Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2026
Português›Figuras de Linguagem
Código
qa389523
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Vinhedo
Ano
2026
Cargo
Enf ( )
(In)diferença
Aprendi há pouco que não devo ignorar completamente o que dizem sobre minha pessoa. Seja agradável ou não o que ouço, é recomendável dispor de pelo menos alguns minutinhos para reflexão. E resolvi me observar por uns dias para saber em que e em quais situações posso ser indiferente. As conclusões são mesmo conclusivas, se me permite o pleonasmo. Até porque se trata de posicionamento relativo diante de circunstâncias que podem se apresentar de formas diversas.
Não sou indiferente a preconceitos, por exemplo. Odeio todos, de todos os tipos, inclusive os que ainda se agarram a mim e dos quais ainda – disse ainda, de novo – não consegui me libertar. Posso ser indiferente a racistas, pois não merecem minha atenção, a menos que necessitem de um passa-fora, tipo peteleco que se dá em inseto incômodo, em casos menos significativos – piadinhas sem graça –, ou uma denúncia em alto e bom som quando a ofensa é gravíssima.
Sou permanentemente intolerante com a intolerância.
Não sou indiferente à falta de educação. Seja no trânsito, em restaurantes, supermercados, filas. Tenho horror a quem joga lixo no chão e fala exageradamente alto em qualquer lugar.
Não sou indiferente à crueldade cometida diariamente contra animais indefesos, vítimas de crimes cometidos pelos próprios guardiões. Não sou indiferente ao sofrimento imposto aos touros em rodeios. Não sou indiferente aos cães abandonados por seus donos por motivos vários.
(...)
Não sou indiferente à mentira, à omissão, à injustiça.
Não sou indiferente à ignorância imposta por uma educação capenga.
Prefiro ser indiferente aos arrogantes e prepotentes. Sou impaciente com a deselegância dos que pensam ser os donos do mundo, da situação ou da verdade. Aos que se autodenominam sábios e não têm ideia do que dizem, pois os sábios não se dizem sábios. A esses, viro as costas solenemente, com toda a indiferença que consigo reunir. (...)
DAMACENO, Giovana. (In)diferença. Revista Benfazeja. Disponível em <https://www.avl.org.br/uploads/b889aa7f77e52e3a 5e8c0e9f930aa329indiferenca_gd.pdf>.
Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo. Assinale a alternativa que apresenta uma passagem do texto “(In)diferença” que se enquadra num paradoxo, figura de linguagem em que duas ideias aparentemente contraditórias são utilizadas num mesmo contexto.
A“Sou permanentemente intolerante com a intolerância.”
B“Odeio todos, de todos os tipos”
C“Não sou indiferente a preconceitos, por exemplo.”
D“denúncia em alto e bom som quando a ofensa é gravíssima.”
E“Sou impaciente com a deselegância dos que pensam ser os donos do mundo”
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GabaritoA — “Sou permanentemente intolerante com a intolerância.”
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Paradoxo: "Sou permanentemente intolerante com a intolerância"
Gabarito: letra A. A passagem que configura um paradoxo é "Sou permanentemente intolerante com a intolerância", pois une, no mesmo enunciado, os termos "intolerante" e "intolerância", que são aparentemente contraditórios: alguém que é intolerante com a intolerância parece negar a própria intolerância, criando uma tensão lógica. Como se lê no texto, a frase é uma declaração categórica da autora, que se posiciona contra a intolerância de forma absoluta, e é exatamente essa junção de ideias opostas que caracteriza o paradoxo. O comando pede que se identifique uma passagem que se enquadre em um paradoxo, figura de linguagem em que duas ideias aparentemente contraditórias são utilizadas num mesmo contexto. A tarefa é de interpretação de texto com foco em figuras de linguagem: é preciso reconhecer, no texto-base, o trecho que materializa essa figura de pensamento. Não basta escolher uma frase que pareça bonita ou forte; é necessário que haja, nela, a coexistência de termos ou ideias que se opõem. O texto "(In)diferença" é uma reflexão da autora sobre aquilo a que ela é ou não indiferente. Ela afirma não ser indiferente a preconceitos, à falta de educação, à crueldade contra animais, à mentira, à injustiça e à ignorância. No entanto, ela prefere ser indiferente aos arrogantes e prepotentes. O ponto central para esta questão está na frase que sintetiza sua postura diante da intolerância: "Sou permanentemente intolerante com a intolerância". Aqui, o paradoxo é evidente: a autora usa a palavra "intolerante" para descrever a si mesma, mas o alvo dessa intolerância é a própria "intolerância". A contradição aparente está em ser intolerante (uma característica geralmente negativa) justamente para combater a intolerância (também negativa). É uma construção que desafia a lógica comum, pois alguém que odeia a intolerância não deveria, em tese, ser intolerante — mas é exatamente essa a força expressiva do paradoxo. A técnica para resolver é direta: procure o trecho em que dois termos de sentido oposto aparecem juntos, criando uma contradição aparente. O paradoxo (ou oxímoro, quando a contradição se dá entre duas palavras justapostas) é uma figura de pensamento que aproxima ideias que se excluem. Na alternativa A, "intolerante" e "intolerância" são da mesma família, mas o prefixo "in-" em "intolerância" indica negação, e a frase diz que a autora é "intolerante" com essa negação — ou seja, ela nega a negação, o que gera o efeito paradoxal. As demais alternativas não apresentam essa oposição interna: são afirmações fortes, mas sem a contradição lógica que define o paradoxo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece alternativas que são afirmações categóricas ou expressões fortes, mas que não contêm a contradição interna exigida pelo paradoxo. A única que une termos opostos é a letra A. Cuidado para não confundir paradoxo com hipérbole (exagero) ou com simples ênfase.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Sou permanentemente intolerante com a intolerância."
Esta é a única passagem que apresenta um paradoxo. Os termos "intolerante" e "intolerância" são da mesma raiz, mas o prefixo "in-" em "intolerância" expressa negação. A frase diz que a autora é intolerante (que não tolera) com a intolerância (com aquilo que não tolera). Há uma contradição aparente: para combater a intolerância, ela se declara intolerante, unindo dois polos que, em tese, se excluem. É exatamente essa junção de ideias opostas que caracteriza o paradoxo, conforme a definição do enunciado: "duas ideias aparentemente contraditórias são utilizadas num mesmo contexto".
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Odeio todos, de todos os tipos"
Esta passagem expressa uma hipérbole (exagero intencional) e uma generalização, mas não há contradição interna. "Odiar todos" é uma afirmação enfática, não uma oposição de ideias. Não há dois termos que se excluam logicamente. O erro é de troca de conceito: confunde-se ênfase/exagero com paradoxo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Não sou indiferente a preconceitos, por exemplo."
Aqui há uma negação ("não sou indiferente"), mas não há contradição entre termos. A frase afirma que a autora se importa com preconceitos, o que é uma posição clara, sem oposição interna. O erro é de troca de conceito: a negação não gera paradoxo, pois não há dois termos opostos coexistindo; há apenas a negação de uma indiferença.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"denúncia em alto e bom som quando a ofensa é gravíssima."
Esta passagem descreve uma ação (denunciar em alto e bom som) em uma situação específica (ofensa gravíssima). Não há contradição aparente entre as ideias. "Alto e bom som" é uma expressão idiomática que reforça a publicidade da denúncia, mas não opõe termos. O erro é de fora do escopo: a passagem não contém a figura pedida.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Sou impaciente com a deselegância dos que pensam ser os donos do mundo"
Esta frase expressa uma crítica e uma impaciência, mas não há oposição interna entre termos. "Impaciente" e "deselegância" não são contraditórios; são, na verdade, coerentes (a impaciência é uma reação à deselegância). O erro é de troca de conceito: confunde-se uma reação negativa com um paradoxo. Conclusão: a banca pediu a passagem que se enquadra em um paradoxo, e a única que une termos aparentemente contraditórios é a letra A. As demais alternativas ou expressam exagero, ou negação simples, ou crítica, mas nenhuma apresenta a coexistência de ideias opostas que define a figura. Ao resolver questões de figuras de linguagem, sempre procure a contradição interna: se não houver dois termos que se excluem, não é paradoxo. Gabarito: letra A