Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos
Código
gp001723
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Analista de Segurança da Informação
As ruas abertas à livre circulação de pessoas e veículos representam uma das imagens mais vivas da cidade moderna. Apesar
de as cidades ocidentais incorporarem várias e até contraditórias versões da modernidade, há um grande consenso a respeito de quais
são os elementos básicos da experiência moderna de vida pública urbana: a primazia e a abertura de ruas; a circulação livre; os
encontros impessoais e anônimos de pedestres; o uso público e espontâneo das ruas e praças; e a presença de pessoas de diferentes
grupos sociais passeando e observando os outros que passam, olhando vitrines, fazendo compras, sentando nos cafés, participando
de manifestações políticas, apropriando as ruas para seus festivais e comemorações, ou usando os espaços especialmente designados
para o lazer das massas. Esses elementos são associados à vida moderna em cidades capitalistas pelo menos desde a reforma de
Paris promovida pelo barão de Haussmann na segunda metade do século XIХ.
No cerne da concepção de vida pública urbana incorporada na Paris moderna estavam as noções de que o espaço da cidade é
aberto para ser usado e usufruído por qualquer um e de que a sociedade de consumo que ele abriga poderia tornar-se acessível a todos.
É claro que esse nunca foi exatamente o caso, em Paris ou em qualquer outro lugar.
As cidades modernas foram sempre marcadas por
desigualdades sociais e segregação espacial e nunca deixaram de ser apropriadas de formas bastante diferentes por diversos grupos,
dependendo de sua posição social e de seu poder. No entanto, a despeito das persistentes desigualdades e injustiças sociais, as cidades
ocidentais modernas sempre mantiveram vários sinais de abertura, sobretudo no que diz respeito à circulação e ao consumo. Esses sinais
contribuíram para manter o valor positivo associado à ideia de um espaço público aberto, acessível a todos e a qualquer um.
As cidades modernas têm servido de cenário para todo tipo de manifestação política. Na verdade, a promessa de incorporação à
sociedade moderna incluía não só a cidade e o consumo, mas tambéma ordem politica. As imagens da cidade moderna são análogas
àquelas da ordem liberal-democrática, consolidadaa partir da ficção do contrato social entre pessoas livres e iguais e que moldou a esfera
política moderna. Essa ficção, tão radical quanto aquela da cidade aberta, ajudou a destruir a ordem social estamental que a precedeu.
No entanto, foi só depois de muitas lutas que as definições de quem poderia serconsiderado "livre e igual"foram pouco a pouco expandidas.
Tanto a cidade aberta e sem exclusões quanto a ordem política incorporando todos os cidadãos como iguais nunca existiram, mas seus
ideais fundadores e suas promessas de incorporação mantiveram seu poder por pelo menos dois séculos, dando forma a experiências de
cidadania e de vida urbana e legitimando as ações de vários grupos excluldos em suas reivindicações por incorporação.
(Adaptado de: CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34;
Edusp, 2011, pp 302 a 305)
Segundo o texto de Teresa Caldeira, a cidade moderna ideal seria
Aum espaço público aberto e acessível a todos, marcado pela livre circulação, encontros anônimos, diversidade social e usocoletivo das ruas e praças.
Buma cidade em que o controle estatal limitaria o uso dos espaços públicos, priorizando a ordem e a segurança em detrimentoda plena liberdade de circulação.
Ccaracterizada pela forte segregação espacial, na qual diferentes grupos sociais ocupam áreas rigidamente separadas e compouca interação entre si.
Dum espaço urbano voltado prioritariamente à produção industrial, onde o acesso aos bens e serviços se restringiria às eliteseconômicas.
Eorganizada em torno de tradições comunitárias estáveis, com relações pessoais duradouras e pouca circulação de grupossociais cuja identidade instaurasse diferenças radicais.
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GabaritoA — um espaço público aberto e acessível a todos, marcado pela livre circulação, encontros anônimos, diversidade social e uso
coletivo das ruas e praças.
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Interpretação do texto – Ideal da cidade moderna
Gabarito: letra A. A alternativa A parafraseia fielmente a descrição da cidade moderna ideal apresentada no texto: um espaço público aberto e acessível a todos, com livre circulação, encontros anônimos, diversidade social e uso coletivo. Essa é a concepção central exposta nos primeiros parágrafos.
“As ruas abertas à livre circulação de pessoas e veículos representam uma das imagens mais vivas da cidade moderna.” E complementa: “a primazia e a abertura de ruas; a circulação livre; os encontros impessoais e anônimos de pedestres; o uso público e espontâneo das ruas e praças; e a presença de pessoas de diferentes grupos sociais…” (1º parágrafo).
“No cerne da concepção de vida pública urbana incorporada na Paris moderna estavam as noções de que o espaço da cidade é aberto para ser usado e usufruído por qualquer um…” (2º parágrafo).
Portanto, a resposta correta é a que sintetiza esses elementos.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa reúne exatamente os traços do ideal: “espaço público aberto e acessível a todos” (paráfrase do trecho “aberto para ser usado e usufruído por qualquer um”), “livre circulação, encontros anônimos, diversidade social e uso coletivo das ruas e praças” (elementos listados no 1º parágrafo). Nada é acrescentado ou suprimido.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a cidade ideal teria “controle estatal limitando o uso dos espaços públicos, priorizando ordem e segurança”. O texto, porém, defende abertura e livre circulação como essenciais. Não há menção a controle estatal ou restrição. A alternativa contradiz o texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Diz que a cidade ideal seria “caracterizada pela forte segregação espacial, com grupos sociais rigidamente separados”. O texto reconhece que as cidades reais são marcadas por desigualdades e segregação, mas deixa claro que o ideal é o oposto: um espaço aberto e acessível a todos. A alternativa troca o ideal pelo real (erro de extrapolação ou confusão de conceitos).
Alternativa D — ❌ Incorreta
Apresenta uma cidade “voltada prioritariamente à produção industrial, com acesso restrito às elites econômicas”. Nada no texto sustenta essa visão. O ideal mencionado é de sociedade de consumo acessível a todos, não de produção industrial ou elitização. A alternativa foge ao escopo do texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Descreve uma cidade “organizada em torno de tradições comunitárias estáveis, com relações pessoais duradouras e pouca circulação”. Ao contrário, o texto valoriza encontros impessoais e anônimos, circulação livre e diversidade social. A alternativa contradiz o texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a cidade real (com seus problemas de segregação e desigualdade – que o texto menciona como fato histórico) e o ideal de cidade moderna que o texto defende. Alternativas como a C parecem corretas para quem não percebe essa distinção.