Leandro Karnal – Não importa o que o profissional de enfermagem (se é técnico, auxiliar ou enfermeiro) faça, ele vai sofrer. Vai sofrer porque pode adoecer, porque pode perder alguém querido, porque a profissão é extremamente desafiadora e o ambiente hospitalar é muito estressante. Vai sofrer porque lida com a dor dos outros o dia inteiro ‑ é inevitável.
Mas tanto os budistas quanto os filósofos estoicos afirmavam o seguinte: “Eu não controlo o mundo, eu controlo como o mundo me influencia”. Ou seja, trata‑se de um processo interno que a Monja Coen destaca em uma frase do budismo zen: “A dor é inevitável, o sofrimento não”. Se eu bater o pé na quina da cama, eu vou sentir dor. No entanto, se eu aumentar essa dor com xingamentos, revolta e sentimentos negativos, eu transformo a dor em sofrimento.
Texto para a questão Assinale a opção correta, quanto à análise semântica e sintática do texto.
AA semântica permanece ao trocarmos a conjunção que abre o segundo parágrafo por “Mas também”.
BO segundo parágrafo do texto estabelece uma relação de contraste de ideias em relação ao primeiro parágrafo. A conjunção coordenativa que estabelece esse sentido poderia ser substituída, sem alteração do sentido original do texto, por Todavia.
CA relação de sentido estabelecida entre o primeiro e o segundo parágrafo é de alternância, visto que a conjunção que abre o segundo parágrafo poderia ser substituída, sem prejuízo ao sentido do tempo, por Contudo.
DPor se tratar de uma entrevista cedida por Leandro Karnal, há uma inconsistência de aplicação da conjunção coordenativa que abre o segundo parágrafo, pois a linguagem formal contida nesse gênero textual inviabiliza a utilização de uma conjunção que contém sentido contraditório de ideias.
ENo segundo parágrafo, o uso da conjunção coordenativa adversativa “tanto...quanto” estabelece sentido de comparação ao relacionar que budistas e filósofos não controlam o mundo.
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GabaritoB — O segundo parágrafo do texto estabelece uma relação de contraste de ideias em relação ao primeiro parágrafo. A conjunção coordenativa que estabelece esse sentido poderia ser substituída, sem alteração do sentido original do texto, por Todavia.
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Análise semântica e sintática: a conjunção que abre o segundo parágrafo
Gabarito: letra B. O segundo parágrafo estabelece uma relação de contraste com o primeiro: o autor afirma que o profissional de enfermagem vai sofrer (1º parágrafo) e, em seguida, apresenta a visão budista/estoica de que é possível não sofrer (2º parágrafo). A conjunção "Mas" que abre o segundo parágrafo é coordenativa adversativa e pode ser substituída por "Todavia" sem alteração de sentido, pois ambas expressam oposição. Como se lê no texto:
"Mas tanto os budistas quanto os filósofos estoicos afirmavam o seguinte: 'Eu não controlo o mundo, eu controlo como o mundo me influencia'."
A passagem mostra que o autor contrapõe a inevitabilidade do sofrimento (1º parágrafo) à possibilidade de controlar a própria reação (2º parágrafo). A conjunção "Mas" marca exatamente essa quebra de expectativa, e "Todavia" é sinônimo perfeito nesse contexto.
O comando da questão
O enunciado pede a análise semântica e sintática do texto, ou seja, exige que o candidato identifique o valor da conjunção que abre o segundo parágrafo e avalie se uma substituição preserva o sentido. Não se trata de mera decoreba de lista de conjunções: é preciso ler o texto e perceber a relação lógica entre os parágrafos.
O texto e a relação entre os parágrafos
O primeiro parágrafo afirma que o profissional de enfermagem vai sofrer — por vários motivos (adoecer, perder alguém, ambiente estressante, lidar com a dor dos outros). O segundo parágrafo, iniciado por "Mas", apresenta uma contraposição: budistas e estoicos afirmam que não controlamos o mundo, mas controlamos como o mundo nos influencia. Ou seja, o sofrimento não é inevitável — a dor é, mas o sofrimento não. Essa é a relação de oposição que a conjunção "Mas" estabelece entre os parágrafos.
A técnica: valor semântico das conjunções coordenativas
As conjunções coordenativas ligam orações ou termos de mesma função, e cada uma carrega um valor semântico:
Aditivas: e, nem, não só... mas também (ideia de soma)
Adversativas: mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto (ideia de oposição, contraste, quebra de expectativa)
Alternativas: ou, ou... ou, ora... ora (ideia de alternância, exclusão)
Conclusivas: logo, portanto, por isso, assim (ideia de conclusão)
Explicativas: porque, pois, porquanto (ideia de explicação)
A banca adora testar a substituição de uma conjunção por outra equivalente. Para acertar, você deve:
Identificar o valor semântico da conjunção no contexto.
Verificar se a conjunção proposta preserva esse valor.
Cuidado com conjunções que têm mais de um valor dependendo do contexto (ex.: "e" pode ser aditiva ou adversativa).
Análise das alternativas
Conjunções coordenativas: Aditivas (e, nem, não só... mas também); Adversativas (mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto); Alternativas (ou, ou... ou, ora... ora); Conclusivas (logo, portanto, por isso); Explicativas (porque, pois, porquanto)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a semântica permanece ao trocar "Mas" por "Mas também". Errado. "Mas também" é uma locução aditiva (equivale a "e também"), enquanto "Mas" é adversativa. A troca alteraria o sentido: em vez de oposição, teríamos adição. O texto diz:
"Mas tanto os budistas quanto os filósofos estoicos afirmavam..."
Aqui, "Mas" introduz uma quebra de expectativa em relação ao sofrimento inevitável. "Mas também" introduziria uma soma de informações, o que não é o caso. Erro: troca de valor semântico (adversativa → aditiva).
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que o segundo parágrafo estabelece contraste com o primeiro e que a conjunção "Mas" pode ser substituída por "Todavia" sem alteração de sentido. Correto. O texto mostra:
"Mas tanto os budistas quanto os filósofos estoicos afirmavam o seguinte: 'Eu não controlo o mundo, eu controlo como o mundo me influencia'."
O primeiro parágrafo diz que o profissional vai sofrer; o segundo contrapõe que é possível não sofrer (controlar a reação). "Mas" e "Todavia" são adversativas e expressam oposição. A substituição preserva o sentido. Correta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a relação é de alternância e que "Mas" poderia ser substituída por "Contudo". Errado. "Contudo" é adversativa, não alternativa. A relação entre os parágrafos é de oposição, não de alternância (ou uma coisa ou outra). O texto não apresenta escolha entre sofrer ou não sofrer; apresenta uma contraposição entre a inevitabilidade da dor e a possibilidade de não sofrer. Erro: classificação incorreta (alternância em vez de oposição) e substituição inadequada (Contudo é adversativa, mas a relação não é de alternância).
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que há inconsistência na aplicação da conjunção "Mas" por se tratar de entrevista e que a linguagem formal inviabiliza seu uso. Errado. Não há inconsistência: "Mas" é perfeitamente adequada ao gênero e à formalidade. O texto é um artigo de opinião/entrevista, e a conjunção adversativa é comum e correta. Erro: opinião embutida (julga inadequado o que é adequado) e fuga ao tema (gênero textual não interfere no valor da conjunção).
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "tanto...quanto" é uma conjunção coordenativa adversativa e estabelece sentido de comparação. Errado. "Tanto...quanto" é uma correlação aditiva (equivale a "não só... mas também"), e não adversativa. No texto:
"Mas tanto os budistas quanto os filósofos estoicos afirmavam..."
Aqui, "tanto...quanto" soma budistas e filósofos estoicos (ambos afirmavam), não estabelece oposição. Erro: troca de valor semântico (aditiva → adversativa) e classificação incorreta.
Conclusão
A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a B: o segundo parágrafo contrasta com o primeiro, e "Mas" pode ser substituída por "Todavia" sem alteração de sentido. As demais ou trocam o valor da conjunção, ou classificam erroneamente a relação, ou acrescentam opiniões sem base no texto.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar conjunções, pergunte: qual relação lógica ela estabelece no contexto? Se a substituição proposta mantém essa relação, está correta; se muda, está errada. Desconfie de alternativas que trocam o valor (adversativa por aditiva, por exemplo).
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora propor substituições com conjunções de mesma classe, mas valor diferente (como "Mas também") ou classificar a relação de forma errada (alternância em vez de oposição). Fique atento ao contexto.