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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001731
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Assistente Social
Uma vela para Dario


   Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

   Dois ou trés passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espumа surgem no canto da boca.

   Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

   A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

    Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

     Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

     O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete A polícia decide chamar o rabecão.

     A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vé-lo, todo o ar de um defunto.

     Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

     Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

     Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
No trecho Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso, os termos destacados sugerem que
  1. Aa situação levou ao encerramento das atividades do café e dispersão das pessoas em virtude do luto.
  2. BDario foi rapidamente assistido e retirado do local pelos passantes, embora não tenha sobrevivido.
  3. Cos frequentadores do café estavam preocupados em prestar socorro a Dario, ainda que desordenadamente.
  4. Do ambiente descrito é de luto coletivo e comoção entre os presentes, apesar da aparente indiferença geral.
  5. Ea morte de Dario gerara uma comoção superficial e convertera-se em mero espetáculo.
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GabaritoE — a morte de Dario gerara uma comoção superficial e convertera-se em mero espetáculo.

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Análise do conto 'Uma vela para Dario' — Interpretação dos termos destacados

Gabarito: letra E. Os termos "apreciam o incidente" e "gozam as delícias da noite" indicam que a multidão tratou a morte de Dario como entretenimento, um espetáculo superficial, e não como um luto genuíno. A passagem que comprova:

Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

O contraste entre a diversão dos espectadores e a solidão do moribundo revela a superficialidade da comoção. A alternativa E capta exatamente essa ideia.

Alternativa A — ❌ Incorreta

O texto afirma que "o café próximo [estava] ocupado pelas pessoas que apreciam o incidente" e que elas estavam "comendo e bebendo", gozando a noite. Não há encerramento das atividades; a dispersão ocorre depois, mas não por luto. A alternativa contradiz o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Dario não foi "rapidamente assistido": foi arrastado, largado na porta de uma peixaria, pisoteado e teve seus pertences roubados (relógio, sapatos, aliança). A passagem "Dario conduzido de volta e recostado à parede" mostra descaso. Contradiz o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Os frequentadores do café estavam "apreciando o incidente" e "gozando as delícias da noite", não preocupados em prestar socorro. A frase "Dario em sossego e torto no degrau da peixaria" mostra abandono. Contradiz o texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Não há "luto coletivo" nem "comoção entre os presentes". A multidão tropeça no corpo, come, bebe e se dispersa. A "aparente indiferença" é real, não aparente. O texto diz: "a última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar." Contradiz o texto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A expressão "apreciam o incidente" revela que a morte foi tratada como espetáculo; "gozam as delícias da noite" mostra a superficialidade. O conto inteiro critica a indiferença social, transformando a morte em mero entretenimento. Perfeita paráfrase do sentido dos termos destacados.

Gabarito: letra E

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