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Questão de Português — Formação e Estrutura das Palavras — Avança SP 2023

PortuguêsFormação e Estrutura das Palavras
Código
qa493789
Banca
Avança SP
Órgão
Pref SM Arcanjo
Ano
2023
Cargo
ATI (SM Arcanjo)

Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.   

Clarice Lispector

Texto

   

As palavras excessivamente, arruivados, bordadíssima, imperdoavelmente e altinhas são formadas por processos derivacionais a partir de outras palavras. Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, as palavras primitivas das quais as palavras em destaque derivam:

  1. Aexcesso; ruivo; bordar; perdoar; alto.
  2. Bexcessivo; ruivo; bordado; perdoável; alto.
  3. Cexcesso; ruivado; bordado; perdoar; alto.
  4. Dexcesso; ruivo; bordar; perdoável; altura.
  5. Eexcessivo; ruivo; bordar; perdoar; altura.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — excesso; ruivo; bordar; perdoar; alto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Formação de Palavras: Identificando as Primitivas

Gabarito: letra A. As palavras destacadas excessivamente, arruivados, bordadíssima, imperdoavelmente e altinhas derivam, respectivamente, de excesso; ruivo; bordar; perdoar; alto. A questão pede a palavra primitiva — aquela que não resulta de outra na língua portuguesa e que serve de base para a derivação. A alternativa A é a única que apresenta, para cada derivada, a base correta, sem confundir com formas intermediárias (como excessivo, bordado, perdoável) ou com palavras de outra família (como altura).

O Comando: o que a banca pede

O enunciado é claro: identificar as palavras primitivas das quais as palavras em destaque derivam. Isso é uma questão de morfologia — mais especificamente, de processo de formação de palavras por derivação. Não se trata de interpretar o texto, mas de analisar a estrutura interna de cada vocábulo. A palavra primitiva é a base que, sozinha, tem sentido próprio e da qual outras se formam pelo acréscimo de afixos (prefixos e sufixos).

O Texto: onde estão as palavras

No texto de Clarice Lispector, encontramos as palavras destacadas:

  • excessivamente ("de cabelos excessivamente crespos")

  • arruivados ("meio arruivados")

  • bordadíssima ("com letra bordadíssima")

  • imperdoavelmente ("nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas")

  • altinhas ("esguias, altinhas")

Cada uma é formada por derivação sufixal (acréscimo de sufixo ao radical). A palavra primitiva é aquela que não sofreu derivação, servindo de base para a formação de outras. Vamos analisar cada uma:

  • excessivamente: formada por excessivo + -mente. A base é excesso (substantivo), que dá origem ao adjetivo excessivo e, deste, ao advérbio excessivamente. A palavra primitiva é excesso.

  • arruivados: formada por a- + ruivo + -ado + -s. A base é ruivo (adjetivo), que recebe o prefixo a- e o sufixo -ado para formar o adjetivo arruivado. A palavra primitiva é ruivo.

  • bordadíssima: formada por bordar + -díssima (sufixo superlativo). A base é o verbo bordar, que dá origem ao particípio bordado e, deste, ao superlativo bordadíssima. A palavra primitiva é bordar.

  • imperdoavelmente: formada por in- + perdoar + -vel + -mente. A base é o verbo perdoar, que dá origem ao adjetivo perdoável e, deste, ao advérbio imperdoavelmente. A palavra primitiva é perdoar.

  • altinhas: formada por alto + -inha + -s. A base é alto (adjetivo), que recebe o sufixo diminutivo -inha para formar altinha. A palavra primitiva é alto.

A Técnica: como identificar a primitiva

A palavra primitiva é aquela que não deriva de outra na língua portuguesa. Para identificá-la, é preciso retirar todos os afixos (prefixos e sufixos) e verificar se a base restante é uma palavra autônoma. No caso de excessivamente, por exemplo, retirando o sufixo -mente, obtemos excessivo, que ainda é derivada de excesso. A primitiva é excesso, pois não há palavra anterior que a origine.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a primitiva, retire todos os afixos e pergunte: "essa base deriva de outra palavra?" Se sim, continue retirando até chegar a uma palavra que não derive de nenhuma outra.

Análise das Alternativas

1excessivamente → excesso
2arruivados → ruivo
3bordadíssima → bordar
4imperdoavelmente → perdoar
5altinhas → alto
Palavras primitivas
LEVELsoulevel.com.br
Palavras primitivas: excessivamente → excesso; arruivados → ruivo; bordadíssima → bordar; imperdoavelmente → perdoar; altinhas → alto

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A apresenta excesso; ruivo; bordar; perdoar; alto, que são exatamente as palavras primitivas de cada derivada. Confirma-se a análise:

  • excessivamenteexcesso (substantivo primitivo)

  • arruivadosruivo (adjetivo primitivo)

  • bordadíssimabordar (verbo primitivo)

  • imperdoavelmenteperdoar (verbo primitivo)

  • altinhasalto (adjetivo primitivo)

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B apresenta excessivo; ruivo; bordado; perdoável; alto. O erro está em excessivo e bordado: são formas derivadas, não primitivas. Excessivo deriva de excesso; bordado é o particípio do verbo bordar. A banca troca a primitiva pela forma intermediária da derivação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C apresenta excesso; ruivado; bordado; perdoar; alto. O erro está em ruivado e bordado: ruivado é uma forma derivada de ruivo (com prefixo e sufixo), e bordado é particípio de bordar. A banca usa formas derivadas no lugar das primitivas.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D apresenta excesso; ruivo; bordar; perdoável; altura. O erro está em perdoável e altura: perdoável é adjetivo derivado de perdoar; altura é substantivo derivado de alto. A banca troca a primitiva por uma palavra da mesma família, mas derivada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E apresenta excessivo; ruivo; bordar; perdoar; altura. O erro está em excessivo e altura: excessivo é derivado de excesso; altura é derivado de alto. A banca usa formas derivadas no lugar das primitivas.

Conclusão

A questão exige identificar a palavra primitiva de cada derivada. A alternativa A é a única que apresenta todas as bases corretas, sem confundir com formas intermediárias ou derivadas. As demais alternativas cometem o erro de usar palavras derivadas no lugar das primitivas.

Gabarito: letra A

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