Questão de Português — Paralelismo — FUNDATEC 2026
Português›Paralelismo
Código
qa388708
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Agudo
Ano
2026
Cargo
ACS ( )
Um dorme com a cabeça enfiada
entre as grades do prédio
o outro acorda: colchão intacto,
barraca de pé, dádivas à vista
[...]
um prefere marquises,
o outro, viadutos
um deles passou hoje
a empurrar nuvens
o ônibus não para no ponto
o telepata interespécie
se disfarça de lixo
para atrair um resto de comida
quando a fome aperta
só definha aquele que não desiste
Para responder à questão, considere o trecho abaixo, adaptado do poema Passarela, de Régis Bonvicino. A repetição do par “um” e “o outro” no poema constitui mecanismo de:
AProgressão temática.
BParalelismo estrutural.
CCoesão por metáfora.
DSubstituição lexical.
EReiteração por elipse.
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GabaritoB — Paralelismo estrutural.
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Paralelismo estrutural: a repetição de "um" e "o outro"
Gabarito: letra B. A repetição do par "um" e "o outro" constitui paralelismo estrutural, pois cria uma estrutura sintática simétrica que se repete ao longo do poema, como se vê em "um dorme com a cabeça enfiada / entre as grades do prédio / o outro acorda" e "um prefere marquises, / o outro, viadutos". O mecanismo não é de coesão referencial (não retoma um termo já dito), nem de substituição lexical (não troca uma palavra por outra), nem de elipse (não omite termo recuperável), nem de metáfora (não há comparação implícita). A repetição do par "um"/"o outro" organiza o texto em blocos simétricos, opondo dois sujeitos de forma paralela.
O comando da questão
O enunciado pergunta: "A repetição do par 'um' e 'o outro' no poema constitui mecanismo de:". Trata-se de uma questão de conceito — você precisa identificar qual recurso linguístico a repetição do par "um"/"o outro" representa. Não é uma questão de compreensão literal (não pergunta o que o poema diz), nem de inferência (não pede para deduzir algo implícito). É uma questão de classificação: dado um fenômeno textual, nomeie-o corretamente.
O texto: tema e estrutura
O poema Passarela, de Régis Bonvicino, descreve a vida de pessoas em situação de rua, contrastando dois personagens: "um" e "o outro". A estrutura é marcada pela oposição entre esses dois sujeitos, que se alternam em ações e preferências:
"um dorme com a cabeça enfiada / entre as grades do prédio / o outro acorda: colchão intacto, / barraca de pé, dádivas à vista"
"um prefere marquises, / o outro, viadutos"
A repetição do par "um"/"o outro" não é mero ornamento: ela estrutura o poema em pares antitéticos, criando um ritmo binário que opõe as experiências dos dois sujeitos. Cada bloco começa com "um" e é completado por "o outro", estabelecendo uma simetria sintática — as mesmas funções sintáticas (sujeito) e a mesma posição na frase.
A técnica que decide
Paralelismo estrutural (ou sintático) é a repetição de estruturas gramaticais equivalentes em sequência. No poema, a construção "um + verbo + complemento" se repete, e "o outro + verbo + complemento" também, criando um espelhamento entre os dois sujeitos. Veja:
"um dorme com a cabeça enfiada" → sujeito + verbo + adjunto
"o outro acorda" → sujeito + verbo
"um prefere marquises" → sujeito + verbo + objeto
"o outro, viadutos" → sujeito + (verbo elíptico) + objeto
A simetria é evidente: os dois termos ocupam a mesma posição sintática (sujeito) e são seguidos por predicados de estrutura semelhante. Isso é paralelismo estrutural, não coesão referencial.
Por que não é coesão referencial?
Coesão referencial ocorre quando um termo retoma outro já mencionado (anáfora) ou antecipa (catáfora). Exemplo: "João chegou. Ele estava cansado." — "ele" retoma "João". No poema, "um" e "o outro" não retomam nenhum termo anterior; eles introduzem dois personagens novos e os opõem. A repetição não é de referência, mas de estrutura. Por isso, a alternativa A (progressão temática) também não se aplica: progressão temática diz respeito à evolução dos temas no texto, não à repetição de uma estrutura sintática.
Análise das alternativas
Mecanismos de coesão: Paralelismo estrutural (Repetição de estrutura sintática simétrica, Ex.: "um dorme..." / "o outro acorda..."); Coesão referencial (Retoma termo anterior (anáfora), Ex.: "João chegou. Ele..."); Substituição lexical (Troca por sinônimo/pronome, Ex.: "Bonvicino" → "o poeta"); Elipse (Omissão de termo recuperável, Ex.: "o outro, viadutos" (omite "prefere")); Metáfora (Comparação implícita, Ex.: "a vida é uma viagem")
Alternativa A — ❌ Incorreta
Progressão temática refere-se à forma como os temas (informações conhecidas) evoluem ao longo do texto, geralmente com remas (informações novas) que se tornam temas. No poema, a repetição de "um"/"o outro" não promove progressão temática; ela mantém o mesmo tema (os dois sujeitos) e apenas alterna as ações. A progressão temática seria algo como: "O homem dorme. Ele acorda. O homem então..." — aqui há retomada e avanço. No poema, não há essa cadeia; há oposição paralela. Portanto, a alternativa extrapola o conceito de progressão temática, aplicando-o a um fenômeno que é essencialmente estrutural.
Alternativa B — ✅ Correta
Paralelismo estrutural é exatamente o que ocorre: a repetição de "um" e "o outro" cria estruturas sintáticas simétricas que se repetem ao longo do poema. Como vimos, "um dorme..." / "o outro acorda..." e "um prefere marquises" / "o outro, viadutos" são pares que espelham a mesma organização sintática. O paralelismo é um recurso de coesão sequencial (organiza o texto em blocos paralelos) e também de estilo, pois reforça a oposição entre os dois sujeitos. A banca pede exatamente isso: identificar o mecanismo que a repetição do par constitui. A resposta é paralelismo estrutural.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Coesão por metáfora seria se houvesse uma comparação implícita entre dois elementos, como em "a vida é uma viagem". No poema, não há metáfora na repetição de "um"/"o outro"; há apenas a oposição entre dois sujeitos. A metáfora aparece em outros versos ("o telepata interespécie / se disfarça de lixo"), mas não é o mecanismo da repetição do par. A alternativa confunde o recurso estilístico com o mecanismo de coesão estrutural.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Substituição lexical ocorre quando um termo é substituído por outro para evitar repetição, como usar "o poeta" em vez de "Bonvicino". No poema, "um" e "o outro" não substituem nenhum termo; eles são os próprios sujeitos, introduzidos de forma paralela. Não há troca de palavras por sinônimos ou pronomes para retomar referentes. A alternativa erra ao classificar a repetição como substituição, quando na verdade é repetição estrutural.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Reiteração por elipse seria a omissão de um termo que pode ser recuperado pelo contexto, como em "um prefere marquises, o outro, viadutos" — aqui há elipse do verbo "prefere" no segundo membro. No entanto, a repetição do par "um"/"o outro" não é elipse; é a repetição explícita dos sujeitos. A elipse ocorre em um dos versos, mas não é o mecanismo que a repetição do par constitui. A alternativa confunde a elipse pontual com a repetição estrutural que percorre o poema.
Conclusão
A repetição do par "um" e "o outro" é um caso clássico de paralelismo estrutural: a mesma estrutura sintática se repete, criando simetria e oposição. As demais alternativas ou extrapolam o conceito (progressão temática), ou confundem com outros mecanismos (metáfora, substituição, elipse).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre paralelismo (estrutura repetida) e coesão referencial (retomada de termos). A repetição de "um"/"o outro" não retoma referente; ela cria simetria.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar paralelismo, procure por estruturas sintáticas equivalentes em sequência (mesma função, mesma ordem). Se houver retomada de um termo anterior, é coesão referencial; se houver omissão recuperável, é elipse.