Questão de Português — Elementos da Comunicação e Funções da Linguagem — FGV 2025
Português›Elementos da Comunicação e Funções da Linguagem
Código
fg167905
Banca
FGV
Órgão
CPRM
Ano
2025
Cargo
Pes Geo ( )
Política e politicalha
A política afina o espírito humano, educa os povos no
conhecimento de si mesmos, desenvolve nos indivíduos a
atividade, a coragem, a nobreza, a previsão, a energia, cria, apura,
eleva o merecimento.
Não é esse jogo da intriga, da inveja e da incapacidade, a que entre
nós se deu a alcunha de politicagem. Esta palavra não traduz ainda
todo o desprezo do objeto significado. Não há dúvida que rima
bem com criadagem e parolagem, afilhadagem e ladroagem. Mas
não tem o mesmo vigor de expressão que os seus consoantes.
Quem lhe dará com o batismo adequado? Politiquice?
Politiquismo? Politicaria? Politicalha? Neste último, sim, o sufixo
pejorativo queima como um ferrete, e desperta ao ouvido uma
consonância elucidativa.
Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se
relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se
repulsam mutuamente.
A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos,
regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A politicalha
é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais.
Constitui a política uma função, ou o conjunto das funções do
organismo nacional: é o exercício normal das forças de uma nação
consciente e senhora de si mesma. A politicalha, pelo contrário, é
o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela
contaminação de parasitas inexoráveis. A política é a higiene dos
países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de
moralidade estragada.
(BARBOSA, R., Obras completas de Rui Barbosa).
A questão da prova de Língua Portuguesa refere-se ao TEXTO a seguir: Todo ato comunicativo pressupõe um objetivo, que pode ser percebido pelo papel dos elementos da comunicação. No texto, o elemento da comunicação predominante é o
Areceptor, já que o foco está no convencimento do leitor acerca do que se constitui a política.
Bcódigo, uma vez que o texto usa a metalinguagem, explorando os sufixos, por exemplo, para explicar o que é a política.
Cemissor, já que o foco está na estrutura expressiva do texto, com o uso de adjetivações e vocabulário expressivo.
Dcanal de comunicação, já que há uma preocupação com o meio pelo qual o texto irá circular.
Ereferente, uma vez que o texto busca, por meio de definições, caracterizar a política e diferi-la de práticas nocivas à sociedade.
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GabaritoE — referente, uma vez que o texto busca, por meio de definições, caracterizar a política e diferi-la de práticas nocivas à sociedade.
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Função da linguagem predominante no texto de Rui Barbosa
Gabarito: letra E. O texto de Rui Barbosa tem como elemento predominante o referente, pois o autor se dedica a definir e diferenciar os conceitos de "política" e "politicalha", ou seja, o foco está no assunto (o referente), não no emissor, no receptor, no código ou no canal. Como se lê no último parágrafo: "A política é a arte de gerir o Estado... A politicalha é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais." — o texto é uma exposição conceitual, típica da função referencial (ou denotativa).
O comando e o que ele pede
A questão pergunta qual elemento da comunicação é predominante no texto. Isso é uma questão de função da linguagem: cada função destaca um dos seis elementos (emissor, receptor, mensagem, código, canal, referente). O comando "predominante" indica que pode haver mais de uma função, mas uma se sobressai. Aqui, o texto é claramente dissertativo-expositivo: o autor apresenta definições e contrastes, sem apelo direto ao leitor, sem subjetividade marcada, sem preocupação com a forma poética. O centro é o conteúdo, o assunto.
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
O texto de Rui Barbosa estabelece uma oposição entre dois conceitos: a política (positiva, nobre) e a politicalha (pejorativa, nociva). O autor define cada um e os contrapõe:
"Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente."
E, no parágrafo final, ele dá as definições precisas:
"A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A politicalha é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais."
O objetivo do texto é informar e esclarecer o leitor sobre o que é cada coisa, ou seja, o foco está no referente (o assunto). Não há tentativa de convencer o leitor a agir (função apelativa), não há expressão de emoções do autor (função emotiva), não há discussão sobre o próprio código (função metalinguística), e o canal não é tematizado.
A técnica: como identificar a função predominante
Para identificar a função da linguagem, pergunte: qual elemento da comunicação está em relevo?
Se o emissor (eu) → função emotiva.
Se o receptor (tu/você) → função conativa/apelativa.
Se a mensagem (a forma) → função poética.
Se o código (a língua em si) → função metalinguística.
Se o canal (o meio físico) → função fática.
Se o referente (o assunto, o contexto) → função referencial.
No texto, o autor fala sobre política e politicalha — o assunto é o centro. As definições são objetivas, com linguagem denotativa (apesar de algumas metáforas, como "malária dos povos"), e o propósito é expor um conceito. Isso é a marca da função referencial.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o foco está no convencimento do leitor (função apelativa). No entanto, o texto não faz apelo direto ao leitor, não usa imperativos nem vocativos. O autor apenas define e diferencia conceitos, sem tentar persuadir o leitor a adotar uma postura. O texto é expositivo, não argumentativo-persuasivo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito (metalinguagem). A alternativa afirma que o texto usa metalinguagem porque explora sufixos. De fato, o autor discute os sufixos de "politicalha" ("Politiquice? Politiquismo? Politicaria? Politicalha?"), mas isso é um recurso pontual, não o foco predominante do texto. A metalinguagem ocorre quando o código é usado para falar do próprio código, mas aqui o autor fala dos sufixos apenas para ilustrar a pejoratividade da palavra, não para explicar a língua em si. O objetivo central continua sendo definir os conceitos.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (foco no emissor). A alternativa afirma que o foco está na estrutura expressiva (função poética/emotiva). Embora o texto tenha adjetivações e vocabulário expressivo ("envenenamento crônico", "parasitas inexoráveis"), isso é estilo, não a função predominante. O autor não está expressando suas emoções pessoais (função emotiva) nem valorizando a forma pela forma (função poética). O conteúdo informativo prevalece.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: fuga ao tema (canal). A alternativa menciona o canal de comunicação, mas o texto não faz nenhuma referência ao meio físico pelo qual a mensagem circula (papel, internet, etc.). O canal é um elemento da comunicação, mas não está em relevo aqui. A alternativa é uma extrapolação — não há pista no texto que sustente essa ideia.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa correta afirma que o elemento predominante é o referente, pois o texto busca caracterizar a política e diferenciá-la de práticas nocivas. Isso é exatamente o que o texto faz: define política e politicalha, mostrando suas diferenças. O referente é o assunto da mensagem, e aqui o assunto é o centro. Como vimos, o texto é uma exposição conceitual, típica da função referencial.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a função predominante, pergunte: "O texto fala sobre algo (referente), ou fala com alguém (receptor), ou fala de si (emissor)?" Se o foco é o assunto, é função referencial.
Conclusão
A questão exige reconhecer que o texto de Rui Barbosa é referencial, pois seu objetivo é definir e contrastar conceitos. As demais alternativas ou extrapolam (canal), ou contradizem o texto (convencimento, emotividade), ou confundem recurso pontual com função predominante (metalinguagem).