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Questão de Português — Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais) — Avança SP 2023

PortuguêsRegência Nominal e Verbal (Casos Gerais)
Código
qa499005
Banca
Avança SP
Órgão
Pref SM Arcanjo
Ano
2023
Cargo
ATI (SM Arcanjo)

Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.   

Clarice Lispector

Texto

   

Considere o seguinte excerto: “Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.” Em relação à regência, os verbos destacados são, respectivamente:

  1. Averbo transitivo direto; verbo transitivo indireto.
  2. Bverbo transitivo indireto; verbo intransitivo.
  3. Cverbo intransitivo; verbo transitivo indireto.
  4. Dverbo transitivo direto; verbo transitivo direto.
  5. Everbo intransitivo; verbo intransitivo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — verbo transitivo direto; verbo transitivo indireto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Regência Verbal: "possuía" e "gostaria de ter"

Gabarito: letra A. No excerto, o verbo "possuía" é transitivo direto (VTD), pois seu complemento, "o que", liga-se a ele sem preposição; já o verbo "gostaria" é transitivo indireto (VTI), pois exige a preposição "de" antes do complemento "ter". A prova está na própria estrutura do trecho: "possuía o que" (sem preposição) e "gostaria de ter" (com preposição).

O comando pede a classificação da regência dos dois verbos destacados no trecho. Isso é uma questão de gramática aplicada ao texto: não se trata de interpretar o sentido, mas de analisar a relação sintática entre o verbo e seu complemento. A regência verbal é a relação de subordinação entre o verbo (termo regente) e seus complementos (objeto direto e objeto indireto).

No trecho, temos:

"Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria."

O primeiro verbo, possuía, tem como complemento o pronome relativo "o que" (que retoma "o que qualquer criança... gostaria de ter"). Esse complemento é um objeto direto, pois não há preposição obrigatória entre o verbo e ele: "possuía o quê?" → "o que". Logo, é transitivo direto.

O segundo verbo, gostaria, exige a preposição "de" para se ligar ao seu complemento: "gostaria de ter". Quem gosta, gosta de algo. Portanto, é transitivo indireto, pois seu objeto é introduzido por preposição.

A pegadinha da banca está em confundir a classificação do verbo "gostar" (que é sempre transitivo indireto, regendo "de") com a de verbos como "possuir" (que é transitivo direto). Além disso, a banca tenta atrair o candidato com a ideia de que "gostaria" seria intransitivo, o que é falso, pois ele tem complemento ("de ter").

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre verbos que pedem preposição (transitivos indiretos) e os que não pedem (transitivos diretos). O verbo "gostar" é um clássico VTI — quem gosta, gosta de algo. Já "possuir" é VTD — possui-se algo diretamente.

PEGA ESSA DICA!

Para classificar a transitividade, pergunte ao verbo "o quê?" ou "de quê?". Se a resposta vier sem preposição, é objeto direto; se vier com preposição, é objeto indireto. No trecho: "possuía o quê?" → "o que" (sem preposição, OD); "gostaria de quê?" → "de ter" (com preposição, OI).

1Transitivo direto (VTD)
Sem preposição
"possuía o que"
2Transitivo indireto (VTI)
Com preposição
"gostaria de ter"
3Intransitivo
Sem complemento
Regência verbal
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Regência verbal: Transitivo direto (VTD) (Sem preposição, "possuía o que"); Transitivo indireto (VTI) (Com preposição, "gostaria de ter"); Intransitivo (Sem complemento)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que "possuía" é transitivo direto e "gostaria" é transitivo indireto. Isso está correto: "possuía o que" (sem preposição) e "gostaria de ter" (com a preposição "de"). É a única que classifica corretamente os dois verbos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que "possuía" é transitivo indireto e "gostaria" é intransitivo. Erro duplo: "possuir" não exige preposição (é VTD), e "gostar" tem complemento preposicionado (é VTI, não intransitivo). A banca tenta fazer o candidato achar que "gostaria" não pede complemento, mas o trecho mostra "gostaria de ter".

Alternativa C — ❌ Incorreta

Diz que "possuía" é intransitivo e "gostaria" é transitivo indireto. Erro no primeiro verbo: "possuir" é claramente transitivo direto, pois "possuía o que" — o complemento "o que" é objeto direto. Não há como classificá-lo como intransitivo, já que ele exige complemento.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que ambos são transitivos diretos. Erro no segundo verbo: "gostar" rege a preposição "de", portanto é transitivo indireto. A alternativa ignora a preposição presente no texto ("gostaria de ter").

Alternativa E — ❌ Incorreta

Diz que ambos são intransitivos. Erro duplo: tanto "possuir" quanto "gostar" têm complementos no trecho. "Possuía o que" (objeto direto) e "gostaria de ter" (objeto indireto). Nenhum dos dois é intransitivo.

Gabarito: letra A. A regra de ouro: a transitividade se prova pelo complemento — se há preposição obrigatória, é indireto; se não há, é direto. No texto, "possuía" liga-se diretamente ao objeto; "gostaria" exige "de". Questão resolvida pela análise da estrutura, sem depender de interpretação.

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