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Questão de Português — Sintaxe — FCC 2026

PortuguêsSintaxe
Código
gp001797
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Enfermeiro
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.


Uma vela para Dario


     Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

    Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

    Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se v guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

    A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

   Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

    Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

    O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

   A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.

   Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

    Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

    Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
Respeita plenamente as normas de regência verbal e nominal o livre comentário a respeito do texto:
  1. AOs curiosos que ocupavam a rua assistiram o triste espetáculo da morte de Dario sem ao qual ninguém pudesse de fatoajudar.
  2. BO guarda aproximou-se ao corpo de Dario para tentar identificar-lhe, mas não encontrou documentos nos bolsos do falecido.
  3. CA multidão presente no local não aspirava o fim trágico de Dario, em que permaneceu estendido na calçada por duas horas.
  4. DA polícia decidiu por chamar o rabecão após constatar que Dario já não apresentava sinais vitais.
  5. EDario era muito apegado com sua aliança de ouro, objeto a que ele raramente retirava do dedo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — A polícia decidiu por chamar o rabecão após constatar que Dario já não apresentava sinais vitais.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Regência verbal e nominal no comentário sobre o conto "Uma vela para Dario"

Gabarito: letra D. A única alternativa que respeita integralmente as normas de regência verbal e nominal é a D, pois emprega corretamente o verbo "decidir" (regendo a preposição "por" ou sem ela) e os demais termos. As demais apresentam desvios como troca de preposição, uso indevido do pronome oblíquo ou falta de preposição necessária.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Os curiosos que ocupavam a rua assistiram o triste espetáculo da morte de Dario sem ao qual ninguém pudesse de fato ajudar."

  • O verbo assistir com sentido de "presenciar" exige preposição a (assistir a algo). Logo, o correto seria "assistiram ao triste espetáculo".

  • A expressão sem ao qual é inadequada: o pronome relativo "qual" refere-se a "espetáculo", mas a preposição a não é exigida pelo verbo "ajudar" (que rege objeto indireto com a no sentido de "prestar assistência"? Não, aqui "ajudar" é transitivo direto: ajudar alguém). A construção correta seria "sem que ninguém pudesse de fato ajudar" ou "sem o qual ninguém pudesse de fato ajudar" (se o referente fosse outro). Há erro de regência e de uso do pronome relativo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"O guarda aproximou-se ao corpo de Dario para tentar identificar-lhe, mas não encontrou documentos nos bolsos do falecido."

  • O verbo aproximar-se rege a preposição de (aproximar-se de algo/alguém). Portanto, o correto é "aproximou-se do corpo".

  • O verbo identificar é transitivo direto; o objeto é direto, não indireto. Assim, o pronome deveria ser o (identificá-lo), e não lhe (que funciona como objeto indireto).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"A multidão presente no local não aspirava o fim trágico de Dario, em que permaneceu estendido na calçada por duas horas."

  • O verbo aspirar com o sentido de "desejar, almejar" rege a preposição a (aspirar a algo). Logo, o correto é "aspirava ao fim trágico" (ou "a + o" = ao).

Alternativa D — ✅ Correta

"A polícia decidiu por chamar o rabecão após constatar que Dario já não apresentava sinais vitais."

  • O verbo decidir admite tanto a construção direta (decidir chamar) quanto com a preposição por (decidir por chamar) — ambas são aceitas pela norma culta.

  • "por chamar" é regência correta: decide-se por algo.

  • Os demais termos ("após constatar", "apresentava sinais vitais\') não violam regras de regência.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Dario era muito apegado com sua aliança de ouro, objeto a que ele raramente retirava do dedo."

  • O adjetivo apegado rege a preposição a (apegado a algo). Portanto, o correto é "apegado à sua aliança" (a + a).

  • Na oração adjetiva, o verbo retirar é transitivo direto e indireto: retira-se algo (objeto direto) de algum lugar (indireto). O pronome relativo "que" deveria ser objeto direto, sem preposição: "objeto que ele raramente retirava do dedo". A presença da preposição a antes de "que" é indevida, pois o verbo não exige "a" para introduzir o objeto direto.

Conclusão: A única alternativa que não apresenta desvios de regência é a letra D. As demais erram na escolha da preposição ou no uso do pronome oblíquo.

NÃO CAIA NESSA!

Sujeito nunca tem preposição

Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.

— Sintaxe — identificação do sujeito

Gabarito: letra D

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