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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa388473
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Caçapava SP
Ano
2026
Cargo
Prof (Pref Caçapava (SP))

Começando pela cozinha

 

Sugeri, faz tempo, que para entrar numa escola alunos e professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros podem dar lições aos professores. Foi na cozinha que a Babette e a Tita realizaram suas feitiçarias. Babette e Tita, feiticeiras, sabiam que os banquetes não se iniciam com a comida que se serve. Eles se iniciam com a fome. A verdadeira cozinheira é aquela que sabe a arte de produzir fome.

 

Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde eu morava havia um pomar enorme que eu devorava com os olhos. Pois aconteceu que uma árvore cujos galhos chegavam a dois metros do muro se cobriu de frutinhas que eu não conhecia. Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A simples visão daquelas pitangas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las. E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar.

 

O pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo. Se eu não tivesse visto e desejado as ditas pitangas minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine que a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes, com dó de mim, tivesse me dado um punhado das pitangas. Nesse caso também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho sem que eu tivesse tido necessidade de pensar.

 

Se o desejo for satisfeito a máquina de pensar não pensa. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivesse havido as perguntas. (...) Mas o desejo continuou e tratei de encontrar outra solução: “construa uma maquineta de roubar pitangas”. (...)

 

A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. Conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia.

 

Homem sem fome: o fogão nunca será aceso. O banquete nunca será servido. Dizia Miguel de Unamuno: “saber por saber: isso é inumano…”. A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve provocar a fome.

 

ALVES, Rubem. Começando pela cozinha. Revista Educação. Disponível em <https://revistaeducacao.com.br/2012/04/30/comecando-pela-cozinha/>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.

   

Em relação ao texto “Começando pela cozinha”, é correto afirmar que o autor:

  1. Adesenvolve um raciocínio com o tema principal da educação, com base em comparações e sua experiência pessoal.
  2. Bdesenvolve um raciocínio com o tema principal da culinária, com base em comparações e experiências de outras pessoas.
  3. Cdesenvolve um raciocínio com o tema principal sobre como furtar frutas, com base em sua experiência pessoal.
  4. Ddefende a ideia de que a educação não tem nenhuma relação com a gastronomia, sendo a primeira superior à segunda.
  5. Edefende a ideia de que a educação é capaz de endireitar as pessoas, evitando que elas furtem frutas nas árvores vizinhas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — desenvolve um raciocínio com o tema principal da educação, com base em comparações e sua experiência pessoal.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tema central do texto: educação, não culinária

Gabarito: letra A. O autor desenvolve um raciocínio cujo tema principal é a educação — mais precisamente, a tese de que a aprendizagem só acontece quando há desejo (a "fome") — e o faz com base em comparações (cozinha, banquetes, pitangas) e em sua experiência pessoal (a história das pitangas). A prova está na conclusão do texto, que amarra tudo: "A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve provocar a fome."

O comando pede que se identifique o que o autor faz no texto — uma questão de compreensão global, não de inferência. Você precisa reconhecer o tema central (sobre o quê o texto fala) e a estratégia argumentativa (como o autor desenvolve esse tema). A alternativa correta é a que resume fielmente esses dois aspectos, sem acrescentar nada que o texto não diga.

O texto de Rubem Alves começa com uma sugestão provocativa: "para entrar numa escola alunos e professores deveriam passar por uma cozinha". A partir daí, ele constrói uma analogia entre a cozinha e a educação: assim como a verdadeira cozinheira "sabe a arte de produzir fome", o professor deve "provocar a fome" antes de ensinar. A experiência pessoal das pitangas (2º e 3º parágrafos) serve de exemplo concreto: foi o desejo de comer as frutas que "pôs em funcionamento" sua "máquina de pensar". Tudo isso converge para a tese final: o conhecimento precisa nascer do desejo.

A armadilha central desta questão é a fuga ao tema (tangenciamento): as alternativas B, C, D e E pegam elementos figurativos ou periféricos do texto — a culinária, as pitangas, o furto — e os tratam como se fossem o assunto principal. A banca conta com o candidato que se deixa levar pela superfície e não percebe que a cozinha e as frutas são apenas comparações a serviço de uma ideia maior: a educação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o tema central (educação) pelo elemento figurativo (culinária, pitangas). Desconfie de alternativas que citam palavras que aparecem no texto, mas as elevam à condição de assunto principal.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é uma paráfrase fiel do texto. Vejamos cada parte:

  • "desenvolve um raciocínio com o tema principal da educação": o texto inteiro gira em torno da aprendizagem. O 2º parágrafo afirma: "Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva". O 5º parágrafo: "A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede". E a conclusão: "A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve provocar a fome".

  • "com base em comparações": a analogia cozinha/educação está no 1º parágrafo ("Os cozinheiros podem dar lições aos professores") e no último ("A tarefa do professor é a mesma da cozinheira").

  • "e sua experiência pessoal": a narrativa das pitangas, no 2º e 3º parágrafos, é claramente uma lembrança pessoal do autor: "Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde eu morava havia um pomar enorme...".

Não há nenhuma informação extra ou distorcida. A alternativa resume exatamente o que o texto faz.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: fuga ao tema (tangenciamento). A alternativa B afirma que o tema principal é a culinária. O texto, porém, usa a cozinha apenas como comparação — o assunto real é a educação. Além disso, diz que o autor se baseia em "experiências de outras pessoas", mas a única experiência narrada em detalhe é a do próprio autor (as pitangas). A culinária é o veículo da metáfora, não o destino do raciocínio.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: fuga ao tema (tangenciamento) + extrapolação. A alternativa C reduz o texto a "como furtar frutas". O episódio das pitangas é um exemplo para ilustrar a tese de que o desejo move o pensamento — não é o assunto do texto. Além disso, o autor não ensina a furtar; ele apenas narra que desejou as frutas e, diante da dificuldade, "tratei de encontrar outra solução: 'construa uma maquineta de roubar pitangas'". O foco é o processo de pensar, não o furto em si.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa D afirma que "a educação não tem nenhuma relação com a gastronomia". O texto faz exatamente o oposto: estabelece uma relação direta entre as duas, usando a gastronomia como metáfora da educação. O 1º parágrafo diz: "Sugeri, faz tempo, que para entrar numa escola alunos e professores deveriam passar por uma cozinha". E o último: "A tarefa do professor é a mesma da cozinheira". A relação é explícita e central.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa E inventa uma finalidade moral que o texto não menciona: "a educação é capaz de endireitar as pessoas, evitando que elas furtem frutas". O texto não fala em "endireitar" nem em "evitar furtos". O episódio das pitangas é usado para mostrar como o desejo impulsiona o pensamento, não para discutir questões de caráter. Essa alternativa acrescenta uma opinião que não está no texto.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o tema central, pergunte-se: "sobre o quê o autor está falando o tempo todo?" Os elementos figurativos (cozinha, pitangas) são meios, não fins. O tema é a ideia que perpassa todos os parágrafos — aqui, a educação.

Gabarito: letra A.

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