Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa388699
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Agudo
Ano
2026
Cargo
ACS ( )
Visões de Régis Bonvicino: poeta e ativo militante cultural
Por Luis Marcio Silva
Certa vez, ao falar sobre São Paulo, onde nasceu em 1955, o poeta Régis Bonvicino afirmou que a cidade lhe parecia uma “espécie de céu inacabado”. Não era no céu, porém, e sim no plano comum das esquinas, avenidas e edifícios que ele mapeava São Paulo em seus poemas. “Minha poesia não tem muita ficção, tem muita visão, é o que eu vejo”, ele me disse. O que Bonvicino via era a metrópole em transformação, consumida pela especulação imobiliária e a miséria crescente.
Foi essa São Paulo que lhe insuflou os primeiros livros “Bicho papel” (1975) e “Régis Hotel” (1978). No poema “Sem título (7)”, ele escreveu: são paulo/do teu passado tupi/só resta/o rápido som/da palavra aqui. É também essa cidade que comparece nos últimos poemas, como os inéditos “Ars vivendi” e “Várzea do Carmo”. Há apenas uma deriva na história, que leva até Várzea do Carmo para evocar raízes de uma injustiça ancestral.
Régis Bonvicino morreu no dia 5 de julho passado, em Roma, onde estava em férias. Sofreu uma queda, que lhe causou traumatismo craniano. Estava com 70 anos. Ele não nutria visão idealizada da Itália. O que mais o fascinava era o cinema, sobretudo o neorrealismo.
Desde jovem, Bonvicino foi militante cultural, participando de revistas, traduções e jornais. Editou Poesia em G e Qorpo Estranho, que reuniu veteranos e nomes da nova geração, como Paulo Leminski. Mais adiante, lançou a revista Sibila, que depois migrou para a internet. Ele buscou construir pontes entre poetas brasileiros e estrangeiros, convidando autores como Michael Palmer e Charles Bernstein. Suas trocas decisivas ocorreram com Paulo Leminski, de cuja correspondência surgiu o livro “Envie meu dicionário” (1999).
Em seus primeiros livros dialogou com o concretismo, mas foi se afastando dessa herança. O momento decisivo foi “Sósia da cópia” (1983). Seu último livro, “A nova utopia” (2022), faz um inventário das ruínas do presente. Essa reflexão crítica percorre também o libreto “Deus devolve o revólver” (2019).
Em entrevista, Bonvicino comentou vícios do sistema literário e avaliou que há poetas em excesso e leitores de menos. Talvez por reconhecer a inutilidade da poesia – e sua liberdade – tenha buscado interlocutores fora da literatura.
(Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/visoes-de-regis-bonvicino/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
No texto, ao mencionar que Bonvicino participou da edição de revistas, o narrador utiliza recurso argumentativo com a finalidade de:
AComprovar que sua obra teve pouca circulação editorial.
BJustificar sua mudança para a Itália.
CApresentar uma crítica às revistas literárias brasileiras.
DIndicar que sua produção era dependente de parcerias internacionais.
EDemonstrar sua inserção ativa no campo cultural e a relevância de sua atuação.
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GabaritoE — Demonstrar sua inserção ativa no campo cultural e a relevância de sua atuação.
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Recurso argumentativo: a militância cultural de Bonvicino
Gabarito: letra E. Ao mencionar a participação de Bonvicino na edição de revistas, o narrador usa esse dado como recurso argumentativo para demonstrar sua inserção ativa no campo cultural e a relevância de sua atuação — exatamente o que a alternativa E afirma. A passagem que sustenta isso está no 4º parágrafo: "Desde jovem, Bonvicino foi militante cultural, participando de revistas, traduções e jornais" e, logo em seguida, a enumeração das revistas que editou (Poesia em G, Qorpo Estranho, Sibila) e das pontes que construiu com poetas estrangeiros. O texto não diz que a obra teve pouca circulação, não justifica mudança para a Itália, não critica revistas literárias nem afirma dependência de parcerias internacionais — todas as demais alternativas extrapolam o que está escrito.
O comando da questão
O enunciado pergunta: "No texto, ao mencionar que Bonvicino participou da edição de revistas, o narrador utiliza recurso argumentativo com a finalidade de:" — ou seja, quer saber para que o autor usou essa informação. Isso é uma questão de compreensão (o dado está explícito) e de interpretação da intenção argumentativa (por que o narrador trouxe esse dado). Não se trata de gramática nem de inferência complexa: basta localizar o trecho e perceber o papel que ele cumpre no desenvolvimento do texto.
O texto e o movimento argumentativo
O texto é uma homenagem póstuma a Régis Bonvicino, poeta paulistano. O narrador constrói um perfil que valoriza duas frentes: a produção poética (ligada à visão da cidade) e a atuação como militante cultural. No 4º parágrafo, o foco é justamente essa militância:
"Desde jovem, Bonvicino foi militante cultural, participando de revistas, traduções e jornais. Editou Poesia em G e Qorpo Estranho, que reuniu veteranos e nomes da nova geração, como Paulo Leminski. Mais adiante, lançou a revista Sibila, que depois migrou para a internet. Ele buscou construir pontes entre poetas brasileiros e estrangeiros, convidando autores como Michael Palmer e Charles Bernstein."
A enumeração de revistas, traduções e parcerias não é gratuita: ela comprova a tese de que Bonvicino era um agente ativo do campo literário, não um poeta isolado. O verbo "militante" já carrega essa ideia de engajamento; os exemplos concretos (as revistas, os nomes) funcionam como argumentos que sustentam essa caracterização. É exatamente isso que a alternativa E captura: "inserção ativa no campo cultural e a relevância de sua atuação".
A técnica que decide
Em questões de recurso argumentativo, pergunte-se: que papel essa informação desempenha na defesa da ideia central? Aqui, a ideia central do parágrafo é a militância cultural; a menção às revistas é a evidência dessa militância. Alternativas que atribuem ao trecho uma finalidade que o texto não menciona (como "comprovar pouca circulação" ou "justificar mudança para a Itália") cometem o erro clássico de extrapolar — acrescentam informação de fora, que não está autorizada pelo texto.
Recurso argumentativo: Finalidade (Demonstrar inserção ativa no campo cultural, Relevância da atuação); Evidências no texto (Participou de revistas, traduções e jornais, Editou Poesia em G e Qorpo Estranho, Lançou a revista Sibila, Construiu pontes com poetas estrangeiros); Erros das demais (Extrapolam o texto, Contradizem o texto)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Comprovar que sua obra teve pouca circulação editorial." O texto diz o oposto: Bonvicino editou revistas, participou de traduções e jornais, construiu pontes com poetas estrangeiros — tudo isso indica ampla circulação e inserção, não pouca. A alternativa contradiz o texto e ainda extrapola ao inventar um dado ("pouca circulação") que não aparece em nenhum trecho.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Justificar sua mudança para a Itália." O texto menciona que Bonvicino morreu em Roma, onde estava em férias, mas não há nenhuma relação entre a edição de revistas e uma suposta mudança para a Itália. A alternativa extrapola completamente: cria um vínculo causal inexistente. O texto não diz que ele se mudou para a Itália, muito menos que isso teria relação com sua militância cultural.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Apresentar uma crítica às revistas literárias brasileiras." O texto não critica as revistas; ao contrário, apresenta-as como parte positiva da trajetória do poeta. A palavra "crítica" é uma opinião embutida que o autor não externou. O tom do parágrafo é de valorização, não de censura. A alternativa tangencia o tema (fala de revistas, mas com sentido oposto ao do texto).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Indicar que sua produção era dependente de parcerias internacionais." O texto diz que Bonvicino buscou construir pontes com poetas estrangeiros, o que indica iniciativa própria, não dependência. A palavra "dependente" é uma extrapolação — o texto não afirma que a produção dele dependia de ninguém. Além disso, a menção às revistas não está ligada a parcerias internacionais; ela ilustra a militância cultural de forma geral.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Demonstrar sua inserção ativa no campo cultural e a relevância de sua atuação." Esta é a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto. O 4º parágrafo é uma sequência de ações que comprovam essa inserção: "participando de revistas, traduções e jornais", "Editou Poesia em G e Qorpo Estranho", "lançou a revista Sibila", "buscou construir pontes entre poetas brasileiros e estrangeiros". Cada verbo de ação reforça a ideia de atuação ativa e relevância. A alternativa é uma paráfrase fiel do que o texto afirma, sem acrescentar nada de fora.
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta na extrapolação — oferece finalidades plausíveis (crítica, dependência, mudança) que não estão no texto. A correta é a que se limita a parafrasear o que o narrador efetivamente faz: mostrar Bonvicino como agente cultural.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de "recurso argumentativo", grife os verbos de ação do trecho (participou, editou, lançou, buscou) — eles revelam a finalidade. Se a alternativa atribui uma intenção que nenhum verbo sustenta, descarte.
Gabarito: letra E — a única que traduz com fidelidade a função do trecho no texto: evidenciar a militância cultural de Bonvicino e a importância de sua atuação no meio literário.