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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp003474
Banca
FCC
Órgão
MPE-AL
Ano
2026
Cargo
Analista do Ministério Público - Especialidade: Desenvolvimento de Sistemas

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.




Palavras de amor



    Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias fatais. Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida. A gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre nisso um prazer autônomo.


    Por isso mesmo, em geral, não confio nos sentimentos: nem nos meus, nem nos dos outros. Não é que suponho que os humanos mintam quando amam, odeiem, ou se desesperam: nada disso. Apenas verifico que os sentimentos podem ser condições autodiluídas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos, que os não procuram sanar para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adorar coçar as sarnas que têm.


    Tomemos o exemplo do amor. Eu encontro, conheço ou vislumbro de longe uma pessoa que preenche algumas condições básicas para que goste dela. Sussurrando entre quatro paredes ou gritando em praça pública, anotando no meu diário ou escrevendo para grandes editoras, passo a encher o ar ou as páginas com as descrições da beleza inigualável da pessoa adorada e com declarações hiperbólicas do meu sentimento.


    Claro, minha prosa ou minha poesia poderão, quem sabe, conquistar o meu objeto de amor, mas esse é um efeito colateral. O efeito mais importante de minhas palavras de amor não é tanto o de seduzir o objeto de meus sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais. Pois a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e à virulência das minhas declarações.


    Em linguística chamamos performativas aquelas expressões que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo clássico: um chefe de Estado dizendo “Declaro a guerra”: essa frase é a própria declaração de guerra. Algo semelhante ocorre com o amor: a gente aprende a amar e a declarar o amor pelas palavras dos escritores, e o amor se torna relevante em nossa vida à força de ser idealizado pela literatura. Sim, os tempos mudam, e talvez se afirme hoje, aos poucos, uma retórica nova, menos sentimental, capaz de dar valor literário a uma vida sem amores e paixões.



(Adaptado de CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 155-157)

No que diz respeito à intensidade dos nossos sentimentos, ocorre uma relevância desmedida quando
  1. Aeles identificam com exatidão a identidade dos sujeitos que passam a dominar.
  2. Beles produzem efeitos colaterais que acabam por revelar suas falsas intenções.
  3. Cas palavras que os exprimem passam a corresponder à sua legítima natureza.
  4. Deles são autointitulados a se alçarem a um patamar superior ao que lhes é próprio.
  5. Enossas paixões mais íntimas afloram para alcançarem um êxtase real e insuperável.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — eles são autointitulados a se alçarem a um patamar superior ao que lhes é próprio.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise da questão — Interpretação textual sobre intensidade dos sentimentos

Gabarito: letra D. A relevância desmedida ocorre quando os sentimentos se autointitulam a um patamar superior, como descrito na metáfora da picada de mosquito: coçamos além da conta pelo prazer autônomo. O texto afirma que os sentimentos podem ser "condições autodiluídas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos", ou seja, eles se autoamplificam.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que os sentimentos identificam com exatidão a identidade dos sujeitos que passam a dominar. O texto não fala em dominação nem em identificação exata. Trata-se de extrapolação: a informação não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Diz que os sentimentos produzem efeitos colaterais que revelam falsas intenções. O texto menciona "efeito colateral" em relação às palavras de amor (seduzir o objeto), mas não revela falsas intenções; ao contrário, o efeito é intensificar o próprio amor. Contradiz o texto ao atribuir falsidade não mencionada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que as palavras que exprimem os sentimentos passam a corresponder à sua legítima natureza. O texto defende que as palavras são performativas: criam o sentimento, não o expressam fielmente. "A gente aprende a amar e a declarar o amor pelas palavras dos escritores" mostra que as palavras constroem o amor, não correspondem a uma natureza prévia. Contradiz o texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Reza que os sentimentos "são autointitulados a se alçarem a um patamar superior ao que lhes é próprio". Isso é uma paráfrase da ideia central: a "relevância desmedida" surge quando nos coçamos pelo prazer autônomo, amplificando o sentimento além de sua intensidade original. O texto diz: "A gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre nisso um prazer autônomo" e "os sentimentos podem ser condições autodiluídas... produzidos pelos próprios indivíduos". A alternativa capta essa autopropulsão.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Fala em "paixões mais íntimas afloram para alcançarem um êxtase real e insuperável". O texto não menciona êxtase real ou insuperável; pelo contrário, a intensidade é artificial e pode ser prejudicial (feridas infectadas). Extrapolação e tangencia ao criar um conceito de êxtase que não está no texto.

Conclusão: A única alternativa inteiramente apoiada no texto é a D.

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