Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001714
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Analista de Segurança da Informação
Uma vela para Dario


   Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

   Dois ou trés passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espumа surgem no canto da boca.

   Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

   A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

    Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

     Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

     O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete A polícia decide chamar o rabecão.

     A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vé-lo, todo o ar de um defunto.

     Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

     Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

     Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
Simbolizam a morte de Dario todas as seguintes expressões:
  1. Aabre a boca /move os lábios /não se ouve resposta
  2. Bcarro negro investe a multidão / correria de uns duzentos curiosos/tropеçат по сorpo de Dario
  3. Ccomendo e bebendo/gozam as delicias da noite /ocupam toda a rua e as calçadas
  4. Dguarda-chuva no braço esquerdo / diminui o passo até parar/encosta-se a uma parede
  5. Eo cachimbo apagou / a espuma sumiu / O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — o cachimbo apagou / a espuma sumiu / O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Simbolismo da morte em "Uma vela para Dario"

Gabarito: letra E. A única alternativa que reúne expressões que, no texto de Dalton Trevisan, simbolizam diretamente a morte de Dario. O "cachimbo apagado" (vida que se extingue), "a espuma sumiu" (cessação da respiração) e "o toco de vela apaga-se" (fim da luz da vida) formam um conjunto de imagens conotativas da morte. As demais alternativas descrevem ações ou eventos que não carregam esse simbolismo, sendo meros fatos da narrativa.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta" – Essas ações ocorrem enquanto Dario ainda está vivo, tentando falar, mas sem sucesso. Não há simbolismo de morte; são sintomas do mal-estar.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Carro negro investe a multidão / correria de uns duzentos curiosos / tropeçam no corpo de Dario" – Descreve a chegada da polícia e a multidão que pisoteia o corpo. Embora o corpo já esteja morto, as expressões não simbolizam a morte; são eventos posteriores que mostram indiferença.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Comendo e bebendo / gozam as delícias da noite / ocupam toda a rua e as calçadas" – Mostra a reação das pessoas, que aproveitam a noite enquanto Dario agoniza. É um contraste irônico, mas não é símbolo da morte.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Guarda-chuva no braço esquerdo / diminui o passo até parar / encosta-se a uma parede" – Início do conto, Dario ainda vivo, apenas sentindo os primeiros sintomas. Não há simbolismo funerário.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O cachimbo apagou / a espuma sumiu / O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva" – Todas essas imagens remetem ao apagamento, à extinção. O cachimbo apagado simboliza a vida que se vai; a espuma que some indica a parada da respiração; a vela que se apaga com a chuva é a metáfora final da morte. O próprio título "Uma vela para Dario" já anuncia o simbolismo da vela como oferenda fúnebre.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar símbolos, procure elementos que, no contexto, vão além do sentido literal. No conto, o apagar de objetos (cachimbo, vela) e o desaparecimento de sinais vitais (espuma) são pistas do fim.

Conclusão: Somente a alternativa E contém exclusivamente expressões que simbolizam a morte de Dario. As demais misturam fatos narrativos sem valor simbólico.

Link permanente: /questoes/gp001714