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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001727
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Assistente Social
Uma vela para Dario


   Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

   Dois ou trés passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espumа surgem no canto da boca.

   Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

   A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

    Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

     Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

     O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete A polícia decide chamar o rabecão.

     A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vé-lo, todo o ar de um defunto.

     Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

     Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

     Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
Apresenta uma síntese coerente com o sentido geral do texto o que se encontra em:
  1. AO conto descreve uma ação coletiva espontânea em torno de um acontecimento urbano; a morte de Dario é tratada comomotivo de intervenção positiva comunitária.
  2. BO conto retrata a comoção coletiva diante de um homem que recebe imediato socorro e atenção solidária de todos os quepassam pelo local.
  3. CA narrativa evidencia a transformação de uma tragédia urbana em espetáculo público, marcado pela indiferença e curiosidade das pessoas diante da morte de Dario.
  4. DO texto apresenta uma crítica ao sistema de saúde, destacando a ineficiência dos serviços de emergência no atendimentorápido às vítimas em vias públicas.
  5. EA história enfatiza o isolamento de Dario como consequência de sua escolha voluntária de permanecer na rua, sem esboçarqualquer interesse em uma intervenção externa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — A narrativa evidencia a transformação de uma tragédia urbana em espetáculo público, marcado pela indiferença e curiosidade das pessoas diante da morte de Dario.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise da síntese do conto "Uma vela para Dario"

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que capta corretamente o sentido geral do texto: a morte de Dario é transformada em espetáculo público, marcado pela indiferença e curiosidade da multidão. Essa ideia é explicitamente confirmada em passagens como "Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite" e "Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes". O conto não retrata solidariedade, crítica ao sistema de saúde ou escolha voluntária de Dario; o foco está no comportamento voyeurístico e indiferente da população.

O comando pede uma "síntese coerente com o sentido geral do texto", ou seja, a alternativa que melhor resume a temática central. Vejamos cada alternativa.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"ação coletiva espontânea... intervenção positiva comunitária"

O texto mostra o contrário: as pessoas não agem para ajudar genuinamente; discutem quem pagará o táxi, deixam Dario caído na peixaria, e furtam seus pertences (relógio, alfinete, sapatos, aliança). Não há "intervenção positiva". Erro: contradiz o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"comoção coletiva... imediato socorro e atenção solidária"

Da mesma forma, o socorro é tardio e desorganizado; o motorista do táxi exige pagamento, e a "atenção solidária" é substituída por curiosidade mórbida. As pessoas vão ao café para "gozar as delícias da noite". Erro: contradiz o texto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"transformação de uma tragédia urbana em espetáculo público, marcado pela indiferença e curiosidade"

Evidências diretas:

  • "Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente" — apreciação do sofrimento alheio.

  • "Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes" — total descaso.

  • "A multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias" — a morte encerra o "espetáculo".

A indiferença é reforçada pelo furto dos objetos e pela demora no atendimento. Correta: síntese fiel.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"crítica ao sistema de saúde... ineficiência dos serviços de emergência"

Embora haja menção a ambulância e ao hospital (a farmácia, o rabecão), o texto não desenvolve uma crítica ao sistema de saúde. O foco narrativo está na reação da multidão, não na estrutura de atendimento. Erro: extrapolação (fora do escopo). A alternativa introduz uma temática que não é central.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"isolamento de Dario como consequência de sua escolha voluntária de permanecer na rua"

Dario não escolhe ficar; ele sofre um ataque e desmaia. A expressão "sem esboçar qualquer interesse em uma intervenção externa" também é falsa: ele está inconsciente, não há escolha. Erro: contradiz o texto e extrapola.

Conclusão: Apenas a alternativa C sintetiza adequadamente o enredo e a crítica social do conto, centrada na indiferença e no voyeurismo da multidão diante da morte de um desconhecido.

Gabarito: letra C.

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