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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001794
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Enfermeiro
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.


Uma vela para Dario


     Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

    Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

    Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se v guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

    A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

   Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

    Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

    O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

   A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.

   Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

    Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

    Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
Simbolizam a morte de Dario todas as seguintes expressões:
  1. Aabre a boca /move os lábios/não se ouve resposta
  2. Bcarro negro investe a multidão / correria de uns duzentos curiosos/tropeçam no corpo de Dario
  3. Ccomendo e bebendo /gozam as delícias da noite /ocupam toda a rua e as calçadas
  4. Dguarda-chuva no braço esquerdo / diminui o passo até parar/encosta-se a uma parede
  5. Eo cachimbo apagou/a espuma sumiu /O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva
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GabaritoE — o cachimbo apagou/a espuma sumiu /O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva

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Expressões que simbolizam a morte de Dario

Gabarito: letra E. A questão pede que identifiquemos, entre as alternativas, aquela em que todas as expressões simbolizam a morte de Dario. A resposta correta é a letra E, pois cada uma das três expressões – "o cachimbo apagou", "a espuma sumiu" e "O toco de vela apaga-se" – carrega um sentido conotativo de fim da vida, de extinção.

Análise do texto

O conto narra a agonia e morte de Dario em via pública, enquanto a multidão assiste passivamente. Vários elementos são usados como símbolos da morte iminente ou consumada:

  • "o cachimbo apagou" (linha 10): o cachimbo, que antes estava aceso, apaga-se; a chama que se extingue metaforiza o fim da vida.

  • "a espuma sumiu" (linha 39): a espuma que saía da boca de Dario durante a crise desaparece, indicando a cessação dos sinais vitais.

  • "O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva" (linha 48): a vela acesa ao lado do cadáver se apaga, símbolo clássico da morte (a luz que se apaga).

Todas essas imagens estão diretamente associadas ao momento da morte ou ao cadáver, e seu sentido é figurado (conotativo): representam o fim da existência.

Por que as outras alternativas estão erradas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"abre a boca /move os lábios/não se ouve resposta"

Erro: generalização indevida. Essas ações ocorrem antes da morte, quando Dario ainda tenta falar. São sintomas do mal súbito, não símbolos do óbito.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"carro negro investe a multidão / correria de uns duzentos curiosos/tropeçam no corpo de Dario"

Erro: afirmação incompleta. Descreve a chegada da polícia e a reação da multidão após a morte, mas as expressões não simbolizam a morte em si; são circunstâncias externas.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"comendo e bebendo /gozam as delícias da noite /ocupam toda a rua e as calçadas"

Erro: extrapolação. Refere-se ao comportamento indiferente dos curiosos, que transformam a agonia em espetáculo. Nenhuma das expressões remete diretamente à morte de Dario.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"guarda-chuva no braço esquerdo / diminui o passo até parar/encosta-se a uma parede"

Erro: troca de conceito. São ações iniciais de Dario, que ainda está vivo. Não há simbolismo de morte.

Conclusão

Apenas a alternativa E reúne expressões que, no contexto do texto, funcionam como símbolos inequívocos da morte: o apagar do cachimbo, o sumiço da espuma e o apagar da vela. Cada uma dessas imagens representa o fim da vida de Dario.

Gabarito: letra E

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