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Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra QUE — FCC 2026

PortuguêsFunções morfossintáticas da palavra QUE
Código
gp003469
Banca
FCC
Órgão
MPE-AL
Ano
2026
Cargo
Analista do Ministério Público - Especialidade: Desenvolvimento de Sistemas

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.




Palavras de amor



    Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias fatais. Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida. A gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre nisso um prazer autônomo.


    Por isso mesmo, em geral, não confio nos sentimentos: nem nos meus, nem nos dos outros. Não é que suponho que os humanos mintam quando amam, odeiem, ou se desesperam: nada disso. Apenas verifico que os sentimentos podem ser condições autodiluídas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos, que os não procuram sanar para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adorar coçar as sarnas que têm.


    Tomemos o exemplo do amor. Eu encontro, conheço ou vislumbro de longe uma pessoa que preenche algumas condições básicas para que goste dela. Sussurrando entre quatro paredes ou gritando em praça pública, anotando no meu diário ou escrevendo para grandes editoras, passo a encher o ar ou as páginas com as descrições da beleza inigualável da pessoa adorada e com declarações hiperbólicas do meu sentimento.


    Claro, minha prosa ou minha poesia poderão, quem sabe, conquistar o meu objeto de amor, mas esse é um efeito colateral. O efeito mais importante de minhas palavras de amor não é tanto o de seduzir o objeto de meus sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais. Pois a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e à virulência das minhas declarações.


    Em linguística chamamos performativas aquelas expressões que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo clássico: um chefe de Estado dizendo “Declaro a guerra”: essa frase é a própria declaração de guerra. Algo semelhante ocorre com o amor: a gente aprende a amar e a declarar o amor pelas palavras dos escritores, e o amor se torna relevante em nossa vida à força de ser idealizado pela literatura. Sim, os tempos mudam, e talvez se afirme hoje, aos poucos, uma retórica nova, menos sentimental, capaz de dar valor literário a uma vida sem amores e paixões.



(Adaptado de CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 155-157)

Está correto o emprego do elemento sublinhado na frase:
  1. AHá incômodos em cuja busca nos lançamos, por mais irracional que isso seja.
  2. BO ato de coçar uma picada de mosquito é uma operação para a qual se inclui algum prazer.
  3. CA tradição literária é um campo retórico em que recorrem os namorados românticos.
  4. DOs sentimentos mais intensos dos quais nos entregamos nem sempre são justificáveis
  5. EUma declaração de guerra começa com palavras aonde nelas já se corporifica a violência.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Há incômodos em cuja busca nos lançamos, por mais irracional que isso seja.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise da questão — Emprego do elemento sublinhado (regência de pronomes relativos)

Gabarito: letra A. A única frase em que a preposição e o pronome relativo estão empregados conforme a regência do verbo ou nome é a alternativa A. Nas demais, a preposição exigida pela regência não corresponde ao pronome utilizado.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Há incômodos em cuja busca nos lançamos, por mais irracional que isso seja."

O pronome relativo "cuja" concorda com "busca" (feminino singular) e estabelece posse. O verbo "lançar-se" exige a preposição "em" (lançar-se em algo). Portanto, "em cuja busca" está correto. A expressão "por mais irracional que isso seja" é uma locução concessiva independente, sem problema.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"O ato de coçar uma picada de mosquito é uma operação para a qual se inclui algum prazer."

O verbo "incluir" (na voz reflexiva ou não) pede a preposição "em" (incluir algo em algo). Deveria ser "em que" ou "na qual". A preposição "para" é inadequada. Erro de regência.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"A tradição literária é um campo retórico em que recorrem os namorados românticos."

O verbo "recorrer" (no sentido de valer-se de) exige a preposição "a" (recorrer a algo). O correto seria "a que" ou "ao qual". "Em que" é regência errada.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Os sentimentos mais intensos dos quais nos entregamos nem sempre são justificáveis"

O verbo "entregar-se" (no sentido de render-se) exige a preposição "a" (entregar-se a algo). Deveria ser "aos quais". "Dos quais" indica origem ou posse (de + os quais), não se aplica aqui.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Uma declaração de guerra começa com palavras aonde nelas já se corporifica a violência."

"Aonde" é usado para indicar movimento a um lugar; não cabe com "palavras" (substantivo abstrato). Além disso, "nelas" é redundante. O correto seria "em que" ou "nas quais" (palavras nas quais a violência se corporifica).

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