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Questão de Português — Substantivo — FUNDATEC 2023

PortuguêsSubstantivo
Código
qa498054
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref BVB
Ano
2023
Cargo
Ag Adm ( )

Matrona

 

Por Cláudio Moreno

 

Uma advogada de São Paulo fez uma interessante observação sobre os sutis mecanismos de nosso idioma: “Professor, na minha profissão, é comum nos referirmos aos advogados de uma ação como patronos da causa — os homens são patronos, as mulheres, é claro, são patronas. Não vejo problema algum nisso, até porque eu acharia esquisito se me chamassem de patronnesse, que é Francês e nada tem a ver com nosso trabalho, já que só se emprega para aquelas senhoras endinheiradas que promovem chás beneficentes. Agora, desculpe a pergunta (pode ser cacoete de advogada, acostumada com leis): se na nossa língua há um monte de “casais” de palavras que deixam bem claro o dualismo entre pai e mãe, como padrinho e madrinha, compadre e comadre, padrasto e madrasta, como é que patrono escapou desta regra, de formar o feminino com um simples – A, como advogada ou promotora? Seria porque, para muitos, matrona tem valor pejorativo?”.

 

Sim, cara advogada, essa deve ter sido uma das razões para a flexão de patrono não seguir o mesmo modelo. Matrona, entre os romanos, no Mundo Antigo, designava uma mulher casada, mãe de família, honesta e ilustre por nascimento, figura digna e respeitável que respondia pela manutenção da casa e da educação moral das crianças. Bluteau, em seu dicionário de 1728, acrescenta: “Em Portugal, também se diz das viúvas”. Com o tempo, no entanto, na medida em que nossa sociedade foi-se escravizando à ditadura fitness, a palavra passou a ser usada com sentido crítico, praticamente ofensivo, para descrever uma mulher corpulenta, ao mesmo tempo em que “amatronar-se” passou a designar o pecado de não seguir os padrões ditos “normais” de pesos e medidas...

 

Além disso, não se pode esperar que uma língua viva siga padrões simétricos, traçados a régua e compasso. A língua, como a água, tem muitos caminhos para escolher, e muitas vezes problemas semelhantes podem receber soluções diferentes. Por isso nem sempre serão válidos raciocínios do tipo “se isso é assim, aquilo também o será”, ou, para ser mais concreto, “se o feminino de padrasto é madrasta, o de patrono deveria ser matrona”. Vários fatores, muitos deles impalpáveis, podem influir na decisão dos milhões de pessoas que vêm usando o Português ao longo dos séculos — que escolheram para patrão o feminino patroa, mantendo aqui o mesmo radical pater (“pai”, em Latim), assim como fizeram com padroeiro e padroeira.

 

Não te espantes também, cara leitora, se alguém do teu ramo propuser o emprego da forma patrono para todo o mundo, independentemente do sexo do profissional. Por que digo isso? Porque regularmente, quando chega a primavera, ocorre aqui em Porto Alegre a tradicional Feira do Livro, uma iniciativa cultural replicada hoje por muitas outras cidades de nosso Estado, e não são raras as consultas que recebo sobre o emprego correto da palavra patrono. Posso afirmar, com certo orgulho, que por aqui a questão está pacificada: quando é homem é patrono, quando é mulher é patrona. Mas sempre aqui e ali aparece alguém que maliciosamente me lembra de que patrono está registrado nos dicionários como substantivo masculino. “E aí, professor? Como o senhor explica essa?”. Muito simples: nossos dicionários precisam corrigir a forma de fornecer informações ao consulente.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudio-moreno/noticia/2023/04/matrona-clgxrhjob002l016xfq0s0uvx.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa em que a palavra apresentada seja usada tanto para se referir a um homem quanto a uma mulher, sem que a palavra sofra flexão de gênero.
  1. AJuiz.
  2. BCônjuge.
  3. CDeputado.
  4. DPrefeito.
  5. EVereador.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Cônjuge.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substantivos uniformes: a palavra que não muda de forma — Gabarito: letra B.

Gabarito: letra B. A questão pede a palavra que se refere a homem e mulher sem sofrer flexão de gênero — ou seja, um substantivo uniforme (uma única forma para os dois sexos). Entre as opções, cônjuge é o único que se enquadra: dizemos o cônjuge e a cônjuge, sem alterar a palavra. As demais (juiz, deputado, prefeito, vereador) são biformes: têm forma masculina e feminina próprias (juiz/juíza, deputado/deputada, prefeito/prefeita, vereador/vereadora).

O comando é de compreensão — pede que você identifique, entre as palavras listadas, aquela que não muda de forma para indicar o sexo. Não se trata de inferir nada além do que está dito: basta aplicar a classificação morfológica dos substantivos quanto ao gênero. A banca, porém, não quer que você decore a lista; quer que você perceba o mecanismo: palavras como juiz e deputado têm feminino terminado em -a (juíza, deputada), enquanto cônjuge permanece idêntica, sendo o gênero marcado apenas pelo artigo ou adjetivo (o cônjuge / a cônjuge).

O texto-base, embora trate da flexão de patrono/patrona, reforça exatamente essa ideia: a língua nem sempre segue padrões simétricos, e há palavras que não mudam de forma para indicar o sexo. No 2º parágrafo, o autor menciona que matrona perdeu o valor positivo e passou a ter sentido pejorativo, o que explica por que patrono não virou matrona no feminino. Mas o ponto central para esta questão é a classificação dos substantivos: os uniformes (como cônjuge) têm uma só forma; os biformes (como juiz) têm duas.

A técnica que decide é simples: teste cada palavra com o artigo feminino. Se a palavra mudar (juiz → juíza), é biforme; se permanecer igual (cônjuge → cônjuge), é uniforme. A única que passa no teste é cônjuge.

Classificação

Palavra

Flexiona?

Exemplo

Uniforme (comum de dois)

Cônjuge

Não

o/a cônjuge

Biforme

Juiz

Sim

juiz/juíza

Biforme

Deputado

Sim

deputado/deputada

Biforme

Prefeito

Sim

prefeito/prefeita

Biforme

Vereador

Sim

vereador/vereadora

Alternativa A — ❌ Incorreta

Juiz é substantivo biforme: o feminino é juíza. A palavra sofre flexão de gênero, portanto não atende ao comando. A banca a incluiu porque é um cargo comum, mas a forma feminina existe e é amplamente usada.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Cônjuge é substantivo uniforme — mais especificamente, comum de dois gêneros: a mesma forma serve para homem e mulher, e o gênero é indicado pelo artigo ou adjetivo (o cônjuge / a cônjuge). Não há flexão de gênero na palavra. O texto de apoio confirma: "o cônjuge" aparece como exemplo de substantivo sobrecomum/comum de dois. É a única alternativa que cumpre exatamente o que o enunciado pede.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Deputado é biforme: o feminino é deputada. A palavra flexiona em gênero, então não serve.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Prefeito é biforme: o feminino é prefeita. Flexiona em gênero, portanto está fora.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Vereador é biforme: o feminino é vereadora. Flexiona em gênero, logo não atende.

NÃO CAIA NESSA!

A banca aposta na pressa: o candidato vê "cônjuge" e pensa que é masculino, esquecendo que é uniforme. As outras quatro opções são biformes — todas têm feminino com -a. A armadilha é confundir "palavra que se refere aos dois sexos" (cônjuge) com "palavra que tem duas formas" (juiz/juíza).

PEGA ESSA DICA!

Para identificar substantivo uniforme, faça o teste do artigo: o cônjuge / a cônjuge — a palavra não muda. Se mudar (juiz/juíza), é biforme. Grave os exemplos clássicos: cônjuge, estudante, agente, dentista, artista, gerente, jovem, cliente.

Gabarito: letra B.

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