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Questão de Português — Morfologia - Pronomes — VUNESP 2026

PortuguêsMorfologia - Pronomes
Código
gp002869
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2026
Cargo
V - - Assistente de Suporte Acadêmico II - Área de Atuação: Biblioteca - Edital nº 63

Leia o texto a seguir para responder à questão:



    Ninguém sai sem feridas da infância. Mesmo a criança que teve pais amorosos, que recebeu atenção plena durante suas inquietudes, mesmo ela, nascida em um reino encantado, no lar mais que perfeito, haverá de se frustrar em alguns momentos da vida adulta. Só agora enxerguei essa situação com mais clareza, lendo um livro que fala sobre a desconcertante solidão das crianças: em seus primeiros anos, ainda não possuem um acervo razoável de palavras para interpretar a complexidade do mundo.

    Eu lembro. O desespero por não conseguir nominar minhas emoções. A dificuldade de entender a mim mesma. O vácuo que me deixava vagando pelos corredores do colégio, pelas festas familiares, pelo tudo e o nada que eu não conseguia designar.

    Palavras são salva-vidas. Fosse apenas por isso, dar livros de presente às crianças deveria ser obrigatório, não opcional. A linguagem do afeto supre a ausência das palavras no início da vida, mas não de todo. E se quem nos ama desaparecer de repente? Como lidar com o medo, sem a rede de proteção de um pensamento lógico?

    Saramago disse, certa vez, que somos todos escritores, só que uns escrevem e outros não. À medida que assimilamos um repertório de palavras, passamos todos a nos narrar, finalmente. A narrativa que fazemos a nosso respeito é a base dos vínculos maduros.

    Há quem não escreva, mas não existe quem não se narre. A palavra está por trás de tudo: música, teatro, cinema, fotografia, amizades, amor – toda expressão nasce de alguém que precisa entender quem é, entender como se sente, e dizê-lo. Fosse apenas por isso, dar livros de presente aos adultos também deveria ser obrigatório, não opcional.

    A incompreensão de si mesmo é um vazio aterrorizante. Tive todas as necessidades atendidas, quando criança, mas não via a hora de crescer, e hoje entendo minha urgência: eu só seria parida, de verdade, pelas palavras. Através delas, eu sentiria emoções e as descreveria de forma mais precisa. Ou, ao menos, teria alguma lucidez sobre minha imprecisão.



(Martha Medeiros. Por que ninguém sai ileso da infância: a importância das palavras na construção da identidade. https://oglobo.globo.com, 11.01.2026. Adaptado)

A alteração da expressão destacada pela que está entrecolchetes mantém a norma-padrão de colocação pronominal em:
  1. A… no lar mais que perfeito, haverá de se frustrar [frustrar-se] em alguns momentos da vida adulta. (1º parágrafo)
  2. BO vácuo que me deixava [deixava-me] vagando pelos corredores do colégio, pelas festas familiares… (2º parágrafo)
  3. CE se quem nos ama [ama-nos] desaparecer de repente? (3º parágrafo)
  4. DHá quem não escreva, mas não existe quem não se narre [narre-se]. (5º parágrafo)
  5. EAtravés delas, eu sentiria emoções e as descreveria [descreveria-as] de forma mais precisa. (6º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — … no lar mais que perfeito, haverá de se frustrar [frustrar-se] em alguns momentos da vida adulta. (1º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Colocação pronominal: próclise, ênclise e a regra da locução verbal

Gabarito: letra A. A única substituição que mantém a norma-padrão é "haverá de se frustrar" → "frustrar-se", pois, em locução verbal com verbo principal no infinitivo, o pronome átono pode vir após o infinitivo (ênclise) sem prejuízo à norma culta. As demais alternativas violam a próclise obrigatória — exigida por palavra atrativa (pronome relativo, conjunção subordinativa) ou por oração subordinada — e, por isso, a troca para a ênclise é inaceitável.

A questão cobra colocação pronominal (próclise, ênclise, mesóclise). A regra central: o pronome átono (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) não pode iniciar período; em geral, fica depois do verbo (ênclise), mas é atraído para antes (próclise) por certas palavras e construções. Vamos analisar cada caso com o texto.

Alternativa

Trecho original

Substituição proposta

Fator de próclise

Resultado da troca

A

haverá de se frustrar

frustrar-se

Nenhum (locução com infinitivo)

✅ Correta — ênclise no infinitivo é aceita

B

que me deixava

deixava-me

Pronome relativo que

❌ Incorreta — próclise obrigatória

C

quem nos ama

ama-nos

Conjunção se + relativo quem

❌ Incorreta — próclise obrigatória

D

não se narre

narre-se

Palavra negativa não + relativo quem

❌ Incorreta — próclise obrigatória

E

as descreveria

descreveria-as

Pronome oblíquo átono em início de oração

❌ Incorreta — próclise obrigatória

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

No trecho do 1º parágrafo, lê-se:

"...no lar mais que perfeito, haverá de se frustrar em alguns momentos da vida adulta."

A forma original "haverá de se frustrar" é uma locução verbal formada pelo verbo auxiliar haver (no futuro do presente) + preposição de + infinitivo frustrar. Nesse tipo de construção, o pronome oblíquo átono pode ocupar duas posições igualmente corretas:

  • Próclise ao verbo principal: "haverá de se frustrar" — posição em que aparece no texto;

  • Ênclise ao verbo principal: "haverá de frustrar-se" — a substituição proposta.

A norma-padrão aceita ambas, pois não há palavra atrativa que torne a próclise obrigatória. A troca, portanto, mantém a correção gramatical — exatamente o que o enunciado pede.

PEGA ESSA DICA!

Em locução verbal com infinitivo, o pronome pode ficar antes do auxiliar, depois do auxiliar ou depois do infinitivo — desde que não haja fator de próclise. Aqui não há, então a ênclise no infinitivo é válida.

Alternativa B — ❌ Incorreta

No 2º parágrafo, o texto traz:

"O vácuo que me deixava vagando pelos corredores do colégio..."

O pronome relativo que é uma palavra atrativa que obriga a próclise. A substituição por "deixava-me" quebra essa regra, pois o pronome passaria a vir depois do verbo, contrariando a atração exercida pelo relativo. A forma correta é, portanto, "que me deixava" — a troca é inaceitável.

Alternativa C — ❌ Incorreta

No 3º parágrafo, lê-se:

"E se quem nos ama desaparecer de repente?"

Aqui há dois fatores de próclise: a conjunção subordinativa se (que introduz oração condicional) e o pronome relativo quem. Ambos atraem o pronome para antes do verbo. A substituição por "ama-nos" desrespeita a próclise obrigatória — a forma correta é "quem nos ama".

Alternativa D — ❌ Incorreta

No 5º parágrafo, o texto afirma:

"...não existe quem não se narre."

A palavra negativa não é um fator de próclise clássico: atrai o pronome para antes do verbo. Além disso, o pronome relativo quem também exerce atração. A substituição por "narre-se" viola a próclise obrigatória — a forma correta é "não se narre".

Alternativa E — ❌ Incorreta

No 6º parágrafo, o texto traz:

"Através delas, eu sentiria emoções e as descreveria de forma mais precisa."

O pronome oblíquo átono as (objeto direto) está em início de oração — posição em que a norma-padrão proíbe o pronome átono. A substituição por "descreveria-as" mantém o erro, pois a ênclise também não é permitida nesse contexto (o pronome não pode iniciar período, mas também não pode ficar após o verbo quando há fator de próclise — aqui, a oração coordenada iniciada por e não atrai, mas a posição inicial já invalida a ênclise). A forma correta seria "as descreveria" (próclise), como está no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre próclise facultativa (locução com infinitivo) e próclise obrigatória (palavra atrativa). Em A, a troca é válida; nas demais, a troca quebra a regra.

Conclusão: apenas a alternativa A mantém a norma-padrão de colocação pronominal. Gabarito: letra A.

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