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Questão de Português — Adjetivo — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsAdjetivo
Código
qa494235
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
IF PA
Ano
2023
Cargo
Asst ( )

As cores do silêncio

 

Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma coisa silenciosa chamada pintura.

 

Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro, dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa invenção. E na arte também, sem dúvidas.

 

Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro de determinados princípios que descobre e de que se vale para impor sua inventividade poética sobre o acaso.

 

No fundo a criação artística é resultado da opção que o artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o que era mera probabilidade.

 

Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de obras de Van Gogh. Embora já as conhecesse de longa data, descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever suas telas, percebia por quê.

 

E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura impressionista, feita ao ar livre.

 

Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das coisasc. E, ao descobri‐las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que Monet mostra a catedral de Rouen em momentos diferentes do dia.b

 

A descoberta da realidade que muda a cada minuto gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam em Cézanne uma reação contrária:d ele queria que a nova pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele admirava nas obras dos museus.

 

Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.

 

Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre Van Gogh. A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de Borinage. Van Gogh que vai fascinar as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do impressionismo pontilhista.

 

Essa mudança da pintura de Van Gogh, que abandona as cores soturnas para entregar‐se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida, própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.

 

De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e angustiada de Van Gogh encontrou afinal o modo feliz de inventar‐se. Pintando, ele era saudável.

 

Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do pontilhismo, Van Gogh descobre seu próprio caminho, tornando- se criador de um universo pictórico que me fascina e fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.

 

A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos: são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor, de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num mundo gráfico‐pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas telas por ele pintadas.

 

Não sei se consigo expressá‐lo: o que está em suas telas não é a paisagem real. Como Cézanne, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é outra, é invenção humana.a

 

(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)

Dentre os trechos destacados a seguir, indique aquele em que o ponto de vista do autor é demonstrado de forma explícita.

  1. A“A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é outra, é invenção humana.”
  2. B“É exemplo disso a série de quadros em que Monet mostra a catedral de Rouen em momentos diferentes do dia.”
  3. C“Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das coisas.”
  4. D“A descoberta da realidade que muda a cada minuto gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam em Cézanne uma reação contrária: [...]”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — “A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é outra, é invenção humana.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Ponto de vista explícito: a opinião do autor no texto

Gabarito: letra A. O trecho “A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é outra, é invenção humana” é o único em que o autor emite um juízo de valor explícito — ele avalia a natureza como “bela” e as telas de Van Gogh como “invenção humana”, uma opinião pessoal sobre a arte. As demais alternativas apresentam fatos históricos ou descrições objetivas, sem qualquer avaliação do autor. A passagem que ancora essa leitura está no último parágrafo do texto:

“A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é outra, é invenção humana.”

Aqui, o autor não apenas descreve, mas opina: ele qualifica a natureza e a obra de Van Gogh, expressando seu ponto de vista sobre a relação entre realidade e arte.


O comando: o que a banca pede

O enunciado pede o trecho em que o ponto de vista do autor é demonstrado de forma explícita. Isso significa que a resposta deve conter uma opinião — um juízo de valor, uma avaliação subjetiva — e não uma simples constatação de fatos. A banca quer que você distinga fato (informação objetiva, verificável) de opinião (avaliação pessoal, marcada por adjetivos, verbos de opinião, etc.).

O texto: onde mora a resposta

O texto é uma crônica de Ferreira Gullar sobre a pintura de Van Gogh. O autor discorre sobre a criação artística, a diferença entre a pintura impressionista e a de Van Gogh, e termina com uma reflexão pessoal sobre a beleza das telas. O último parágrafo é o clímax dessa reflexão: o autor afirma que a natureza é bela, mas a beleza das telas de Van Gogh é outra, é invenção humana. Essa é uma opinião — uma avaliação subjetiva sobre o valor da arte.

A técnica: fato × opinião

  • Fato: informação objetiva, verificável, impessoal. Ex.: “Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar” — isso é uma constatação histórica.

  • Opinião: juízo de valor, avaliação pessoal, marcada por adjetivos qualificativos, verbos de opinião (achar, crer, considerar) ou expressões como “é bela”, “é invenção humana”. Ex.: “A natureza é bela” — isso é uma avaliação.

A pegadinha da banca é oferecer trechos que descrevem fatos (impressionismo, Monet, Cézanne) e um único trecho que opina. O candidato que não distingue fato de opinião pode marcar qualquer uma das outras.


Ponto de vista explícito
  • 1Opinião (juízo de valor)
    • Adjetivos qualificativos
    • Verbos de opinião
    • Ex.: "é bela", "é invenção humana"
  • 2Fato (descrição objetiva)
    • Constatação histórica
    • Explicação causal
    • Sem avaliação pessoal
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é outra, é invenção humana.”

Aqui o autor avalia: ele diz que a natureza é bela (juízo de valor) e que a beleza das telas é “outra”, “invenção humana” (opinião sobre a arte). Não é uma descrição objetiva; é uma reflexão pessoal sobre o valor da obra de Van Gogh. É o único trecho em que o ponto de vista do autor é explícito — ele não apenas informa, mas opina.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“É exemplo disso a série de quadros em que Monet mostra a catedral de Rouen em momentos diferentes do dia.”

Este trecho é uma constatação factual: o autor cita um exemplo histórico (a série de Monet) para ilustrar a descoberta do tempo pelos impressionistas. Não há juízo de valor — ele não diz se acha bom ou ruim, belo ou feio. É uma informação objetiva, não uma opinião.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das coisas.”

Aqui o autor descreve um fato histórico: a descoberta dos impressionistas. Não há avaliação — ele não diz se essa descoberta foi boa, importante, etc. É uma descrição objetiva, sem ponto de vista explícito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“A descoberta da realidade que muda a cada minuto gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam em Cézanne uma reação contrária: [...]”

Este trecho é uma explicação causal: o autor explica como a descoberta da realidade mutável gerou um estilo de pintura e uma reação em Cézanne. Não há juízo de valor — ele não opina sobre a qualidade ou beleza. É uma análise histórica, não uma opinião.


NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura fatos históricos (impressionismo, Monet, Cézanne) com a opinião do autor. A correta é a única com juízo de valor (adjetivos como “bela”, “outra”, “invenção humana”). As demais são descrições objetivas.

PEGA ESSA DICA!

Ao procurar “ponto de vista explícito”, procure por adjetivos qualificativos (bela, feia, boa, ruim) ou verbos de opinião (acho, creio, considero). Fatos não têm esses marcadores.


Conclusão: a única alternativa que expressa opinião é a letra A. As demais são fatos ou descrições. Portanto, Gabarito: letra A.

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