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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp003470
Banca
FCC
Órgão
MPE-AL
Ano
2026
Cargo
Analista do Ministério Público - Especialidade: Desenvolvimento de Sistemas

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.




Palavras de amor



    Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias fatais. Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida. A gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre nisso um prazer autônomo.


    Por isso mesmo, em geral, não confio nos sentimentos: nem nos meus, nem nos dos outros. Não é que suponho que os humanos mintam quando amam, odeiem, ou se desesperam: nada disso. Apenas verifico que os sentimentos podem ser condições autodiluídas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos, que os não procuram sanar para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adorar coçar as sarnas que têm.


    Tomemos o exemplo do amor. Eu encontro, conheço ou vislumbro de longe uma pessoa que preenche algumas condições básicas para que goste dela. Sussurrando entre quatro paredes ou gritando em praça pública, anotando no meu diário ou escrevendo para grandes editoras, passo a encher o ar ou as páginas com as descrições da beleza inigualável da pessoa adorada e com declarações hiperbólicas do meu sentimento.


    Claro, minha prosa ou minha poesia poderão, quem sabe, conquistar o meu objeto de amor, mas esse é um efeito colateral. O efeito mais importante de minhas palavras de amor não é tanto o de seduzir o objeto de meus sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais. Pois a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e à virulência das minhas declarações.


    Em linguística chamamos performativas aquelas expressões que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo clássico: um chefe de Estado dizendo “Declaro a guerra”: essa frase é a própria declaração de guerra. Algo semelhante ocorre com o amor: a gente aprende a amar e a declarar o amor pelas palavras dos escritores, e o amor se torna relevante em nossa vida à força de ser idealizado pela literatura. Sim, os tempos mudam, e talvez se afirme hoje, aos poucos, uma retórica nova, menos sentimental, capaz de dar valor literário a uma vida sem amores e paixões.



(Adaptado de CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 155-157)

A expressão “procurar sarna para se coçar” constitui, em linguagem figurada, um sentido equivalente ao da expressão em linguagem denotativa:
  1. A“envolver-se num prazer desconhecido”.
  2. B“deixar-se levar pela força do acaso”.
  3. C“ir de encontro a um desafio inevitável”.
  4. D“atrair para si um incômodo desnecessário”.
  5. E“desfrutar de uma circunstância aleatória”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — “atrair para si um incômodo desnecessário”.

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Análise da questão — Sentido figurado e denotativo

Gabarito: letra D. A expressão "procurar sarna para se coçar" é usada no texto para descrever indivíduos que criam ou pioram seus próprios problemas, em vez de saná-los. Em sentido denotativo, corresponde a "atrair para si um incômodo desnecessário", conforme confirmado pelo contexto.

Prova textual: o autor escreve que os sentimentos podem ser "transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos, que os não procuram sanar para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adorar coçar as sarnas que têm." Isso mostra que a "sarna" é um incômodo que se busca ativamente, sem necessidade.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"envolver-se num prazer desconhecido" — Ao contrário, a expressão fala de um incômodo, não de prazer. O texto menciona que "a gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre nisso um prazer autônomo", mas a expressão "procurar sarna" é usada para se referir a transtornos, não a prazeres. Portanto, extrapola o sentido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"deixar-se levar pela força do acaso" — A expressão implica ação deliberada de buscar um problema, não passividade ou acaso. O autor diz que os indivíduos "não procuram sanar" e "adoram coçar as sarnas", indicando escolha.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"ir de encontro a um desafio inevitável" — A sarna não é inevitável; pelo contrário, é um incômodo que se cria desnecessariamente. O texto fala de "transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos", o que nega inevitabilidade.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"atrair para si um incômodo desnecessário" — Exata equivalência: "procurar sarna" é buscar um problema (incômodo) que não precisava existir (desnecessário). O texto apoia: os indivíduos criam seus próprios transtornos e não os curam.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"desfrutar de uma circunstância aleatória" — A ideia não é desfrutar nem aleatoriedade. A expressão envolve ação intencional e negativa.

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