Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — Quadrix 2023
Português›Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
qa494514
Banca
Quadrix
Órgão
CAU PA
Ano
2023
Cargo
Arq Urb ( )
Em todas as épocas em que a linguagem clássica da arquitetura alcançou um alto grau de eloquência, seu uso se baseou em uma certa filosofia. Um arquiteto só conseguiria empregar as ordens com amor se as amasse de fato e, para tanto, deveria estar persuadido de que essas mesmas ordens corporificavam algum princípio absoluto de verdade ou beleza. A crença na autoridade essencial das ordens assumiu várias formas. A mais simples pode ser descrita nos seguintes termos: Roma fora a maior, Roma fora a mais sábia. A veneração pura e simples de Roma é a melhor pista para a compreensão de muitos aspectos de nossa civilização. Já não podemos compartilhar integralmente desta veneração, porque conhecemos Roma muito bem e nossas informações nem sempre são agradáveis. E nunca soubemos tanto como agora a respeito de outras civilizações que contribuíram para o sucesso alcançado por Roma. Mas se quisermos compreender o pensamento dos séculos XV e XVI, precisamos ser simples. Burckhardt conta uma história muito bonita, que nos pode auxiliar. Em uma certa ocasião, em 1485, foi anunciada a descoberta, em um sarcófago, do corpo de uma mulher romana, em estado de perfeita conservação. O corpo foi levado para o Pallazzo dei Conservatori. À medida que a notícia foi se espalhando, foi se formando uma multidão para ver a maravilha.
John Summerson. A linguagem clássica da arquitetura.
São Paulo: Martins Fontes, 2006 (com adaptações).
Acerca da estrutura e do conteúdo do texto, julgue o item a seguir. O emprego do tempo e do modo verbal em “conseguiria” é um fator que atribui inequivocamente o ponto de vista ao autor do texto.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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O futuro do pretérito e o ponto de vista do autor
Gabarito: E (Errado). O emprego de “conseguiria” (futuro do pretérito do indicativo) não atribui “inequivocamente” o ponto de vista ao autor; esse tempo verbal expressa hipótese/condição, e não certeza ou opinião direta. O ponto de vista do autor está em outras marcas, como a expressão “precisamos ser simples” e a escolha de contar a história de Burckhardt — não no verbo em si.
O comando
A questão pede um julgamento Certo/Errado sobre a relação entre um tempo verbal e a enunciação. O verbo “conseguiria” está no futuro do pretérito do indicativo (também chamado de condicional). A banca quer saber se esse tempo, por si só, marca o ponto de vista do autor. Para responder, é preciso conhecer o valor semântico desse tempo e verificar se ele, no texto, cumpre essa função.
O texto e o trecho decisivo
No texto, o trecho é:
“Um arquiteto só conseguiria empregar as ordens com amor se as amasse de fato e, para tanto, deveria estar persuadido de que essas mesmas ordens corporificavam algum princípio absoluto de verdade ou beleza.”
Aqui, “conseguiria” está em uma oração condicional: a ação de “conseguir empregar” depende da condição “se as amasse de fato”. O futuro do pretérito, nesse contexto, expressa hipótese, possibilidade, consequência imaginada — não uma afirmação categórica do autor. O autor não está dizendo “eu acho que o arquiteto conseguiria”; ele está construindo uma condição teórica para explicar o pensamento da época.
A técnica: valor do futuro do pretérito
O futuro do pretérito do indicativo tem vários usos, mas o principal é indicar:
Fato posterior a um fato passado (ex.: “Ele disse que viria.”)
Hipótese ou condição (ex.: “Seria bom se você estudasse.”)
Cortesia ou polidez (ex.: “Poderia me ajudar?”)
Nenhum desses usos expressa certeza ou ponto de vista direto. O modo indicativo, em geral, expressa certeza, mas o tempo futuro do pretérito introduz um matiz de incerteza, condição ou possibilidade. Portanto, dizer que “conseguiria” atribui “inequivocamente” o ponto de vista do autor é um erro conceitual: o verbo não marca opinião, e sim uma hipótese.
Onde está o ponto de vista do autor?
O ponto de vista do autor aparece em outras marcas, como:
“precisamos ser simples” — verbo no presente do indicativo, 1ª pessoa do plural, expressando uma recomendação/opinião do autor.
“A veneração pura e simples de Roma é a melhor pista” — afirmação categórica com “é”.
“Burckhardt conta uma história muito bonita” — o adjetivo “bonita” revela uma avaliação do autor.
Essas marcas, sim, revelam o ponto de vista. O futuro do pretérito, no trecho, é apenas um recurso para construir uma condição hipotética.
Análise da assertiva
A assertiva afirma que o emprego de “conseguiria” é um fator que atribui inequivocamente o ponto de vista ao autor. Isso é falso por dois motivos:
O tempo verbal não expressa ponto de vista — expressa hipótese/condição.
A palavra “inequivocamente” é excludente — mesmo que houvesse alguma marca de opinião, ela não seria “inequívoca”, pois o futuro do pretérito é polissêmico.
Portanto, a assertiva está errada.
Conclusão
A banca tentou confundir o candidato com o valor do futuro do pretérito. Lembre-se: tempo verbal não é, por si só, marca de ponto de vista. O ponto de vista se revela por escolhas lexicais, modalizadores e estruturas como “precisamos”, “é a melhor pista”, “história muito bonita”. O futuro do pretérito, no trecho, é uma hipótese condicional.
PEGA ESSA DICA!
Ao ver “futuro do pretérito”, pergunte: há uma condição implícita? Se sim, o valor é de hipótese, não de certeza. E desconfie de “inequivocamente” — palavras absolutas raramente se sustentam em análise de linguagem.