Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa389955
Banca
Avança SP
Órgão
CM Francisco Morato
Ano
2026
Cargo
Of Adm ( )
Um velho adolescente
Descobri recentemente, mais precisamente no sábado passado, que sou um velho adolescente. Isso porque me peguei grudado a tarde toda num livro da Thalita Rebouças. A visão da escritora me fez voar, imaginar situações, me perder em dilemas, num passeio raso d’água nos olhos, encarar alguns medos eternos, até sentir novamente as transformações.
Thalita escreve para mulheres de um modo tão próximo e profundo, que conseguiu, por momentos, me transformar num velho adolescente menina. Foi um despertar, pouco antes, na minha retina cansada, de que guardava a adolescência como se fosse a estátua de Antínoo, dura, fria, calada, mas eternamente jovem.
No livro, logo me identifiquei com a personagem, uma garota sem dotes de beleza, um tanto desleixada, dona dos cabelos ruins e peso acima do ideal. Outras semelhanças apareceram durante a narrativa: a menina ouve música para sentir vontade de chorar. Fiz isso recentemente, sem motivos aparentes, lágrima libertária, não de agonia, envolta numa música antiga (...), de um cantor que eu desprezava quando adolescente, o Biafra, naquela parte em que ele afirma existir um licor a mais no bombom. Homem não chora! Uma ova, chora sim, mesmo na maturidade. (...)
Quase adulto, imaginava a maturidade tal e qual a quinta sinfonia de Beethoven, a reta final, da qual queria distância. No entanto, cá estou. Acho que Biafra me fez chorar por causa disso, o licor ainda vivo, perdido em meio ao bombom. Imagino Beethoven, mas escuto Biafra. “O que sai de mim vem do prazer, de querer sentir o que eu não posso ter...”, o que ele quis dizer com isso?
As folhas da árvore da minha adolescência ainda tremem, esparramam o orvalho no soprar do vento, restos daquela mesma chuva que me arrancou o sono, restando em mim o pensamento incerto: será que existe por aí outro adolescente velho quieto e atento, tal e qual a estátua de Antínoo, ouvindo, entrelaçado por pequenos tremores, a sinfonia de Beethoven? Fechei a última página, já sentindo saudades da menina do livro e à procura do resto de licor perdido dentro do bombom.
ALVEZ, André Luiz. Um velho adolescente. Correio do Estado. Disponível em <https://correiodoestado.com.br/cidades/artigos-e-opiniao/leia-a-cronica-de-andre-luiz-alvez-br-um-velho-adolescente/326927/>.
Leia o texto a seguir para responder à questão O autor-narrador do texto “Um velho adolescente” pode ser caracterizado como alguém:
Afrio e insensível.
Bobjetivo e científico.
Cinsensato e incoerente.
Dsentimentalista e reflexivo.
Eextremamente racionalista.
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GabaritoD — sentimentalista e reflexivo.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Caracterização do Autor-Narrador em "Um Velho Adolescente"
Gabarito: letra D. O autor-narrador é caracterizado como sentimentalista e reflexivo, pois o texto inteiro é um exercício de introspecção emocional: ele se emociona com a leitura, chora ao ouvir uma música antiga e, ao final, se pergunta se existem outros "adolescentes velhos" como ele. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que ele confessa: "Fiz isso recentemente, sem motivos aparentes, lágrima libertária, não de agonia, envolta numa música antiga (...)", seguido da reflexão "será que existe por aí outro adolescente velho quieto e atento, tal e qual a estátua de Antínoo, ouvindo, entrelaçado por pequenos tremores, a sinfonia de Beethoven?".
O comando pede uma caracterização do narrador, ou seja, uma síntese do perfil psicológico que emerge do texto. Isso não é uma questão de localizar uma informação explícita (compreensão), mas de inferir um traço de personalidade a partir de pistas espalhadas pelo texto. A banca não pergunta "o que o narrador fez", mas "como ele pode ser caracterizado" — e a resposta exige que você perceba o tom geral da crônica: um homem adulto que se deixa levar pelas emoções e que, em vez de agir, pensa sobre o que sente.
O texto é uma crônica narrativa em primeira pessoa, na qual o narrador relata a experiência de se redescobrir adolescente ao ler um livro de Thalita Rebouças. O movimento argumentativo central é a descoberta de uma identidade paradoxal — "velho adolescente" — que o leva a revisitar memórias e sentimentos. As pistas dessa caracterização estão em verbos e expressões de emoção ("me peguei grudado", "me fez voar", "sentir novamente as transformações", "lágrima libertária", "já sentindo saudades") e em perguntas retóricas que revelam introspecção ("o que ele quis dizer com isso?", "será que existe por aí outro adolescente velho...?").
A técnica que decide a questão é testar cada alternativa contra o texto, perguntando: o narrador demonstra essa característica em algum momento? As alternativas A, B, C e E descrevem perfis que o texto contradiz ou que extrapolam o que está escrito. A única que se sustenta integralmente é a D, porque o narrador é, do início ao fim, movido por emoções (sentimentalista) e por perguntas sobre si mesmo (reflexivo).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a contradição entre o título ("velho adolescente") e as características das alternativas. As opções A, B e E tentam seduzir com adjetivos que parecem se opor ao "adolescente" (frio, científico, racionalista), mas que não têm apoio no texto. A pegadinha está em aceitar um estereótipo de "adulto" sem verificar o que o narrador realmente faz.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O narrador é tudo, menos frio e insensível. Ele se emociona com a leitura ("me fez voar, imaginar situações"), chora ao ouvir uma música ("lágrima libertária") e sente saudades ao fechar o livro ("já sentindo saudades da menina do livro"). A frieza é atribuída apenas à estátua de Antínoo, usada como metáfora da adolescência guardada — não ao narrador. A alternativa inverte o sentido do texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto / foge ao escopo. O texto é uma crônica subjetiva, repleta de impressões pessoais e metáforas ("passeio raso d'água nos olhos", "estátua de Antínoo"). Não há nenhum dado objetivo, estatística ou linguagem científica. A objetividade e a cientificidade são características de textos expositivos, não de uma crônica sentimental. A alternativa tangencia o texto ao descrever um perfil que não corresponde ao gênero nem ao conteúdo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto / opinião embutida. O narrador é coerente em sua contradição aparente: ele se descobre "velho adolescente" e explora essa dualidade de forma lógica e emocional. Não há insensatez (falta de juízo) nem incoerência (falta de lógica interna). A alternativa acrescenta um juízo de valor negativo que o autor não externa — ele não se julga insensato, apenas se surpreende com a própria emoção.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Sentimentalista porque o narrador é movido por emoções: "me peguei grudado a tarde toda num livro", "me fez voar, imaginar situações", "lágrima libertária, não de agonia". Reflexivo porque ele não apenas sente, mas pensa sobre o que sente, fazendo perguntas retóricas: "o que ele quis dizer com isso?" e "será que existe por aí outro adolescente velho quieto e atento...?". A combinação dos dois traços é exatamente o que define o "velho adolescente": alguém que sente como jovem, mas reflete como adulto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O racionalismo extremo é o oposto do que o narrador demonstra. Ele se entrega à emoção sem controle ("me peguei grudado", "lágrima libertária") e valoriza a imaginação ("me fez voar, imaginar situações"). A razão, no texto, aparece apenas como reflexão posterior sobre a emoção — não como um traço dominante. A alternativa inverte o eixo central da crônica.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de caracterização, grife os verbos e adjetivos que descrevem o narrador. Aqui, os verbos de emoção ("voar", "imaginar", "chorar", "sentir") e as perguntas retóricas são as pistas que separam o "sentimentalista e reflexivo" das demais opções.
Gabarito: letra D. A regra de ouro: a caracterização correta é a que sintetiza o comportamento do narrador ao longo de todo o texto, sem acrescentar traços que ele não demonstra e sem negar os que ele evidencia.