Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2022
- Código
- qa375936
- Banca
- Quadrix
- Órgão
- CRC MG
- Ano
- 2022
- Cargo
- Fisc ( )
Discutir com adjetivos é muito fácil. Eu chamo você de feio e você me chama de antipático. Podemos ficar nisso a vida inteira, trocando adjetivos. Mas na vida não há só adjetivos. Há também fatos, fatos substantivos, fatos concretos.
Em 1932, a missão salesiana de Mato Grosso solicitou o pagamento da subvenção consignada no orçamento do governo federal. Apresentou então documentos comprobatórios da aplicação dada ao auxílio que lhe fora concedido no ano anterior. O funcionário do Ministério que deu parecer sobre o caso achou que “as notas estavam certas, devidamente seladas”. Outro funcionário deu também parecer favorável e os papéis subiram ao ministro. O ministro despachou assim: “Ao Departamento de Povoamento para, ouvido o seu delegado no Estado, informar. Rio, 28-4-32 — Salgado Filho”.
Agora tenham a fineza de ler com a devida atenção o informe prestado pelo inspetor regional do Estado, em telegrama:
“Comunico-vos que as faturas constantes do processo D. N. P., número 2.421, são falsas. Consoante comunicação da Associação Comercial do Tesouro do Estado, da Prefeitura Municipal e da Delegacia Fiscal, não existem nesta praça as firmas Gabriel Mattos, Orlando Irmãos e Berbiere & Guerrize. Existem, sim, Orlando Irmãos e Cia Ltda., Guerrize & Barbiere e Gabriel Francisco de Mattos, firmas estas que comunicaram à Inspetoria não haverem vendido as mercadorias constantes das aludidas faturas apresentadas pela missão salesiana, bem como não terem dado procuração a José Pacheco, José Gomes e Antônio Pio para assinarem documentos em nome das firmas respectivas. Documentação segue pelo correio”.
Os “documentos comprobatórios” da aplicação dada ao auxílio concedido no ano anterior, isto é, as “contas certas, devidamente seladas”, eram as faturas impressas com nomes de firmas parecidas com as firmas realmente existentes em Cuiabá. Essas faturas eram assinadas por pessoas que não tinham procuração de ninguém para assinar coisa alguma.
Eis o fato: os missionários salesianos mandaram imprimir faturas de firmas imaginárias e fizeram contas imaginárias de imaginários fornecimentos. O que não era nada imaginário era o dinheiro recebido no ano de 1931.
Para onde foi o dinheiro? Foi gasto em compras a firmas inexistentes...
Deixo aqui uma acusação concreta. Não estou dizendo que os padres são feios ou bonitinhos. Estou dizendo e afirmando e provando que tais missionários salesianos fizeram isso assim, assim.
Rubem Braga. Um fato. In: Uma fada no front. Porto Alegre: Artes e Ofício, 1994 (com adaptações).
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