Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — Quadrix 2022

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
qa372544
Banca
Quadrix
Órgão
CRMV PR
Ano
2022
Cargo
Adv ( )

Dia desses, por alguns momentos, a cidade parou. As televisões hipnotizaram os espectadores, que assistiram, sem piscar, ao resgate de uma mãe e de uma filha. Seu automóvel caíra em um rio. Assisti ao evento em um local público. Ao acabar o noticiário, o silêncio à volta do aparelho se desfez e as pessoas retornaram às suas ocupações habituais. Os celulares recomeçaram a tocar. Perguntei-me: indiferença? Se tomarmos a definição ao pé da letra, indiferença é sinônimo de desdém, de insensibilidade, de apatia e de negligência. Mas podemos considerá-la também uma forma de ceticismo e desinteresse, um “estado físico que não apresenta nada de particular”; enfim, explica o dicionário, uma atitude de neutralidade.

 

Conclusão? Impassíveis diante da emoção, imperturbáveis diante da paixão, imunes à angústia, vamos hoje burilando nossa indiferença. Não nos indignamos mais! À distância de tudo, seguimos surdos ao barulho do mundo lá fora. Dos movimentos de massa “quentes” (lembram-se do “Diretas já”?) onde nos fundíamos na igualdade, passamos aos gestos frios, nos quais indiferença e distância são fenômenos inseparáveis. Neles, apesar de iguais, somos estrangeiros ao destino de nossos semelhantes. Damos as voltas que forem necessárias para não toparmos com o outro, com o diferente.

 

O mundo exterior nos bombardeia com a miséria, a selvageria, a violência e, simultaneamente, com o riso, a anedota e a festa. Mas, pelo tubo ótico, um morto é igual ao outro. Mais e mais a televisão ensina o nosso olhar a perder o uso da perspectiva. Ela apaga as asperidades e os relevos; não há mais diferença entre o real e o imaginário. Na tela, pessoas tornam-se coisas e coisas tornam-se pessoas. Assim, findo o resgate, mãe e filha se afogaram na nova máquina de lavar, na espuma do novo detergente. E, de quadro em quadro, vamos assistindo, desencantados, a nossa posição ética perante o mundo anestesiar-se.

 

Não adianta trocar de canais: a mensagem é sempre a mesma. Não sentir, não pensar, não falar ou falar com indiferença do que não nos toca jamais. A modernidade, denunciaram alguns filósofos, não passa de um enorme dispositivo para nos “acostumar”; acostumar com o espetáculo diário do sofrimento televisionado, acostumar com nossa função de consumidores anônimos e apáticos. Antes de ligar a televisão, antes mesmo de pensar em poupar energia, vou pensar nisso.

 

Mary Del Priore. Indiferença e modernidade. In: Histórias do cotidiano. Editora Contexto, 2001 (com adaptações).

Texto

   

No início do último parágrafo do texto, os dois-pontos introduzem no período uma

  1. Aexplicação.
  2. Benumeração.
  3. Cgradação.
  4. Dconclusão.
  5. Ecitação.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — explicação.

Link permanente: /questoes/qa372544