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Questão de Português — Crase — FUNDATEC 2026

PortuguêsCrase
Código
qa388568
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Jaguari (RS)
Ano
2026
Cargo
Prof ( )

Em defesa do dicionário

 

Por William Campos da Cruz

 

Quando foi a última vez que você abriu um dicionário e leu um verbete inteiro? O que você costuma fazer quando se depara com palavras desconhecidas num texto que está lendo? Você já desistiu de alguma leitura apenas por causa das dificuldades lexicais? Que importância você dá à riqueza vocabular dos livros que lê?

 

Consulto dicionários desde muito cedo. Lembro-me da primeira vez em que percebi de maneira consciente seu poder emancipador. Na sexta série (atual sétimo ano) do Ensino Fundamental, terminei uma prova cedo demais e a professora me deu um texto para ler enquanto aguardava o sinal do intervalo. Como topei com uma palavra que ignorava, chamei a professora para perguntar-lhe o significado. Evidentemente, ela estava ocupada supervisionando os alunos que faziam prova e, por isso, foi até a sua bolsa, sacou um dicionário e deixou-o em minha carteira.

 

Aqueles minutos marcaram minha vida para sempre. Talvez sem nem se dar conta, a professora apresentou-me uma poderosa ferramenta de emancipação intelectual. Com o dicionário em punho, eu não precisava temer textos compostos por palavras desconhecidas. Eu tinha ali, à minha disposição, uma ferramenta capaz de tornar o desconhecido conhecido, o ininteligível inteligível, e o impossível difícil – difícil, mas possível.

 

Os anos se passaram e me tornei revisor de textos e, mais tarde, tradutor. Os dicionários fazem parte de minha rotina diária. Consulto-os todos os dias, dezenas de vezes. Para conferir a ortografia, para consultar uma regência, para descobrir se uma palavra já conhecida não está sendo empregada numa acepção incomum, para ver exemplos de uso literário dessas palavras. Além de tudo isso, os dicionários também nos ajudam a descobrir a etimologia das palavras, a separação silábica e a classe a que determinada palavra pertence.

 

Os benefícios são tantos que mal consigo acreditar que as pessoas abram mão de uma ferramenta tão poderosa e se entreguem tão facilmente a uma leitura adivinhada. Não nego que, com frequência, seja perfeitamente possível inferir o sentido de uma palavra com base no contexto; mas este é um recurso perigoso.

 

Não usei a palavra “adivinhada” à toa. É isso que muitas pessoas fazem. É por isso também, aliás, que às vezes parece que duas pessoas leram textos diferentes. Cada um atribuiu às palavras o sentido que lhes veio à cabeça.

 

Consultar o dicionário não é uma chatice que interrompe o curso da leitura; é, na verdade, um indício de que você está lendo com a inteligência desperta a ponto de distinguir as coisas que você entende das que não entende, as coisas que você conhece das coisas que não conhece.

 

A mesma professora dizia também que o dicionário não é o pai dos burros; é a mãe dos inteligentes. É necessário ter alguma inteligência para procurar saciar a sede de saber. Quem tem sede, vá ao dicionário e sacie-se.

 

(CRUZ, William Campos da. Tudo converge para o texto: gramática, escrita e leitura. 1ª ed. - Rio de Janeiro:

Eleia Editora, 2024 – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que apresenta um caso facultativo de crase nos trechos retirados do texto.
  1. A“Que importância você dá à riqueza vocabular dos livros que lê?”.
  2. B“Eu tinha ali, à minha disposição, uma ferramenta capaz de tornar o desconhecido conhecido, o ininteligível inteligível, e o impossível difícil – difícil, mas possível”.
  3. C“Não usei a palavra 'adivinhada' à toa”.
  4. D“É por isso também, aliás, que às vezes parece que duas pessoas leram textos diferentes”.
  5. E“Cada um atribuiu às palavras o sentido que lhes veio à cabeça”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — “Eu tinha ali, à minha disposição, uma ferramenta capaz de tornar o desconhecido conhecido, o ininteligível inteligível, e o impossível difícil – difícil, mas possível”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase facultativa — Gabarito: letra B.

A alternativa B é a correta porque apresenta crase facultativa antes de pronome possessivo adjetivo feminino: em “à minha disposição”, o “à” pode ser suprimido (“a minha disposição”) sem prejuízo gramatical, pois o possessivo “minha” admite ou dispensa o artigo definido “a”. As demais alternativas trazem crase obrigatória (locuções adverbiais femininas ou regência verbal), como se verá a seguir.

O comando

A questão pede que você identifique o caso facultativo de crase. Isso exige conhecer os três grupos: obrigatória (preposição “a” + artigo “a”/pronome demonstrativo), proibida (antes de masculino, verbo, pronome de tratamento etc.) e facultativa (antes de nome próprio feminino, após “até”, antes de possessivo adjetivo feminino). A banca não quer a regra geral, mas a exceção — e é exatamente aí que mora a pegadinha.

O texto e a técnica

O texto-base é um artigo de opinião em defesa do dicionário. A questão não depende da interpretação do conteúdo, mas da análise gramatical de trechos retirados dele. Para resolver, você deve, em cada alternativa, verificar se o “à” pode ser retirado sem alterar a correção. Se puder, é facultativo; se não, é obrigatório (ou proibido).

A regra que decide

A crase é facultativa antes de pronome possessivo adjetivo feminino (singular ou plural), pois o artigo definido é dispensável. Exemplo: “Refiro-me a minha amiga” ou “Refiro-me à minha amiga” — ambas corretas. Já a crase é obrigatória em locuções adverbiais femininas consagradas, como “à toa”, “às vezes”, “à noite”, e em regências verbais que exigem preposição “a” + artigo “a”.

Análise das alternativas

Critério

Obrigatória

Facultativa

Proibida

Quando ocorre

Preposição "a" + artigo "a"

Antes de possessivo adjetivo feminino

Antes de palavra masculina

Exemplos

Regência verbal ("dar a algo")

"à minha disposição" / "a minha disposição"

Antes de verbo

Locuções

Adverbiais femininas ("à toa", "às vezes")

Após "até"

Antes de pronome de tratamento

Alternativa A — ❌ Incorreta

“Que importância você dá à riqueza vocabular dos livros que lê?”

Aqui a crase é obrigatória: o verbo “dar” exige preposição “a” (quem dá, dá algo a alguém) e “riqueza” é substantivo feminino que admite artigo “a”. Não há como suprimir o “à” sem tornar a frase agramatical. Erro: crase obrigatória, não facultativa.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Eu tinha ali, à minha disposição, uma ferramenta capaz de tornar o desconhecido conhecido...”

“Disposição” é substantivo feminino, e “minha” é pronome possessivo adjetivo. O artigo “a” é facultativo: pode-se escrever “a minha disposição” ou “à minha disposição”. Portanto, crase facultativa. É a única alternativa que se encaixa no pedido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Não usei a palavra 'adivinhada' à toa.”

“À toa” é locução adverbial feminina consagrada — a crase é obrigatória. Não existe “a toa” sem acento nesse sentido. Erro: crase obrigatória em locução adverbial.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“É por isso também, aliás, que às vezes parece que duas pessoas leram textos diferentes.”

“Às vezes” é locução adverbial feminina (no plural) — crase obrigatória. Não se escreve “as vezes” com sentido de “algumas vezes” sem crase. Erro: crase obrigatória em locução adverbial.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Cada um atribuiu às palavras o sentido que lhes veio à cabeça.”

O verbo “atribuir” exige preposição “a” (quem atribui, atribui algo a alguém) e “palavras” é substantivo feminino plural que admite artigo “as”. Logo, crase obrigatória. Erro: crase obrigatória por regência verbal.

Fechamento

A regra de ouro: crase facultativa ocorre quando o artigo pode ser omitido sem prejuízo — antes de possessivo adjetivo, nome próprio feminino e após “até”. Nas locuções adverbiais femininas e nas regências verbais, a crase é obrigatória. Guarde isso e você nunca mais errará esse tipo de questão.

Gabarito: letra B

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