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Questão de Português — Vocábulo "Que" — Instituto Consulplan 2026

PortuguêsVocábulo "Que"
Código
qa393435
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Manaus
Ano
2026
Cargo
GM ( )

Calma, gente

 

Alguma coisa não vai bem entre mim e o tempo. Não o tempo de que tratam os filósofos, mas esse tempinho nosso de todo dia, medido em correrias, impaciências, tique-taques, calendários, reencontros (“Há quanto tempo!”), semáforos, luas cheias, aniversários, Natais e – ai – rugas. O tempo sobre o qual se conversa e no qual transitamos, transitórios.

 

Acontece que as pessoas têm pressa, e a pressa delas interfere no ritmo de outras. Na maioria das vezes, é uma agitação inútil e inexplicável. Tem gente que se assusta quando alguém propõe irem caminhando até um determinado lugar, perto: “A pé?!”. Não é pelo esforço, pois até atletas de academia reagem com espanto. Essas pessoas não suportam é “perder” tempo percorrendo uma distância que, de carro, levaria quatro minutos.

 

Em parte, foi essa pretensão de poder comprimir o tempo que derrotou o cavalo como transporte urbano, depois o bonde, o ônibus e promoveu o automóvel, maravilha que transformamos em problema. Ao volante, o raciocínio é: eu tenho o comando, eu decido a velocidade, eu me torno senhor do tempo no espaço.

 

Ilusão.

 

Quem pôde teve a mesma ideia e engarrafou as cidades.

 

O tempo já foi elástico, esticava-se segundo a vontade de quem dispunha dele. Dê tempo ao tempo, diziam umas pessoas para as outras, ralentando-se. Calma, que o Brasil ainda é nosso! – bradava-se, como quem diz: enquanto o país for nosso, vamos devagar. Fazíamos do tempo coisa nossa, como o samba, o futebol e outras bossas.

 

Leiam os romances antigos. Nenhum personagem diz para o outro: “Você tem um minuto?”. Havia muito mais do que um minuto para uma conversa. Vejam um filme clássico. Com que paciência era construída uma situação que iria depois desaguar em outra. John Ford, por exemplo, tinha tempo para contar uma boa história e sabia que também o tínhamos para apreciá-la. Hoje, no cinema pós-Spielberg, muitas vezes nem percebemos o que aconteceu, tal a rapidez da montagem.

 

A vida on-line traz, em segundos, o mundo. As imagens de um bombardeio da grande potência contra o Iraque depauperado chegaram à casa das pessoas no momento em que estava acontecendo. Chamam a isso “tempo real”. Como se fosse irreal o tempo dos cinejornais da II Guerra Mundial, que mostravam com meses de atraso centenas de milhares de soldados mortos. O tempo real trouxe também a globalização dos dinheiros aventureiros, que em segundos dão a volta ao mundo rapando economias, confrontando desiguais, espalhando o desemprego.

 

O que se faz com o tempo ganho com a pressa? Lembra-me o poeminha do pernambucano Ascenso Ferreira ironizando o gaúcho, que, diz ele, “riscando os cavalos” e tinindo as esporas sai de seus pagos em louca arrancada: “– Para quê? – Para nada”. Talvez para nada os apressados buzinam no trânsito, costuram, furam sinais; a pé, atropelam passantes nas ruas, empurram pessoas nas plataformas do metrô, impacientam-se com idosos, agridem garçons, trombam carrinhos de compras nos supermercados, reclamam do ritmo alheio. Entre a pressa e a falta de educação, a distância é curta.

 

É sábio um ditado russo que li citado pelo escritor Saul Bellow: “Quando estiver com pressa, vá devagar”. Mais ou menos é o que o historiador romano Suetônio, biógrafo dos césares, aconselhou ao imperador Adriano, 1.900 anos atrás: “Apressa-te devagar”. Sem nunca ter lido Suetônio, era quase o que minha mãe dizia quando eu moleque disparava pelas ruas do bairro:

 

“Corre devagar, menino!”.

 

Suspeito que vem daí o meu descompasso com os apressados.

 

(ÂNGELO, Ivan. Revista Veja São Paulo. São Paulo: Editora Abril. Em: 10/09/2003.) 

Em “O que se faz com o tempo ganho com a pressa? Lembra-me o poeminha do pernambucano Ascenso Ferreira ironizando o gaúcho, que, diz ele, ‘riscando os cavalos’ e tinindo as esporas sai de seus pagos em louca arrancada: ‘– Para quê? – Para nada’.”, o vocábulo destacado recebe acento conforme a mesma justificativa vista de acordo com o emprego correto de “por quê” em:

  1. ADiante de tudo, você prefere se abster, por quê?
  2. BOs caminhos por quê andei, são caminhos de dores.
  3. CPor quê não podemos reencaminhar o trabalho realizado?
  4. DPor quê cada vez que te vejo as memórias voltam com intensidade cruel.
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GabaritoA — Diante de tudo, você prefere se abster, por quê?

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Uso dos porquês: o acento do "quê" em final de frase

Gabarito: letra A. O vocábulo destacado no texto é "quê" em "Para quê?", que recebe acento por ser "quê" tônico em final de frase — a mesma justificativa do "por quê" da alternativa A, que também ocorre em final de período. A regra é clara: "por quê" (separado e com acento) é usado em final de frase ou antes de pausa, equivalendo a "por qual motivo".

O comando da questão

A questão pede que você identifique a alternativa em que o "por quê" é empregado com a mesma justificativa do "quê" destacado no trecho. Isso não é uma questão de interpretação de texto, mas de gramática normativa — especificamente, o emprego dos porquês. O comando "recebe acento conforme a mesma justificativa" indica que você deve comparar a função sintática e a posição do "quê" no texto com o das alternativas.

O texto e o trecho destacado

No trecho, o autor cita o poeminha de Ascenso Ferreira, em que o gaúcho pergunta: "– Para quê? – Para nada". O "quê" está em final de frase, após a preposição "para", e é tônico — por isso recebe acento circunflexo. A mesma lógica se aplica ao "por quê": quando o "que" fica sozinho, em final de frase ou antes de pausa, é acentuado.

A regra dos porquês

A regra é simples e pode ser resumida assim:

Forma

Uso

Exemplo

Por que (separado, sem acento)

Em perguntas diretas ou indiretas, equivalendo a "por qual motivo"

"Por que você saiu?"

Porque (junto, sem acento)

Conjunção causal ou explicativa

"Saí porque estava cansado."

Por quê (separado, com acento)

Em final de frase ou antes de pausa

"Você saiu, por quê?"

Porquê (junto, com acento)

Substantivo, sinônimo de motivo

"Quero saber o porquê."

Análise das alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Diante de tudo, você prefere se abster, por quê?"

Aqui, "por quê" está em final de frase, antes do ponto de interrogação. O "quê" é tônico e recebe acento pela mesma razão do "quê" do texto: posição final, com pausa. A regra é exatamente a mesma: "por quê" separado e acentuado quando ocorre em final de período ou antes de pausa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Os caminhos por quê andei, são caminhos de dores."

Aqui, "por quê" está no meio da frase, sem pausa, e funciona como preposição "por" + pronome relativo "que", equivalendo a "pelos quais". Nesse caso, a forma correta é "por que" (separado, sem acento). A alternativa erra ao acentuar o "quê" indevidamente, pois não está em final de frase.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Por quê não podemos reencaminhar o trabalho realizado?"

Aqui, "por quê" está no início da frase, em pergunta direta. A forma correta é "por que" (separado, sem acento), pois equivale a "por qual motivo". O acento só seria usado se estivesse em final de frase, o que não ocorre. A alternativa erra ao acentuar o "quê" no início da interrogação.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Por quê cada vez que te vejo as memórias voltam com intensidade cruel."

Aqui, "por quê" também está no início da frase, em pergunta indireta (sem ponto de interrogação). A forma correta é "por que" (separado, sem acento), pois equivale a "por qual motivo". A alternativa erra ao acentuar o "quê" indevidamente, pois não está em final de frase.

Conclusão

A alternativa A é a única que apresenta "por quê" em final de frase, com a mesma justificativa do "quê" destacado no texto. As demais usam "por quê" em posição inicial ou medial, onde a forma correta é "por que" (sem acento).

PEGA ESSA DICA!

Para acertar questões de "porquês", identifique a posição do termo na frase: se estiver em final de período ou antes de pausa, use "por quê" com acento; caso contrário, use "por que" (interrogativo) ou "porque" (conjunção).

Gabarito: letra A

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