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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
qa495833
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Nova Friburgo
Ano
2023
Cargo
ACE ( )
Restos de Carnaval


          Não, não deste último Carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval. Até que viesse o outro ano.
          E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
          No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem.
          E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
          Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para Carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
           Mas houve um Carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
           Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele Carnaval, pois, pela primeira vez na vida, eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
           Mas por que exatamente aquele Carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
          Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de Carnaval. A alegria dos outros me espantava.
             Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
           Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro. Rocco. 1999. Jornal do Brasil. Em: 16/03/1968.)
Em todos os fragmentos a seguir transcritos do texto as formas verbais evidenciadas estão flexionadas no mesmo tempo, EXCETO em:
  1. ACarnaval era meu, meu.”
  2. BFui correndo vestida de rosa [...]”
  3. CE se depressa agarrei-me a ela [...]”
  4. DMas houve um Carnaval diferente dos outros.”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — “Carnaval era meu, meu.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tempos verbais: pretérito perfeito × pretérito imperfeito

Gabarito: letra A. A questão pede a forma verbal que NÃO está no mesmo tempo das demais. As alternativas B, C e D trazem verbos no pretérito perfeito do indicativo (fatos concluídos, pontuais): fui, agarrei-me, houve. A alternativa A, por sua vez, traz o verbo era, no pretérito imperfeito do indicativo (ação contínua, habitual, descritiva no passado). Como o comando pede a exceção, a resposta é a letra A.

O comando

O enunciado pede: "as formas verbais evidenciadas estão flexionadas no mesmo tempo, EXCETO em". Isso significa que três alternativas compartilham o mesmo tempo verbal e uma foge. A tarefa é puramente morfológica: identificar o tempo de cada forma e achar a que destoa. Não há interpretação de sentido, apenas reconhecimento de flexão verbal.

O texto

O texto de Clarice Lispector é uma crônica memorialista, narrada no passado. A narradora relembra um Carnaval da infância. Os verbos no passado são predominantes, mas com valores distintos: alguns indicam ações pontuais e concluídas (pretérito perfeito), outros descrevem estados ou ações habituais (pretérito imperfeito). A questão explora exatamente essa distinção.

A técnica

Para resolver, é preciso dominar a diferença entre os dois tempos do passado no modo indicativo:

Tempo

Valor

Exemplo

Pretérito perfeito

Fato concluído, pontual, com início e fim definidos

fui, agarrei-me, houve

Pretérito imperfeito

Ação contínua, habitual, descritiva, sem fim delimitado

era

No texto, o verbo era aparece em "Carnaval era meu, meu", descrevendo um estado permanente, uma característica da infância da narradora. Já os verbos das outras alternativas indicam ações concluídas no passado: fui correndo (ação pontual), agarrei-me (ação concluída), houve (existência pontual).

Alternativa A — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO

A forma era está no pretérito imperfeito do indicativo. No texto, a passagem "Carnaval era meu, meu" expressa um estado contínuo, uma verdade da infância da narradora, não um fato pontual. O pretérito imperfeito é usado para descrever ações habituais, estados permanentes ou cenários de fundo. Por isso, destoa das demais, que estão no pretérito perfeito. Como a banca pediu a exceção, esta é a resposta.

Alternativa B — ✅ Correta

A forma fui está no pretérito perfeito do indicativo. No texto, "Fui correndo vestida de rosa" indica uma ação pontual e concluída no passado: a narradora saiu correndo em um momento específico. O pretérito perfeito é o tempo do fato acabado, com início e fim definidos. Portanto, está no mesmo tempo das alternativas C e D.

Alternativa C — ✅ Correta

A forma agarrei-me está no pretérito perfeito do indicativo. No texto, "E se depressa agarrei-me a ela" indica uma ação concluída no passado: a narradora agarrou-se à salvação em um momento determinado. O verbo agarrar está conjugado na 1ª pessoa do singular do pretérito perfeito. Portanto, está no mesmo tempo das alternativas B e D.

Alternativa D — ✅ Correta

A forma houve está no pretérito perfeito do indicativo. No texto, "Mas houve um Carnaval diferente dos outros" indica a existência pontual de um Carnaval específico no passado. O verbo haver no sentido de existir está na 3ª pessoa do singular do pretérito perfeito. Portanto, está no mesmo tempo das alternativas B e C.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre pretérito perfeito e imperfeito, ambos no passado, mas com valores aspectuais distintos. O imperfeito descreve, o perfeito narra. Identifique se a ação é pontual ou contínua.

PEGA ESSA DICA!

Ao reconhecer tempos verbais, pergunte: a ação tem início e fim definidos? Se sim, é perfeito. Se descreve um estado ou hábito, é imperfeito. No texto, "era" descreve, "fui", "agarrei-me" e "houve" narram.

Conclusão: a única forma no pretérito imperfeito é era (letra A), enquanto as demais estão no pretérito perfeito. Como a banca pediu a exceção, o gabarito é a letra A.

Gabarito: letra A

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