Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp002215
Banca
FCC
Órgão
MPE-AL
Ano
2026
Cargo
Analista do Ministério Público - Área: Psicologia
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.


Um inseto sentimental 


    A primeira frase da crônica é quase sempre a mais difícil, mas quando as palavras aparecem no papel, a mão que segura a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido...

    No entanto, basta surgir um inseto para mudar toda a história: o movimento da mão é interrompido pelo intruso, que voa em círculos e zoa com insistência. Uma picada no pescoço ou no braço pode acabar com a alegria de escrever uma crônica, mesmo sabendo que vou reescrevê-la mais tarde. Deixo a caneta na mesa, pego ao acaso uma revista e tento afugentar o intruso. Não há mais silêncio, já me desconcentrou, apagou a ideia luminosa da crônica que nasceria.

    Apago a lâmpada: talvez ele se acalme na penumbra. O voo lento pode ser uma trégua e, pensando bem, o inseto não é tão ameaçador assim. De repente, um voo rápido em espiral, e a três palmos ele se equilibra no ar, helicóptero perfeito. Uns segundos depois, navega na horizontal e se refugia numa caixa de papelão. 

    Acendo a lâmpada, me aproximo da caixa e vejo meu ex-inimigo no centro de uma fotografia antiga. Repousa no rosto de uma mulher ainda jovem, que sorri para a lente do fotógrafo. Pego com cuidado a foto, saio do quarto e o inseto some na tarde morna. Minha mãe me abraça numa manhã de 1960: nós dois aninhados no banco da praça da Matriz, aonde ela levara seu menino para ver o aviário e conversar com os pássaros. Devo essa lembrança ao inseto estranho e sentimental, que me roubou a ideia de umа crônica, mas me deu outra. Agora, quando já escurece, é pegara caneta e escrever a primeira frase, quase sempre a mais difícil.


(Adaptado de HATOUM, Milton. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 11-12)
Entre os recursos da elaboração deste texto, pode-se afirmar que
  1. Aa afirmação a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido (1º parágrafo) constitui uma personificação.
  2. Ba expressão Agora (...) é pegar a caneta (4º parágrafo) considera uma providência hipotética a ser tomada.
  3. Cas expressões rosto de uma mulher e seu menino acabam por tornar ambíguas as identidades dessas personagens.
  4. Dna oração já me desconcentrou (2º parágrafo) o termo que está subentendido como sujeito é "silêncio".
  5. Ea hipótese manifesta em pode ser uma trégua é logo contraditada pela constatação não é tão ameaçador assim (3º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — a afirmação a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido (1º parágrafo) constitui uma personificação.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Personificação e outros recursos no texto de Milton Hatoum

Gabarito: letra A. A alternativa A está correta porque a frase "a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido" atribui ações humanas (ficar leve, enveredar) a um objeto inanimado (caneta), caracterizando a figura de linguagem personificação (prosopopeia). Essa figura é confirmada no texto logo no primeiro parágrafo.

“a mão que segura a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido”

O texto personifica a caneta ao dizer que ela "envereda", verbo típico de um ser que escolhe um caminho. Assim, a assertiva A está correta.

A questão cobra o reconhecimento de recursos expressivos. Para resolvê-la, é preciso analisar cada alternativa à luz do texto, sem inferir além do que está escrito.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A personificação (ou prosopopeia) é a atribuição de qualidades ou ações humanas a seres inanimados ou irracionais. No trecho “a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido”, a caneta recebe a ação de “enveredar” (seguir um caminho), o que é próprio de um ser humano. Portanto, a afirmação da alternativa é verdadeira.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A expressão “Agora (...) é pegar a caneta” (4º parágrafo) não expressa uma providência hipotética, mas sim uma ação imediata e concreta: “Agora, quando já escurece, é pegar a caneta e escrever a primeira frase”. O verbo “é pegar” indica uma ordem ou uma necessidade presente, não uma hipótese. A alternativa troca o sentido do trecho, interpretando como hipotético o que é real.

Alternativa C — ❌ Incorreta

As expressões “rosto de uma mulher” e “seu menino” não geram ambiguidade. O texto deixa claro que a mulher é a mãe do narrador (a foto antiga mostra a mãe ainda jovem, e o narrador relembra o abraço). Dizer que há ambiguidade é contradizer o texto, pois a identidade das personagens é perfeitamente compreensível pelo contexto: a mulher é a mãe, e “seu menino” é o próprio narrador.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Na oração “já me desconcentrou” (2º parágrafo), o sujeito subentendido é “o inseto”, e não “silêncio”. Observe a sequência: “Não há mais silêncio, já me desconcentrou, apagou a ideia luminosa”. O inseto é o responsável por desconcentrar e apagar a ideia; o silêncio, por sua vez, já havia desaparecido. A alternativa confunde o sujeito, atribuindo a ação ao silêncio, quando o texto aponta claramente o inseto como agente.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A hipótese “pode ser uma trégua” não é contraditada pela constatação “não é tão ameaçador assim”. Na verdade, a segunda observação complementa a primeira: o voo lento do inseto pode ser interpretado como trégua, e ao pensar bem, o narrador conclui que o inseto não é ameaçador – o que reforça a ideia de trégua. Não há contradição; há uma reavaliação positiva. A alternativa inventa uma contradição inexistente no texto.

Conclusão: Apenas a alternativa A está de acordo com o texto, reconhecendo corretamente a personificação. Gabarito oficial: letra A.

Link permanente: /questoes/gp002215