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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — Instituto Consulplan 2026

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
qa393391
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Manaus
Ano
2026
Cargo
GM ( )

Calma, gente

 

Alguma coisa não vai bem entre mim e o tempo. Não o tempo de que tratam os filósofos, mas esse tempinho nosso de todo dia, medido em correrias, impaciências, tique-taques, calendários, reencontros (“Há quanto tempo!”), semáforos, luas cheias, aniversários, Natais e – ai – rugas. O tempo sobre o qual se conversa e no qual transitamos, transitórios.

 

Acontece que as pessoas têm pressa, e a pressa delas interfere no ritmo de outras. Na maioria das vezes, é uma agitação inútil e inexplicável. Tem gente que se assusta quando alguém propõe irem caminhando até um determinado lugar, perto: “A pé?!”. Não é pelo esforço, pois até atletas de academia reagem com espanto. Essas pessoas não suportam é “perder” tempo percorrendo uma distância que, de carro, levaria quatro minutos.

 

Em parte, foi essa pretensão de poder comprimir o tempo que derrotou o cavalo como transporte urbano, depois o bonde, o ônibus e promoveu o automóvel, maravilha que transformamos em problema. Ao volante, o raciocínio é: eu tenho o comando, eu decido a velocidade, eu me torno senhor do tempo no espaço.

 

Ilusão.

 

Quem pôde teve a mesma ideia e engarrafou as cidades.

 

O tempo já foi elástico, esticava-se segundo a vontade de quem dispunha dele. Dê tempo ao tempo, diziam umas pessoas para as outras, ralentando-se. Calma, que o Brasil ainda é nosso! – bradava-se, como quem diz: enquanto o país for nosso, vamos devagar. Fazíamos do tempo coisa nossa, como o samba, o futebol e outras bossas.

 

Leiam os romances antigos. Nenhum personagem diz para o outro: “Você tem um minuto?”. Havia muito mais do que um minuto para uma conversa. Vejam um filme clássico. Com que paciência era construída uma situação que iria depois desaguar em outra. John Ford, por exemplo, tinha tempo para contar uma boa história e sabia que também o tínhamos para apreciá-la. Hoje, no cinema pós-Spielberg, muitas vezes nem percebemos o que aconteceu, tal a rapidez da montagem.

 

A vida on-line traz, em segundos, o mundo. As imagens de um bombardeio da grande potência contra o Iraque depauperado chegaram à casa das pessoas no momento em que estava acontecendo. Chamam a isso “tempo real”. Como se fosse irreal o tempo dos cinejornais da II Guerra Mundial, que mostravam com meses de atraso centenas de milhares de soldados mortos. O tempo real trouxe também a globalização dos dinheiros aventureiros, que em segundos dão a volta ao mundo rapando economias, confrontando desiguais, espalhando o desemprego.

 

O que se faz com o tempo ganho com a pressa? Lembra-me o poeminha do pernambucano Ascenso Ferreira ironizando o gaúcho, que, diz ele, “riscando os cavalos” e tinindo as esporas sai de seus pagos em louca arrancada: “– Para quê? – Para nada”. Talvez para nada os apressados buzinam no trânsito, costuram, furam sinais; a pé, atropelam passantes nas ruas, empurram pessoas nas plataformas do metrô, impacientam-se com idosos, agridem garçons, trombam carrinhos de compras nos supermercados, reclamam do ritmo alheio. Entre a pressa e a falta de educação, a distância é curta.

 

É sábio um ditado russo que li citado pelo escritor Saul Bellow: “Quando estiver com pressa, vá devagar”. Mais ou menos é o que o historiador romano Suetônio, biógrafo dos césares, aconselhou ao imperador Adriano, 1.900 anos atrás: “Apressa-te devagar”. Sem nunca ter lido Suetônio, era quase o que minha mãe dizia quando eu moleque disparava pelas ruas do bairro:

 

“Corre devagar, menino!”.

 

Suspeito que vem daí o meu descompasso com os apressados.

 

(ÂNGELO, Ivan. Revista Veja São Paulo. São Paulo: Editora Abril. Em: 10/09/2003.) 

O 4º parágrafo é composto por um único vocábulo – “Ilusão”.

 

É correto afirmar que a escolha de tal composição denota:

  1. ARuptura existente entre a introdução e o desenvolvimento do texto.
  2. BObjetivo do autor em demonstrar características textuais próprias da crônica.
  3. CDivisão organizacional do texto, que reflete o formato poético utilizado pelo autor em todo o texto.
  4. DÊnfase e relevância do efeito de sentido produzido pelo vocábulo, considerando-se o contexto estabelecido.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Ênfase e relevância do efeito de sentido produzido pelo vocábulo, considerando-se o contexto estabelecido.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O efeito de sentido do parágrafo "Ilusão"

Gabarito: letra D. O parágrafo composto apenas pelo vocábulo "Ilusão" produz ênfase e relevância do efeito de sentido, pois, isolado, o termo ganha destaque máximo e sintetiza a crítica do autor à pretensão de controlar o tempo, como se lê no contexto: "Ao volante, o raciocínio é: eu tenho o comando, eu decido a velocidade, eu me torno senhor do tempo no espaço." A quebra abrupta, seguida de "Ilusão.", reforça a ideia de que essa pretensão é vã.

O comando da questão

O enunciado pede que se analise o efeito de sentido da composição do 4º parágrafo, formado por um único vocábulo. Não se trata de uma questão de gramática normativa, mas de interpretação dos recursos expressivos do texto: por que o autor escolheu isolar a palavra "Ilusão"? A resposta exige perceber que o isolamento intensifica o valor semântico do termo, tornando-o o ponto de virada do texto.

O texto e o movimento argumentativo

O autor critica a pressa moderna e a ilusão de que o automóvel daria ao homem o controle do tempo. No 3º parágrafo, ele descreve essa pretensão: "Ao volante, o raciocínio é: eu tenho o comando, eu decido a velocidade, eu me torno senhor do tempo no espaço." Em seguida, o parágrafo isolado "Ilusão." contesta essa ideia de forma contundente. A palavra, sozinha, funciona como uma sentença conclusiva que desmonta o argumento anterior. O efeito é de ênfase máxima: o leitor é obrigado a parar e refletir sobre o que foi dito, e a palavra ganha um peso que não teria se estivesse diluída em um período maior.

A técnica: efeito de sentido × estrutura

A questão cobra a função expressiva de um recurso de composição. Quando um autor isola um vocábulo em parágrafo próprio, ele está usando um recurso de ênfase — o isolamento gráfico confere destaque, pausa e relevância ao termo. Isso é diferente de:

  • Ruptura estrutural: não há quebra de coesão, pois o parágrafo se liga logicamente ao anterior (contesta a ideia de controle).

  • Característica de gênero: a crônica pode usar recursos expressivos, mas o isolamento não é uma característica definidora do gênero.

  • Formato poético: o texto é em prosa, não em verso; o parágrafo isolado não indica poesia.

A banca adora confundir efeito de sentido com estrutura textual. Aqui, a alternativa correta é a que reconhece o propósito expressivo do autor.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O parágrafo "Ilusão" não rompe a ligação entre introdução e desenvolvimento; pelo contrário, ele retoma e contesta a ideia do parágrafo anterior. O texto segue coeso: a ilusão é a de "senhor do tempo", e o parágrafo seguinte confirma: "Quem pôde teve a mesma ideia e engarrafou as cidades." Não há ruptura, há continuidade argumentativa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: tangencia o tema. A alternativa fala de "características textuais próprias da crônica", mas o enunciado pergunta sobre o efeito de sentido do vocábulo isolado. O autor não está demonstrando características do gênero; ele está usando um recurso expressivo para enfatizar sua crítica. A crônica, de fato, permite esse tipo de recurso, mas a questão não é sobre o gênero, e sim sobre o efeito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz. A alternativa afirma que o parágrafo reflete um "formato poético utilizado pelo autor em todo o texto". O texto é em prosa, não em verso; o isolamento de "Ilusão" é um recurso pontual, não uma estrutura poética recorrente. Não há evidência de que o autor use formato poético em todo o texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. O parágrafo isolado "Ilusão" produz ênfase e relevância ao efeito de sentido. O vocábulo, sozinho, ganha destaque máximo e sintetiza a crítica do autor à pretensão de controlar o tempo. Como se lê no 3º parágrafo: "Ao volante, o raciocínio é: eu tenho o comando, eu decido a velocidade, eu me torno senhor do tempo no espaço." A palavra "Ilusão" contesta essa pretensão de forma contundente, e o isolamento gráfico reforça o impacto. O contexto é essencial para entender o sentido: sem ele, "Ilusão" seria apenas um substantivo; com ele, torna-se uma sentença avaliativa que desmonta o argumento anterior.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre efeito de sentido (ênfase) e estrutura textual (divisão, gênero). As alternativas A, B e C descrevem aspectos formais, mas a questão pede o efeito semântico do isolamento.

NÃO CAIA NESSA!

Ao ver um parágrafo com uma única palavra, pergunte: "qual o efeito?" — ênfase, pausa, destaque. Não confunda com estrutura ou gênero.

Conclusão: a escolha do autor em isolar "Ilusão" é um recurso expressivo que enfatiza a ideia de que a pretensão de controlar o tempo é vã. A alternativa D é a única que reconhece esse efeito de sentido, ancorado no contexto.

Gabarito: letra D

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