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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001795
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Enfermeiro
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.


Uma vela para Dario


     Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

    Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

    Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se v guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

    A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

   Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

    Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

    O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

   A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.

   Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

    Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

    Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
No trecho Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso, os termos destacados sugerem que
  1. Aa morte de Dario gerara uma comoção superficial e convertera-se em mero espetáculo.
  2. Ba situação levou ao encerramento das atividades do café e dispersão das pessoas em virtude do luto.
  3. CDario foi rapidamente assistido e retirado do local pelos passantes, embora não tenha sobrevivido.
  4. Dos frequentadores do café estavam preocupados em prestar socorro a Dario, ainda que desordenadamente.
  5. Eo ambiente descrito é de luto coletivo e comoção entre os presentes, apesar da aparente indiferença geral.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — a morte de Dario gerara uma comoção superficial e convertera-se em mero espetáculo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido contextual: a comoção superficial em "Uma vela para Dario"

Gabarito: letra A. O trecho destacado sugere que a morte de Dario gerou uma comoção superficial, convertendo-se em mero espetáculo. A prova está na descrição das pessoas que "apreciam o incidente" e, "comendo e bebendo, gozam as delícias da noite", enquanto Dario jaz morto e abandonado. Isso indica indiferença e aproveitamento do ocorrido como entretenimento, não luto genuíno.

Análise do comando

A questão pede que se depreenda o sentido sugerido pelos termos destacados (inferência). É preciso captar o tom irônico e crítico do narrador: o contraste entre a agitação ao redor e a total desassistência a Dario.

"Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso."

A palavra "apreciam" e a expressão "gozam as delícias da noite" revelam que os frequentadores do café tratam a situação como um evento curioso, e não como uma tragédia que exija solidariedade. Enquanto Dario morre, eles se divertem.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa capta exatamente a inferência: "comoção superficial" (as pessoas se agitam, mas não há ação efetiva) e "mero espetáculo" (o incidente é apreciado como diversão). O texto sustenta: as pessoas "apreciam" e "gozam" enquanto Dario está caído. Nenhuma informação é acrescentada de fora.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma "encerramento das atividades do café e dispersão das pessoas em virtude do luto". O texto diz o oposto: o café está ocupado por pessoas que comem e bebem; a dispersão só ocorre depois, quando o corpo é levado. Não há luto – há indiferença.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que Dario foi "rapidamente assistido e retirado do local". Na verdade, ele é arrastado, abandonado na peixaria, pisoteado pela multidão, e leva duas horas para morrer sem socorro efetivo. Nada de "rápida assistência".

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz o texto. Afirma que os frequentadores "estavam preocupados em prestar socorro". O texto mostra o contrário: eles "apreciam o incidente" e se divertem; a tentativa de socorro é feita por alguns passantes, mas logo abandonada. Os que estão no café não estão preocupados – estão se regalando.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Fala em "luto coletivo e comoção entre os presentes". O texto retrata exatamente o inverso: as pessoas se dispersam, as janelas se fecham, e apenas um menino traz uma vela. O ambiente é de abandono, não de luto. A expressão "apesar da aparente indiferença" não se sustenta porque a indiferença é real e explícita.

PEGA ESSA DICA!

Ao enfrentar questões de inferência, desconfie de alternativas que troquem o tom do texto. Palavras como "luto", "preocupação" ou "socorro" não aparecem no trecho – o narrador usa "apreciam" e "gozam", que indicam prazer, não compaixão.

Gabarito: letra A.

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