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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa389726
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Estiva Gerbi
Ano
2026
Cargo
Tec Enf ( )

Vida de cão

 

Há alguns anos eu estava num bar de praia, afastado da cidade, e fui buscar algo no carro, que se encontrava num estacionamento próximo a uma mata. Quando ainda abria a porta do carro, ouvi um ruído proveniente das folhagens e notei que era um cachorro caminhando entre os arbustos. Não dei muita atenção. Parecia um desses cachorros sem dono, abandonados e magros, que frequentam os arredores de bares na esperança de conseguir um resto de comida. O típico vira-lata.

 

O cão pareceu perceber a minha presença, mudou de direção e rumou ao meu encontro. Fiquei alerta. Ele veio andando lentamente e quando chegou cerca de dois metros parou. Levantou a cabeça e me olhou fixamente. Pude então notar que ele estava cravado de dezenas de espinhos no focinho e em torno dos olhos. Uma cena que eu nunca havia visto. Os espinhos me deram um frio na espinha, mas o que mais me impressionou foi o olhar do animal. Estava desnorteado e ao mesmo tempo padecia de dor e desespero. Passei de alerta a comovido.

 

Ficamos ali, um diante do outro, paralisados como num duelo, nos olhando fixamente. Um duelo não de morte, mas de salvação. Eu queria ajudar, aliviar o sofrimento dele, mas não sabia como agir. Ele queria ajuda, aliviar-se do sofrimento, mas também não sabia como agir.

 

(...)

 

Mas não posso mentir para contar uma história com um final feliz. Nada disso ocorreu: o animal ferido reagiu ao meu primeiro passo com uma disparada mato adentro, em direção à sua provável morte. Fugiu do alívio e da salvação para ir ao encontro de mais dor, sofrimento e do fim de sua vida.

 

(...)

 

Aquele cachorro não tinha capacidade de compreender o seu real problema e enfrentá-lo com coragem e determinação. Muitas vezes, nós também não. Como aquele vira-lata, acontece de fugirmos instintivamente para o nosso mato interior, e ali, a salvo das soluções, ficarmos eternamente destilando as amarguras. Vida de cão...

 

SARMENTO, Antonio Carlos. Vida de cão. Revista Crônicas e agudas. Disponível em <https://cronicaseagudas.com/2020/10/10/vida-de-cao/>.

Leia o texto a seguir para responder à questão     Em relação ao narrador do texto “Vida de cão”, é correto afirmar que ele:
  1. Asomente apresenta um fato, sem fazer nenhuma reflexão sobre ele.
  2. Bapresenta um fato baseado na experiência de outra pessoa.
  3. Capresenta um fato baseado na sua própria vivência.
  4. Dsomente apresenta reflexões, sem tomar como base nenhum tipo de acontecimento.
  5. Eé o próprio cão que fugiu para o mato e que conta toda a história.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — apresenta um fato baseado na sua própria vivência.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Narrador em "Vida de cão" — Fato e Vivência Pessoal

Gabarito: letra C. O narrador apresenta um fato baseado na própria vivência, pois o texto é narrado em primeira pessoa e relata uma experiência pessoal: "Há alguns anos eu estava num bar de praia...". A alternativa C é a única que reconhece essa característica central do narrador-personagem, que conta um acontecimento que ele mesmo presenciou e do qual participou.

O Comando

A questão pede que se identifique uma característica do narrador do texto. Isso é uma tarefa de compreensão (informação explícita), não de inferência: basta observar quem conta a história e de que perspectiva ela é contada. O verbo "afirmar" no enunciado indica que a resposta deve estar diretamente sustentada no texto, sem deduções ou suposições.

O Texto

O texto "Vida de cão" é uma crônica narrativa em que o narrador conta um episódio que viveu: o encontro com um cachorro ferido em um estacionamento. A narração é feita em primeira pessoa — o narrador é também personagem da história. Isso fica evidente desde o início:

"Há alguns anos eu estava num bar de praia..."

E se confirma ao longo de todo o relato, com o narrador descrevendo suas próprias reações e sentimentos:

"Fiquei alerta... Passei de alerta a comovido... Eu queria ajudar, aliviar o sofrimento dele..."

Além de narrar o fato, o narrador também faz uma reflexão no final, comparando a fuga do cachorro com o comportamento humano:

"Muitas vezes, nós também não. Como aquele vira-lata, acontece de fugirmos instintivamente para o nosso mato interior..."

Portanto, o narrador apresenta um fato (o encontro com o cão) e faz reflexões sobre ele (a comparação com a fuga humana). A alternativa correta precisa reconhecer que o fato narrado é uma vivência pessoal do narrador.

A Técnica que Decide

A chave para resolver esta questão é identificar o ponto de vista narrativo. Quando o narrador usa a primeira pessoa ("eu") e relata eventos que ele mesmo vivenciou, temos um narrador-personagem. A alternativa correta deve refletir exatamente isso: o narrador conta um fato que ele mesmo viveu.

As alternativas erradas cometem erros clássicos:

  • A e D restringem o texto: dizem que ele "somente" faz uma coisa, quando na verdade ele faz as duas (narra e reflete).

  • B extrapola: afirma que o fato é de "outra pessoa", mas o texto é claramente em primeira pessoa.

  • E contradiz o texto: o narrador é uma pessoa, não o cão.

1Conta em 1ª pessoa
"eu estava num bar"
"fiquei alerta"
"eu queria ajudar"
2Narra fato vivido
Encontro com o cão
3Faz reflexão
Compara fuga do cão à humana
Narrador-personagem
LEVELsoulevel.com.br
Narrador-personagem: Conta em 1ª pessoa ("eu estava num bar", "fiquei alerta", "eu queria ajudar"); Narra fato vivido (Encontro com o cão); Faz reflexão (Compara fuga do cão à humana)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"somente apresenta um fato, sem fazer nenhuma reflexão sobre ele."

Erro: restringe o alcance do texto. O narrador não se limita a apresentar o fato; ele também faz reflexões. No último parágrafo, ele compara a fuga do cachorro com o comportamento humano:

"Muitas vezes, nós também não. Como aquele vira-lata, acontece de fugirmos instintivamente para o nosso mato interior..."

A palavra "somente" é o termo que torna a alternativa errada: ela exclui a reflexão que está claramente presente no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"apresenta um fato baseado na experiência de outra pessoa."

Erro: contradiz o texto. O narrador conta uma experiência sua, não de outra pessoa. O uso da primeira pessoa é inequívoco:

"Há alguns anos eu estava num bar de praia..."

"Fiquei alerta... Passei de alerta a comovido."

O narrador é o protagonista da história, não um mero observador de um fato alheio.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"apresenta um fato baseado na sua própria vivência."

Correta. O narrador conta um episódio que ele mesmo viveu, em primeira pessoa. A passagem que comprova isso é o início do texto:

"Há alguns anos eu estava num bar de praia..."

E também a descrição de suas reações:

"Fiquei alerta... Passei de alerta a comovido... Eu queria ajudar, aliviar o sofrimento dele..."

O narrador é personagem da história: ele presencia o fato, sente as emoções e tenta agir. A alternativa C é a única que reconhece essa característica fundamental.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"somente apresenta reflexões, sem tomar como base nenhum tipo de acontecimento."

Erro: restringe e contradiz o texto. O narrador não apresenta apenas reflexões; ele narra um acontecimento concreto — o encontro com o cachorro. A palavra "somente" exclui a narração do fato, que é a base de todo o texto. Além disso, as reflexões do final tomam como base exatamente o acontecimento narrado:

"Como aquele vira-lata, acontece de fugirmos instintivamente para o nosso mato interior..."

A reflexão é uma consequência do fato, não algo independente dele.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"é o próprio cão que fugiu para o mato e que conta toda a história."

Erro: contradiz o texto. O narrador é uma pessoa, não o cão. O texto é narrado em primeira pessoa por alguém que estava no bar de praia e encontrou o animal. O cão é o objeto da narrativa, não o sujeito que a conta. Não há nenhuma passagem que sugira que o cachorro seja o narrador.

Conclusão

A questão testa a capacidade de identificar o ponto de vista narrativo. O narrador de "Vida de cão" é um narrador-personagem: conta um fato que ele mesmo vivenciou, em primeira pessoa, e sobre o qual também reflete. A alternativa C é a única que captura essa dupla característica — o fato é baseado na própria vivência do narrador.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o narrador, pergunte: "Quem conta a história?" e "Ele participa dos eventos?". Se a resposta for "eu" e "sim", temos um narrador-personagem. Desconfie de alternativas com "somente" ou "apenas" — elas costumam restringir indevidamente o conteúdo do texto.

Gabarito: letra C

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