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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001793
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Enfermeiro
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.


Uma vela para Dario


     Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

    Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

    Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se v guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

    A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

   Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

    Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

    O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

   A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.

   Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

    Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

    Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)

Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.



Com a passagem acima o autor pretende destacar que

  1. Aa presença do menino indica que a polícia já havia encerrado a ocorrência e liberado o corpo para remoção imediata.
  2. Ba atitude do menino configura um ato solidário e desinteressado praticado por alguém socialmente vulnerável.
  3. Co ato do menino reforça o caráter cômico da narrativa, transformando a cena da morte em uma situação de humorinvoluntário.
  4. Da atitude representa uma tentativa de exploração econômica da situação de morte de Dario, já que o menino vende uma velano local do acidente.
  5. Eo gesto do menino confirma a indiferença geral das pessoas, pois ele apenas observa o corpo sem qualquer envolvimentoemocional.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — a atitude do menino configura um ato solidário e desinteressado praticado por alguém socialmente vulnerável.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Passagem sobre o menino da vela em "Uma vela para Dario"

Gabarito: letra B. O autor destaca que a atitude do menino é um ato solidário e desinteressado praticado por alguém socialmente vulnerável. A passagem descreve o menino como "de cor e descalço" (vulnerabilidade social) e ele "vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver" – gesto espontâneo, sem qualquer interesse material.

A questão pede interpretação do efeito pretendido pelo autor com essa cena. O menino surge após todos terem se dispersado, em contraste com a multidão que apenas observou, comeu, bebeu e depois foi embora deixando Dário abandonado. O ato de acender uma vela é um gesto simbólico de respeito e compaixão.

"Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver."

A descrição "de cor e descalço" evidencia sua condição humilde; ele não ganha nada com isso – a vela não é vendida, não há barganha. É um gesto genuíno, o que torna correta a alternativa B.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"a presença do menino indica que a polícia já havia encerrado a ocorrência e liberado o corpo para remoção imediata."

Erro: Contradiz o texto. A polícia aparece, não identifica o corpo e chama o rabecão (veículo funerário), mas o corpo continua lá: "Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão". O menino aparece durante essa espera, não depois de liberado. A alternativa extrapola ao afirmar que a ocorrência foi encerrada e o corpo liberado – o texto não diz isso.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"a atitude do menino configura um ato solidário e desinteressado praticado por alguém socialmente vulnerável."

Sustentação direta no texto. O menino é descrito como "de cor e descalço" – marcador de vulnerabilidade social. Ele "vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver" – ação voluntária, sem cobrança, sem troca. O contraste com a multidão que comeu e bebeu enquanto Dario morria ("Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite") reforça a solidariedade isolada do menino.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"o ato do menino reforça o caráter cômico da narrativa, transformando a cena da morte em uma situação de humor involuntário."

Erro: Fora do escopo (opinião embutida). A narrativa é trágica e irônica, mas não cômica. O tom é de denúncia da indiferença alheia. A vela acesa por um menino pobre é um gesto sério e solene, não humorístico. Não há qualquer elemento de humor na passagem.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"a atitude representa uma tentativa de exploração econômica da situação de morte de Dario, já que o menino vende uma vela no local do acidente."

Erro: Extrapolação. O texto não menciona venda, pagamento ou qualquer transação econômica. O menino simplesmente "vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver". Não há indício de que ele estivesse vendendo velas; pelo contrário, a vela é um objeto que ele traz consigo e acende espontaneamente.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"o gesto do menino confirma a indiferença geral das pessoas, pois ele apenas observa o corpo sem qualquer envolvimento emocional."

Erro: Contradiz o texto. O menino não apenas observa; ele age: traz uma vela e a acende. Isso demonstra envolvimento emocional e compaixão, em contraste com a multidão que se dispersou. A alternativa inverte o sentido do gesto.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar uma passagem, atente para os detalhes descritivos ("de cor e descalço") e para as ações do personagem (acender a vela). Eles revelam a intenção do autor e o contraste com o contexto geral (indiferença dos outros).

Gabarito: letra B.

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