa extrapola completamente o conteúdo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A função conativa (apelativa) está centrada no receptor, com o objetivo de persuadi-lo, convencê-lo ou influenciar seu comportamento. É a função típica de propagandas, sermões e discursos políticos. O texto, embora tenha um tom de alerta, não se dirige diretamente ao leitor com verbos no imperativo ("faça", "aja") nem busca uma ação imediata. A justificativa "o canal de recepção do artigo é fundamental para seu alcance" é um desvio de tema: o canal é o meio físico (o jornal, a revista), e sua importância não caracteriza a função conativa. A alternativa tangencia o assunto, falando de algo que não é o foco do texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A função referencial está centrada no referente, ou seja, no assunto, no conteúdo da mensagem. O texto prioriza a transmissão objetiva de informações sobre a crise climática, suas causas e consequências. A justificativa "o conteúdo ganha destaque em relação à forma como o texto é escrito" é precisa: o autor não se preocupa em criar efeitos estéticos (função poética) nem em expressar emoções (função emotiva); ele quer informar. Isso se comprova em trechos como:
"Segundo a pesquisa Datafolha, 77% da população brasileira vivenciou recentemente algum evento desse tipo."
O dado estatístico é uma marca típica da função referencial, que busca objetividade e veracidade. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Não existe uma "função subjetiva" no quadro de Roman Jakobson — a função que se centra no emissor é a emotiva (ou expressiva). Além disso, a justificativa é falha: a presença de adjetivos como "apocalípticas" e "mortíferas" não torna o texto subjetivo, pois eles caracterizam os eventos climáticos de forma objetiva, dentro do contexto informativo. O texto não é centrado no "eu" do autor; ele é centrado no assunto. A alternativa troca o conceito (inventa uma função que não existe) e extrapola o peso dos adjetivos, que são pontuais e não mudam a predominância da função referencial.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a função predominante, pergunte: "o que está em primeiro plano?" Se é o assunto → referencial; se é o emissor → emotiva; se é o receptor → conativa; se é o canal → fática; se é o código → metalinguística; se é a forma da mensagem → poética. No texto, o assunto domina.
Gabarito: letra D. A função referencial é a predominante porque o texto prioriza o conteúdo informativo sobre a crise climática, com dados e explicações objetivas, em detrimento da forma, do emissor ou do receptor.