Questão de Literatura — Teoria Literária — INEP 2024
LiteraturaTeoria Literária
- Código
- gp045669
- Banca
- INEP
- Órgão
- INEP
- Ano
- 2024
- Cargo
- Letras - Português e Espanhol
Um professor de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Médio abordará, em uma de suas aulas,o ensino da leitura do texto literário. Para isso, ele apresenta o seguinte trecho de Ensaio sobre a cegueira,de José Saramago, a fim de observar questões como ritmo e estilo. [...] os olhos do homem parecem sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a escleróticabranca, compacta como porcelana. As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, assobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôspela angústia. Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhosfechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagemrecolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia comdesespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tornaram maisbrilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa, às vezessão nervos, disse uma mulher. [...] A mulher que falara de nervos foi de opinião que se deviachamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não,não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Ficaaqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outravoz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveiouma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-semurmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo,dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lheo cinto de segurança, não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora,pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo:Companhia das Letras, 1995 (adaptado). A partir da situação apresentada, é uma alternativa possível para o professor
- Aensinar como, nesse fragmento, a predominância de recursos estilísticos, tais como a descriçãodetalhada, a linguagem formal e as hipérboles, sustenta o caráter realista da obra.
- Bdemonstrar como, no excerto, a subversão da pontuação é feita conscientemente, com fins narrativos,estéticos e estilísticos, o que coopera para a construção da ideia de confusão causada pela cegueira.
- Cexplicar como, nesse fragmento, o estilo do autor fica evidenciado por meio da repetição de frasescomo “estou cego, estou cego”, “venha, venha” ou “não vejo, não vejo”, que conferem ao texto umritmo lento.
- Dmostrar como, no excerto, a pontuação fora da norma padrão compromete a compreensão dossentidos do texto, embora represente uma inovação estilística que também se apresenta em outrasobras do mesmo autor.