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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2019

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa051095
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Formosa do Sul
Ano
2019
Cargo
Enf (Formosa Sul)

Todo dia é dia de falar sobre George Orwell

 

Eu penso em George Orwell de manhã, quando toca o despertador do celular e olho no fundo da câmera, por trás da qual bem poderia estar um Grande Irmão. Penso em George Orwell ao longo do dia, quando abro o noticiário e vejo a situação política global se tensionar, como se os países se fechassem em punhos, prontos a se esmurrar. Penso em George Orwell de noite, quando procuro na estante o que ler nos próximos dias.

 

Voltei a pensar em George Orwell com uma notícia recente: a versão em quadrinhos de sua Revolução dos bichos, feita pelo artista Odyr, ganhou o HQMix de Melhor Adaptação para Quadrinhos. Ainda não tive a chance de conferir o trabalho, mas qualquer iniciativa que nos faça falar de George Orwell é válida — trata-se de um dos escritores mais urgentes do momento, para todo o espectro político e todas as latitudes.

 

Antes de tudo, devido a sua obra. Não apenas Revolução dos bichos e 1984, tão clássicos que já correm o risco de ossificação, pisados e repisados a cada sinal de fechamento e escalada autoritária mundo afora; também os ensaios de Orwell merecem leitura.

 

Quem já estiver um pouco cansado de política, da face institucional dela, também encontra boas opções, que nutrem o pensamento e revigoram o espírito, em livros como Na pior em Paris e Londres e Como morrem os pobres e outros ensaios. O primeiro traz um relato das vivências de Orwell nas capitais francesa e inglesa, sem muito mais que uns poucos tostões e a necessidade de não sucumbir ao frio, à fome, à fadiga. Embora na superfície pareça tão diferente da ficção especulativa de 1984 ou da sátira política de Revolução dos bichos, o livro tem tudo a ver com a obra orwelliana, já que é seu ponto de partida, seu Big Bang: nele o autor elaborou seu olhar crítico, meio à margem, e sua vontade de concretude, seja na linguagem, seja nas situações retratadas. Encontrou sua voz e seu ponto de vista.

 

Mais diversa e por vezes ainda mais direta, a coletânea de ensaios Como morrem os pobres mostra Orwell em grande forma, com textos potentes e de uma atualidade impressionante. Desde uma frase pontual (“Em nosso tempo, o discurso e a escrita política são, em grande medida, a defesa do indefensável”, como se lê em “A política e a língua inglesa”) até raciocínios mais gerais, o livro corre o risco de acabar todo rabiscado, páginas e páginas sublinhadas, anotadas e comentadas, como se o movimento incessante do lápis pudesse reverter as letras em voz, em busca de alguma luz, de alguma clareza para entender o mundo de Orwell, que ainda é o nosso em muitos aspectos decisivos.

 

Nem tudo é perfeito em Orwell, obviamente. Há comentários e pontos de vista que podem nos parecer problemáticos, ainda mais se não considerarmos o contexto. Em Como morrem os pobres, por exemplo, seu ensaio em defesa das lareiras a carvão soa questionável se o lermos de modo anacrônico, com as preocupações ecológicas de hoje, quando combustíveis fósseis se tornaram um fator evidente do colapso climático. Há outro aspecto problemático no ensaio: Orwell faz uma defesa tradicionalista, de um idílio familiar, com pai, mãe e crianças em torno da lareira, que parece meio piegas, ou acrítica, à beira de um saudosismo potencialmente nocivo.

 

É por isso e por outras razões que penso em Orwell várias vezes ao dia, em geral, na forma de uma interrogação. Não me pergunto o que ele faria ou o que diria; seus textos estão aí, basta relê-los e ficar atento à coerência para extrair conclusões. Penso em Orwell, mas penso em especial em suas circunstâncias: que escritor ele teria sido em outra época? Se tivesse vivido tempos menos turbulentos, menos cindidos, menos incendiários, ele teria escrito de outra forma? Penso em Orwell e percebo que sua figura embaralha essas perguntas e as deixa de lado, abrindo espaço para a que realmente interessa: como viver e agir à altura dos desafios do tempo em que nascemos? Com que princípios, com que ferramentas?

 

A obra de Orwell é testemunha de sua resposta, com seu alcance e suas limitações; cada um de nós que responda por si.

 

(Henrique Balbi – Revista Época – 11/09/2019 – Disponível em: https://epoca.globo.com/ - disponível)

 

 

De acordo com o exposto no texto, analise as assertivas a seguir:

 

I. Em “Na pior em Paris e Londres”, Orwell desenvolve suas principais ideias para quem quer analisar o sistema político desses dois países.

 

II. O autor é fã incondicional de George Orwell, pontuando somente as qualidades desse potente e atual autor.

 

III. Ao final de sua argumentação, o autor do texto deixa em aberto as questões colocadas no penúltimo parágrafo acerca da obra de Orwell para que seus leitores as respondam.

 

Quais estão corretas?

  1. AApenas I.
  2. BApenas II.
  3. CApenas III.
  4. DApenas I e II.
  5. EApenas I e III.
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GabaritoC — Apenas III.

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