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Questão de Português — Orações Coordenadas — FGV 2025

PortuguêsOrações Coordenadas
Código
fg167871
Banca
FGV
Órgão
CPRM
Ano
2025
Cargo
Ana Geo ( )

Capítulo I - Mudança

 

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.

 

Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.

 

Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

 

- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.

 

Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.

 

A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas, que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

 

- Anda, excomungado.

 

O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário - e a obstinação da criança irritava-o. Certamente, esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

 

Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés. Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinha Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.

 

E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande. Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam. [...]

 

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 120ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2013 - texto adaptado.

A próxima  questão refere-se ao texto a seguir:

   

Assinale a alternativa correta sobre a estruturação sintática predominante do texto e seu efeito discursivo.

  1. AExploram-se as orações subordinadas, uma vez que os períodos complexos contribuem para a angústia dos personagens.
  2. BObservam-se orações subordinadas, tendo em vista as atribuições circunstanciais relacionadas a ações principais dos personagens.
  3. CNotam-se orações coordenadas, que indicam a sucessão de ações na caminhada dos personagens.
  4. DPercebem-se orações coordenadas, com o sentido de contribuir com o lento passo dos personagens fugindo da seca.
  5. EDestacam-se orações coordenadas e subordinadas, de modo que se constata a confusão da ausência de rumo certo dos personagens.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Notam-se orações coordenadas, que indicam a sucessão de ações na caminhada dos personagens.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Estrutura sintática predominante e efeito discursivo em "Vidas Secas"

Gabarito: letra C. A estruturação sintática predominante do texto é a coordenação de orações, e o efeito discursivo é a sucessão de ações na caminhada dos personagens. Isso se prova pela profusão de períodos compostos por coordenação, em que as orações são sintaticamente independentes e se encadeiam uma após a outra, reproduzindo o ritmo da marcha dos retirantes. Como se lê já no segundo parágrafo: "Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro." — a enumeração de ações e estados, sem hierarquia sintática, é a marca do texto.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique a estruturação sintática predominante e o efeito discursivo dela decorrente. Isso exige duas operações: (1) reconhecer, na morfossintaxe, se o texto se organiza por coordenação (orações independentes) ou subordinação (orações que exercem função sintática em outra); e (2) relacionar essa escolha estrutural ao sentido que ela produz no texto. Não basta classificar a oração — é preciso conectar a forma ao efeito, como a alternativa C faz.

O texto: coordenação como espelho da caminhada

O trecho de Vidas Secas narra a marcha exaustiva de uma família de retirantes. A tese implícita é a desumanização imposta pela seca; os argumentos são as ações encadeadas dos personagens. Sintaticamente, o narrador opta pela parataxe (coordenação): as orações se sucedem sem que uma se subordine à outra, criando um efeito de acúmulo e continuidade. Veja o trecho central:

"Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto."

Aqui, as orações "meteu a faca", "guardou-a", "acocorou-se", "pegou no pulso" são coordenadas assindéticas (sem conjunção), ligadas apenas por vírgulas. Cada uma tem sentido completo e autonomia sintática — nenhuma exerce função de sujeito, objeto ou adjunto em relação à outra. Essa sequência justaposta mimetiza o ritmo da caminhada: um passo após o outro, uma ação após a outra, sem pausas reflexivas. A coordenação, portanto, não é um acaso estilístico; é o recurso que traduz discursivamente a sucessão de ações dos personagens.

A técnica que decide: coordenação × subordinação

A distinção central é: na coordenação, as orações são sintaticamente independentes — podem ser separadas e continuam com sentido completo ("Fabiano meteu a faca na bainha." / "Guardou-a no cinturão."). Na subordinação, uma oração exerce função sintática em relação à outra (sujeito, objeto, adjunto adverbial etc.) e, isolada, vira fragmento ("que se encolhia" sozinho não tem sentido completo).

No texto, há sim orações subordinadas — como a adjetiva "que se encolhia" e a reduzida "frio como um defunto" —, mas elas são pontuais e acessórias. A estrutura predominante é a coordenação, especialmente a assindética (sem conectivo), que domina a narração das ações. A banca explora exatamente essa predominância: a alternativa correta não diz que não há subordinadas; diz que o que predomina é a coordenação, e que o efeito é a sucessão de ações.

Análise das alternativas

Estrutura sintática predominante
  • 1Coordenação (parataxe)
    • Orações independentes
    • Assindéticas (sem conjunção)
    • Efeito: sucessão de ações
  • 2Subordinação (hipotaxe)
    • Função sintática em outra oração
    • Pontual e acessória
    • Ex.: adjetiva "que se encolhia"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Exploram-se as orações subordinadas, uma vez que os períodos complexos contribuem para a angústia dos personagens."

Erro: contradiz o texto. A estrutura predominante não é a subordinação, mas a coordenação. Embora existam períodos com orações subordinadas ("que se encolhia", "que eram ossadas"), eles são minoritários e não definem o ritmo do texto. Além disso, o efeito de angústia não é o principal: o que a coordenação produz é a sucessão de ações, não a introspecção angustiada. A alternativa inverte a predominância sintática e atribui um efeito que o texto não prioriza.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Observam-se orações subordinadas, tendo em vista as atribuições circunstanciais relacionadas a ações principais dos personagens."

Erro: contradiz o texto e restringe o alcance. Novamente, a predominância não é de subordinadas. As "atribuições circunstanciais" (adjuntos adverbiais como "devagar", "na areia do rio seco") são termos da oração, não orações subordinadas adverbiais. A alternativa confunde adjunto adverbial (termo) com oração subordinada adverbial (oração), e ainda erra ao afirmar que essa é a estrutura predominante.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Notam-se orações coordenadas, que indicam a sucessão de ações na caminhada dos personagens."

Correta. A alternativa acerta nos dois pontos: (1) a estrutura predominante é a coordenação, como se vê em "Arrastaram-se para lá, devagar...", "Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino"; e (2) o efeito discursivo é a sucessão de ações, pois as orações independentes se encadeiam como os passos da marcha. A coordenação assindética (sem conjunção) é a marca do texto, e ela cria exatamente o ritmo de continuidade da caminhada.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Percebem-se orações coordenadas, com o sentido de contribuir com o lento passo dos personagens fugindo da seca."

Erro: extrapola e troca o efeito. A alternativa acerta ao identificar a coordenação, mas erra no efeito discursivo. O texto não diz que a coordenação "contribui com o lento passo" — ela reproduz a sucessão de ações, não a lentidão. Além disso, "fugindo da seca" é uma interpretação que o texto não autoriza explicitamente: os personagens caminham, mas o narrador não afirma que estão "fugindo" — essa é uma conclusão de fora do texto. A alternativa acrescenta uma motivação (fuga) que não está no trecho.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Destacam-se orações coordenadas e subordinadas, de modo que se constata a confusão da ausência de rumo certo dos personagens."

Erro: generaliza e extrapola. Embora o texto tenha tanto coordenadas quanto subordinadas, a alternativa erra ao dizer que ambas se "destacam" igualmente — a predominância é de coordenadas. Além disso, o efeito de "confusão da ausência de rumo" é uma extrapolação: o texto diz que Fabiano "precisava chegar, não sabia onde", mas isso é uma característica do personagem, não um efeito da estrutura sintática. A alternativa inventa uma relação entre a mistura de orações e a confusão mental, relação que o texto não estabelece.

Fechamento

A regra de ouro desta questão: a estrutura sintática predominante é a coordenação, e o efeito é a sucessão de ações. Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza esta relação entre forma e sentido?" — a C é a única em que ambos os elementos (coordenação + sucessão) estão diretamente ancorados no texto, sem acréscimos de fora.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "estruturação predominante", conte as orações do texto: se a maioria é independente e justaposta (sem conjunção subordinativa), a predominância é de coordenação. Desconfie de alternativas que atribuem efeitos psicológicos (angústia, confusão) à sintaxe — o efeito deve ser discursivo, ou seja, ligado ao que a estrutura faz no texto, não a estados mentais que o leitor projeta.

Gabarito: letra C.

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