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Questão de Literatura — Gêneros Literários — FCC 2026

LiteraturaGêneros Literários
Código
gp010857
Banca
FCC
Órgão
AL-RR
Ano
2026
Cargo
Analista Legislativo - Analista de Segurança da Informação
Uma vela para Dario


   Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

   Dois ou trés passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espumа surgem no canto da boca.

   Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

   A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

    Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

     Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

     O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete A polícia decide chamar o rabecão.

     A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vé-lo, todo o ar de um defunto.

     Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

     Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

     Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
Segundo o escritor e crítico Ricardo Piglia, o conto clássico é aquele que narra em primeiro plano a história 1 e constrói em segredo uma história 2, de modo que as duas se encontrem ao fim. Piglia afirma: "A arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1. Um relato visível esconde um relato secreto, narrado de um modo elíptico e fragmentário".
(Adaptado de: Ricardo Piglia, "Teses sobre o conto", em Formas breves. Trad. de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. pp. 89-90).

Em conformidade com o texto acima, os dois planos que compõema narrativa de "Uma vela para Dario" estão mais bem definidos em:
  1. A"Uma vela para Dario" conta em primeiro plano o ataque cardíaco do personagem, enquanto no segundo plano vaiconsumando o roubo de seus bens.
  2. BO texto apresenta, em primeiro plano, a morte de Dario; em segundo plano, desenvolve-se uma investigação policial acercada possível causa de sua morte.
  3. CO texto narra, em primeiro plano, a vida cotidiana dos moradores da rua, enquanto, em segundo plano, destacam-se osaspectos particulares da vida pregressa de Dario.
  4. DO conto apresenta, em primeiro plano, a tentativa organizada de socorro ao personagem, enquanto, em segundo plano,revela-se a ineficiência das instituições públicas.
  5. EA narrativa mostra, em primeiro plano, a movimentação desordenada da multidão, enquanto, em segundo plano, constrói-sea humanização gradual de Dario.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — "Uma vela para Dario" conta em primeiro plano o ataque cardíaco do personagem, enquanto no segundo plano vai consumando o roubo de seus bens.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Teoria do conto de Ricardo Piglia em "Uma vela para Dario"

Gabarito: letra A. O conto narra em primeiro plano o ataque cardíaco de Dario (história visível) e, nos interstícios, constrói secretamente o roubo de seus pertences (história oculta), conforme a tese de Piglia de que um relato visível esconde um relato secreto narrado de modo elíptico e fragmentário.

A banca aplica a teoria do escritor argentino Ricardo Piglia, que define o conto clássico como aquele em que uma história 1 (explícita) encobre uma história 2 (implícita), que emerge nas entrelinhas. Em "Uma vela para Dario", de Dalton Trevisan, a trama evidente é a morte de um homem na calçada; a trama secreta é a subtração de seus objetos pessoais (sapatos, alfinete de pérola, relógio, aliança), consumada gradualmente enquanto a multidão se aglomera.

Conto clássico (Piglia)
  • 1História 1 (explícita)
    • Ataque cardíaco de Dario
  • 2História 2 (implícita)
    • Roubo dos pertences
      • Sapatos
      • Alfinete de pérola
      • Relógio
      • Aliança
  • 3Relação entre as histórias
    • História 2 cifrada nos interstícios da 1
    • Narração elíptica e fragmentária
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata." / "Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso." / "O dedo sem a aliança."

O ataque cardíaco (história 1) é o evento central e visível. Paralelamente, os pertences de Dario vão desaparecendo – sapatos, alfinete, relógio, aliança – configurando o roubo como história 2. Piglia afirma que a arte do contista consiste em cifrar a segunda história nos interstícios da primeira; aqui, as menções aos objetos perdidos surgem de forma fragmentada, entremeadas à narrativa do socorro e da multidão. A alternativa capta com precisão essa dupla camada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O texto não desenvolve uma investigação policial sobre a causa da morte. A polícia aparece apenas ao final, mas não há inquérito ou apuração – o guarda apenas constata que os bolsos estão vazios e chama o rabecão. A história secreta não é a investigação, e sim o furto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A vida cotidiana dos moradores não é o primeiro plano; o foco é a morte de Dario e a reação da multidão. Também não há desenvolvimento da vida pregressa de Dario – seu nome e endereço são descobertos rapidamente, sem aprofundamento.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Não há uma tentativa organizada de socorro. As pessoas hesitam, discutem quem pagará o táxi, e Dario é largado na peixaria. A ineficiência das instituições públicas (ambulância, polícia) é um elemento, mas não constitui o segundo plano secreto nos termos de Piglia – o roubo é mais definido e entremeado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A movimentação da multidão é parte da história 1, sim, mas a humanização de Dario não é construída em segundo plano. Dario é tratado como objeto (pisoteado, abandonado), não se humaniza. O roubo é o fio oculto que percorre a narrativa.

PEGA ESSA DICA!

Para questões com a teoria de Piglia, atente-se ao que é explícito (primeiro plano) e ao que é sugerido nos detalhes (segundo plano). Em "Uma vela para Dario", os objetos desaparecidos são pistas do roubo – anote-os durante a leitura.

Gabarito: letra A.

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