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Questão de Português — Geral — INSTITUTO AOCP 2026

PortuguêsGeral
Código
qa395554
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
MPE GO
Ano
2026
Cargo
Estag ( )

O amigo pessoal e o seu contrário, o amigo coletivo

 

Categoria difere do colega ou do conhecido, que curiosamente é como chamamos quem não conhecemos muito bem

 

Gregório Duvivier

 

Você já deve ter ouvido a expressão, em geral na negativa. “Conheço o fulano, mas não é meu amigo pessoal.” Gosto dessa categoria tão brasileira. Não consigo imaginar a expressão em outras línguas. A busca por “personal friend” no Google revela um serviço de aluguel de amigos. Curiosamente “amigo pessoal” em inglês é amigo profissional.

 

No Brasil, a categoria confunde porque pressupõe que existam outros tipos de amigo. Parece que dá para contrair amizade sem passar pela pessoa física. “O fulano é meu amigo espiritual. Beltrano? Meu amigo jurídico.”

 

O conceito, no entanto, faz sentido. Nem todo amigo tem uma relação individual com você. Alguns amigos da vida toda nunca ficaram no mano a mano. Todo o mundo tem amigos pessoais e tem amigos coletivos. O fenômeno acontece quando relação não é direta, intransferível, mas mediada por uma turma.

 

Atenção: o amigo coletivo difere do colega ou do “conhecido”, que curiosamente é como chamamos aquele que não conhecemos muito bem. Difere mais ainda do semiconhecido, aquele que conhecemos menos ainda. Existe uma hierarquia: o semiconhecido está abaixo do conhecido, que vem logo abaixo do colega, que vem antes do amigo coletivo, que precede o amigo pessoal.

 

Do conhecido você sabe o nome, do amigo coletivo você sabe o signo, do amigo pessoal você conhece o funcionamento do intestino. Você sabe o bairro onde o conhecido mora, do amigo coletivo você sabe a rua — do amigo pessoal você sabe o prédio, o apartamento e a senha do wifi — quando não sabe, adivinha.

 

Puristas da amizade dirão que amigos não pessoais não podem ser chamados de amigos. Discordo. O amigo grupal tem, sim, seu valor. Diverte, preenche, entretém. E o mais importante: é dele que pode nascer, um belo dia, quando menos se espera, o amigo pessoal.

 

Basta chover um pouco mais. E vocês ficarem ilhados no escritório. Ou basta um porre, uma viagem, um acidente, um pneu furado. O que separa um amigo coletivo de um amigo pessoal, muitas vezes, é um perrengue. Mas pode ser uma carona — de preferência daquelas demoradas, na hora do rush. Se cair um temporal, melhor ainda. Entre um silêncio e outro, você vai abrir uma chaga, e ele vai compartilhar uma memória, você vai rebater com uma esperança, ele vai contar um segredo. Pronto. Ali, na avenida Brasil alagada, sob o abrigo de um palio weekend, o amigo pessoal acaba de nascer.

 

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2022/04/o-amigo-pessoal-e-o-seu-contrario-o-amigo-coletivo.shtml. Acesso em: 17 jun. 2026.

Assinale a alternativa que analisa corretamente o termo destacado.
  1. AEm “Você sabe o bairro onde o conhecido mora, do amigo coletivo você sabe a rua [...]”, o termo destacado é um advérbio que indica um lugar.
  2. BEm “Parece que dá para contrair amizade sem passar pela pessoa física.”, o termo destacado é um verbo que assume uma função modalizadora no enunciado.
  3. CEm “Discordo. O amigo grupal tem, sim, seu valor. Diverte, preenche, entretém.”, o termo destacado é um substantivo que indica uma afirmação.
  4. DEm “Curiosamente ‘amigo pessoal’ em inglês é amigo profissional.”, o termo destacado é um advérbio de modo que modifica a expressão “amigo pessoal”.
  5. EEm “Atenção: o amigo coletivo difere do colega ou do ‘conhecido’ [...]”, o termo destacado é um verbo no imperativo direcionado ao leitor do texto.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Em “Parece que dá para contrair amizade sem passar pela pessoa física.”, o termo destacado é um verbo que assume uma função modalizadora no enunciado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise morfossintática e semântica do termo destacado

Gabarito: letra B. A alternativa correta é a única que analisa com precisão o termo destacado: em "Parece que dá para contrair amizade sem passar pela pessoa física.", o verbo "Parece" assume função modalizadora, pois expressa uma avaliação do enunciador sobre a possibilidade de contrair amizade sem contato pessoal, e não um fato categórico. As demais alternativas ou classificam erroneamente a classe gramatical, ou atribuem função semântica que o termo não exerce no contexto, ou ainda confundem o referente do termo destacado.

O comando da questão

O enunciado pede que se analise corretamente o termo destacado — ou seja, exige que se identifique a classe gramatical e a função semântica que o termo exerce naquele contexto específico. Não se trata de interpretação global do texto, mas de análise morfossintática e semântica pontual. A banca testa se o candidato consegue distinguir a classe da palavra (verbo, advérbio, substantivo) e, principalmente, se percebe o efeito de sentido que ela produz no enunciado.

O texto e o movimento argumentativo

O cronista Gregório Duvivier discute a categoria brasileira "amigo pessoal", contrapondo-a ao "amigo coletivo". O texto é dissertativo-argumentativo, com tom coloquial e irônico. No trecho da alternativa B, o autor questiona a noção de que "dá para contrair amizade sem passar pela pessoa física" — ou seja, problematiza a ideia de que existam amizades não pessoais. O verbo "Parece" introduz essa reflexão de forma hedônica, marcando que se trata de uma impressão, uma aparência, não de uma certeza.

A técnica que decide: modalização

Modalização é o recurso linguístico pelo qual o enunciador marca sua atitude em relação ao que diz — expressando certeza, dúvida, possibilidade, obrigação, etc. Verbos como "parecer", "poder", "dever", "achar" são típicos modalizadores. No trecho, "Parece" indica que o que se segue é uma hipótese, uma aparência, e não um fato comprovado. Isso é decisivo: a alternativa B não apenas classifica "Parece" como verbo (correto), mas também capta sua função modalizadora — exatamente o que a banca pede.

"Parece que dá para contrair amizade sem passar pela pessoa física."

O verbo "Parecer" aqui é impessoal (não tem sujeito claro) e funciona como operador argumentativo de modalização, suavizando a afirmação e marcando a posição do autor. É diferente de "Parece" com sentido de "assemelhar-se" (ex.: "ele parece cansado"), onde há sujeito e valor predicativo.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Você sabe o bairro onde o conhecido mora, do amigo coletivo você sabe a rua [...]"

O termo destacado "onde" é um pronome relativo (equivale a "em que"), que retoma "bairro" e introduz a oração adjetiva "onde o conhecido mora". Não é advérbio de lugar. A banca tenta confundir: "onde" pode ser advérbio interrogativo ou relativo, mas aqui é pronome relativo com valor adverbial de lugar. A alternativa erra ao classificá-lo simplesmente como advérbio, ignorando sua função sintática de conector oracional.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Parece que dá para contrair amizade sem passar pela pessoa física."

"Parece" é verbo (3ª pessoa do singular do presente do indicativo) e exerce função modalizadora: expressa a avaliação do enunciador sobre a possibilidade de contrair amizade sem contato pessoal. O autor não afirma categoricamente; ele sugere, especula. Essa é a marca da modalização — o falante se posiciona diante do conteúdo. A alternativa está inteiramente correta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Discordo. O amigo grupal tem, sim, seu valor. Diverte, preenche, entretém."

O termo destacado "sim" é um advérbio de afirmação (ou partícula de realce/ênfase), não um substantivo. Ele reforça a afirmação "tem seu valor", funcionando como elemento de ênfase. A alternativa erra ao classificá-lo como substantivo — confunde a classe gramatical. "Sim" pode ser substantivo em "o sim dela" (com artigo), mas aqui é advérbio.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Curiosamente 'amigo pessoal' em inglês é amigo profissional."

O termo destacado "Curiosamente" é, de fato, um advérbio de modo — mas não modifica a expressão "amigo pessoal". Ele modifica toda a oração "'amigo pessoal' em inglês é amigo profissional", expressando a atitude do enunciador (acha curioso). A alternativa erra ao restringir o escopo do advérbio a "amigo pessoal". O advérbio incide sobre o conteúdo proposicional inteiro, não sobre um sintagma isolado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Atenção: o amigo coletivo difere do colega ou do 'conhecido' [...]"

O termo destacado "Atenção" é uma interjeição (ou substantivo em função vocativa), não um verbo no imperativo. A forma verbal "Atenção" não existe como imperativo de "atender" — o imperativo seria "atende" ou "atenda". Aqui, "Atenção" funciona como chamamento, alerta ao leitor, típico de interjeição. A alternativa erra ao classificá-la como verbo no imperativo.

Tabela comparativa

Alternativa

Termo destacado

Classe real

Função no contexto

Veredito

A

onde

Pronome relativo

Conector oracional (retoma "bairro")

B

Parece

Verbo

Modalizador (avaliação do enunciador)

C

sim

Advérbio de afirmação

Ênfase

D

Curiosamente

Advérbio de modo

Modifica a oração inteira

E

Atenção

Interjeição

Chamamento ao leitor

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de classe gramatical e a restrição indevida de escopo. Em A, "onde" é pronome relativo, não advérbio; em D, o advérbio modifica a oração, não apenas "amigo pessoal"; em E, "Atenção" é interjeição, não verbo. A única que acerta classe e função é a B.

NÃO CAIA NESSA!

Ao analisar um termo destacado, pergunte-se: (1) qual a classe da palavra? (2) qual a função que ela exerce naquele contexto? (3) o que ela modifica ou a que se refere? A banca adora trocar a classe ou restringir o escopo de um advérbio.

Conclusão

A questão testa a capacidade de analisar morfossintaticamente um termo no contexto. A alternativa B é a única que acerta a classe (verbo) e a função (modalizadora). As demais erram ao classificar "onde" como advérbio, "sim" como substantivo, "Curiosamente" como modificador de "amigo pessoal" e "Atenção" como verbo no imperativo.

Gabarito: letra B.

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