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Questão de Português — Colocação Pronominal — Avança SP 2023

PortuguêsColocação Pronominal
Código
qa498932
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Americana
Ano
2023
Cargo
APS ( )

A pipoca

 

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas. (...)

 

Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chefe. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

 

As comidas, para mim, são entidades oníricas

 

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. (...)

 

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

 

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. (...)

 

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebradentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas! (...)

 

para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebradentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

 

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

 

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. (...)

 

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. (...)

 

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. (...) A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. (...)

 

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

 

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem. (...)

 

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. (...) A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

 

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

 

ALVES, Rubem. A pipoca. In:_____. O amor que acende a lua. Campinas, SP: Papirus, 1999.

Todos os pronomes pessoais oblíquos átonos, abaixo, destacados podem mudar de posição em relação ao verbo a que se referem; a EXCEÇÃO encontra-se na alternativa:

  1. A“A culinária me fascina.”
  2. B“Não vão se transformar na flor branca macia.”
  3. C“(...) mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, (...)”
  4. D“O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos.”
  5. E“Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.”
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GabaritoE — “Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Colocação Pronominal: Próclise Obrigatória com Pronome Relativo

Gabarito: letra E. A alternativa E é a exceção porque o pronome oblíquo átono "se" em "que se recusa" não pode mudar de posição: ele está em próclise obrigatória, atraído pelo pronome relativo "que". Nas demais alternativas, o pronome pode ser deslocado para depois do verbo (ênclise) sem ferir a norma culta, pois não há palavra atrativa ou a atração é facultativa.

O Comando: Localizar a Exceção

A questão pede que você identifique a alternativa em que o pronome oblíquo átono NÃO pode mudar de posição. Isso significa que, nas outras quatro, a mudança é facultativa (gramaticalmente aceita), e em uma delas a mudança é obrigatória (ou seja, o pronome só pode ficar onde está). A palavra-chave é "exceção": você procura a única que foge à regra geral de mobilidade.

A Regra que Decide: Palavras Atrativas

A colocação pronominal é regida por palavras atrativas, que obrigam o pronome a vir antes do verbo (próclise). Entre elas estão as conjunções subordinativas (que, se, quando, embora), os pronomes relativos (que, o qual, cujo), os advérbios e as palavras negativas.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver um pronome oblíquo átono, pergunte: "O que vem imediatamente antes do verbo?" Se for uma palavra atrativa (como "que", "não", "nunca", "quando"), a próclise é obrigatória e o pronome não pode ser deslocado.

Análise das Alternativas

Colocação pronominal
  • 1Próclise obrigatória
    • Palavra atrativa + verbo flexionado
      • Pronome relativo (que, o qual)
      • Conjunção subordinativa (se, quando)
      • Palavra negativa (não, nunca)
      • Advérbio
  • 2Posição facultativa
    • Verbo no infinitivo
      • Mesmo com palavra atrativa
    • Sem palavra atrativa
      • Próclise ou ênclise
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"A culinária me fascina."

Aqui não há palavra atrativa antes do verbo "fascina". O pronome "me" está em próclise, mas poderia vir em ênclise: "A culinária fascina-me." Ambas as formas são aceitas pela norma culta. Portanto, o pronome pode mudar de posição.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Não vão se transformar na flor branca macia."

Há uma palavra negativa ("não") antes da locução verbal "vão transformar". Isso atrai o pronome para a próclise: "Não se vão transformar" ou "Não vão se transformar". No entanto, com o verbo principal no infinitivo ("transformar"), a ênclise é facultativa, mesmo com palavra atrativa: "Não vão transformar-se" também é aceito. Portanto, o pronome pode mudar de posição.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"(...) houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, (...)"

O pronome "as" está em ênclise ao verbo no infinitivo "colocar" (colocá-las). Com verbos no infinitivo, a posição é facultativa: poderia ser "as colocar" (próclise), mesmo sem palavra atrativa. Portanto, o pronome pode mudar de posição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos."

O pronome "nos" está em próclise ao verbo "lança". Não há palavra atrativa imediatamente antes do verbo ("a vida" é o sujeito, não atrai próclise). Portanto, a ênclise seria perfeitamente aceita: "a vida lança-nos". O pronome pode mudar de posição.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar."

Aqui o pronome "se" está em próclise ao verbo "recusa", atraído pelo pronome relativo "que". Essa atração é obrigatória: não se pode dizer "que recusa-se". O pronome relativo é uma palavra atrativa que exige a próclise. Portanto, o pronome não pode mudar de posição, sendo esta a exceção pedida.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre atração obrigatória (pronome relativo, conjunção subordinativa, palavra negativa) e atração facultativa (verbo no infinitivo). Na alternativa B, a palavra negativa "não" atrai, mas o infinitivo permite a ênclise; na E, o relativo "que" obriga a próclise.

Conclusão

A regra de ouro: palavra atrativa + verbo no infinitivo = posição facultativa; palavra atrativa + verbo flexionado = próclise obrigatória. Na alternativa E, o pronome relativo "que" exige o pronome antes do verbo "recusa" (flexionado), tornando a mudança impossível. As demais alternativas permitem o deslocamento, seja por ausência de atrativo (A, D), seja pela facultatividade do infinitivo (B, C).

Gabarito: letra E

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