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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001709
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Analista de Segurança da Informação
Uma vela para Dario


   Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

   Dois ou trés passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espumа surgem no canto da boca.

   Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

   A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

    Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

     Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

     O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete A polícia decide chamar o rabecão.

     A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vé-lo, todo o ar de um defunto.

     Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

     Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

     Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
No trecho Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delicias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso, os termos destacados sugerem que
  1. Aa morte de Dario gerara uma comoção superficial e convertera-se em mero espetáculo.
  2. Ba situação levou ao encerramento das atividades do café e dispersão das pessoas em virtude do luto.
  3. CDario foi rapidamente assistido e retirado do local pelos passantes, embora não tenha sobrevivido.
  4. Dos frequentadores do café estavam preocupados em prestar socorro a Dario, ainda que desordenadamente.
  5. Eo ambiente descrito é de luto coletivo e comoção entre os presentes, apesar da aparente indiferença geral.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — a morte de Dario gerara uma comoção superficial e convertera-se em mero espetáculo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Morte como espetáculo – a superficialidade dos passantes

Gabarito: letra A. O trecho citado descreve pessoas que "apreciam o incidente" e "gozam as delícias da noite" enquanto Dario agoniza. Isso revela que a comoção é superficial e a situação se torna um mero espetáculo para a multidão.

A questão pede interpretação (o que os termos sugerem), e a pista está na oposição entre o sofrimento de Dario e o prazer dos curiosos. Vejamos cada alternativa.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite."

As expressões "apreciam o incidente" e "gozam as delícias da noite" indicam que a morte de Dario é tratada como um entretenimento. A comoção é superficial, pois as pessoas se divertem enquanto ele morre. A alternativa parafraseia corretamente essa ideia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O café não encerra atividades; está "ocupado" por pessoas que comem e bebem. Não há luto – há gozo. O texto diz explicitamente que "gozam as delícias da noite".

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. Dario não foi "rapidamente assistido e retirado". Pelo contrário, é arrastado para um táxi, depois deixado na peixaria, pisoteado dezessete vezes. O texto mostra desprezo, não assistência.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Os frequentadores do café estão "apreciando o incidente", não preocupados em socorrer. Não há ação de socorro descrita nesse trecho; há indiferença e prazer.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Não há "luto coletivo" nem "comoção". As pessoas comem, bebem e se divertem. A aparente indiferença é real, e não há luto – a comoção é apenas aparente (superficial), mas a alternativa tenta negar a indiferença, o que o texto confirma.

PEGA ESSA DICA!

Sempre atente ao contraste entre a ação dos personagens e a circunstância trágica. Palavras como "apreciam" e "gozam" são pistas de ironia e crítica social.

Gabarito: letra A

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