Questão de Português — Figuras de Linguagem — IBAM 2021
- Código
- qa347438
- Banca
- IBAM
- Órgão
- Pref Cabo Frio
- Ano
- 2021
- Cargo
- Psic (Pref C Frio)
COMO A FICÇÃO CIENTÍFICA ILUMINA A REALIDADE PANDÊMICA?
O interesse por narrativas de ficção científica está conectado à busca de esclarecimento sobre o que está acontecendo no mundo. Talvez isso possa explicar o crescimento no interesse por essas obras em 2020. "Muita gente pensa que o gênero é sobre o futuro, sobre coisas mirabolantes e impossíveis, mas, na verdade, o gênero é sobre o presente, que acaba sendo cifrado de alguma forma para que possa ser narrado", afirma Alysson Oliveira, jornalista e doutor em letras pela Universidade de São Paulo.
A boa ficção científica, segundo Oliveira, se vale de uma estratégia, chamada "estranhamento cognitivo". O termo criado pelo iugoslavo Darko Suvin determina que, ao transformar algo que nos é familiar em estranho, o gênero nos dá uma capacidade cognitiva de compreensão do nosso mundo. Por exemplo, quando um romance "inventa" um sistema econômico "diferente" do nosso, nos permite ver mais às claras como é o nosso próprio sistema econômico.
Um dos primeiros livros modernos de ficção pós-apocalíptica, A praga escarlate (1912), de Jack London, é ambientado em um país que, sessenta anos após uma epidemia, está devastado. O romance mostra que, por terem confiança em que os cientistas "encontrariam uma forma de contornar esse novo germe, assim como já haviam superado outros", as pessoas ficaram tranquilas quando descobriram os primeiros contaminados pela praga. A descrição realista de London do medo causado pela espantosa rapidez com que esse germe destruía os seres humanos" poderia parecer uma premonição, já que, seis anos após o lançamento do livro, a gripe espanhola mataria cerca de 50 milhões de pessoas. Essa suposta premonição que pode ser identificada em obras do gênero nada mais é do que um autor que imagina o futuro a partir de uma observação minuciosa da vulnerabilidade do presente.
Já em A song for a new day ("Uma música para um novo dia", em tradução livre), livro de Sarah Pinsker publicado em 2019, um vírus obriga as pessoas a se isolarem em suas casas e tudo passa a ser a distância: reuniões, aulas, compras etc. A protagonista é uma jovem que já nasceu num mundo tornado por esse apocalipse e frequenta apenas concertos em realidade virtual, até descobrir que podem existir concertos clandestinos. "Acredito que quem leu o livro antes da pandemia via esses concertos clandestinos de uma maneira, um ato de rebeldia. Ao lermos esse romance agora, esses shows soam como algo egoísta e irresponsável. É muito interessante como o momento histórico influencia a leitura de um romance", diz Oliveira.
Para o escritor Bráulio Tavares, a ficção científica aborda questões que dizem respeito à humanidade como um todo, e não apenas a alguns grupos de pessoas, procurando "levar em conta, ao narrar uma história, em que pé está a ciência, em que pé está a política internacional, em que pé está a tecnologia, em que pé estão as lutas sociais". Mas Alysson Oliveira lembra: "Por mais que tentem imaginar um outro tipo de sociedade, um outro modo de produção, todos os escritores e escritoras - de qualquer gênero - esbarram em algo intransponível: nossa organização socioeconômica. Acho que a leitura da ficção ciemtífica nos dá, nem que seja momentanemente, uma outra possibilidade de mundo."
ALINE PELLEGRINI
Adaptado de nexojornal.com.br, 26/03/2021
Texto
Como a ficção científica ilumina a realidade pandêmica?
Com base na leitura do texto, a metáfora presente no título estabelece o seguinte tipo de associação entre as expressões sublinhadas acima:
- Acausalidade
- Bsimilaridade
- Cambiguidade
- Dhomogeneidade