Os dois planos em "Uma vela para Dario"
Gabarito: letra E. A narrativa visível (história 1) é o ataque cardíaco de Dario e a aglomeração de pessoas; a história oculta (história 2) é o progressivo roubo de seus pertences, conforme se revela em detalhes ao longo do conto. A passagem que sustenta: no desenrolar, Dario perde os sapatos, o alfinete de pérola, o relógio e, por fim, a aliança de ouro – esta última só destacada "molhando no sabonete" enquanto vivo, mas agora desaparecida.
A tese de Piglia afirma que um conto clássico narra uma história em primeiro plano e constrói em segredo uma segunda, que se encontra com a primeira ao fim. Em "Uma vela para Dario", o primeiro plano é o colapso público de Dario e a reação da multidão; o segundo plano é a subtração silenciosa de seus objetos de valor, consumada enquanto todos estão distraídos.
Alternativa A — ❌ Incorreta
O texto não desenvolve uma investigação policial sobre a causa da morte. A polícia aparece apenas para constatar o óbito e chamar o rabecão, sem qualquer investigação. O segundo plano é o roubo, não a investigação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Embora a multidão e os moradores estejam em cena, o segundo plano não trata da vida pregressa de Dario. Sabe-se apenas seu nome, idade e sinal de nascença pelos papéis – isso é informação superficial, não um segundo plano narrativo. O roubo é o verdadeiro segundo plano.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A tentativa de socorro é desorganizada e nada institucional. A crítica à ineficiência pública não é o foco do segundo plano; o roubo dos pertences é o elemento oculto que percorre todo o conto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Dario não é humanizado gradualmente; ao contrário, ele é progressivamente despojado de seus pertences e tratado como objeto. A humanização não ocorre – a multidão o ignora, pisa nele e o abandona.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O ataque cardíaco é o evento que desencadeia a narrativa visível: Dario passa mal, senta-se, deita-se, morre. Paralelamente, o conto revela, em pequenos indícios, o roubo de seus bens: o alfinete de pérola some, o relógio desaparece, os sapatos são levados e, no final, a aliança de ouro também não está mais em seu dedo. Esses furtos constituem a história secreta, cifrada nos interstícios da ação principal.
Gabarito: letra E