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Questão de Português — Colocação Pronominal — Quadrix 2023

PortuguêsColocação Pronominal
Código
qa499084
Banca
Quadrix
Órgão
PROCON DF
Ano
2023
Cargo
AADC ( )

Encerro 2020, o ano que anuncia que o tempo das pandemias chegou, com estranhos sintomas. A ideia de fazer mais uma live, mais um meeting pelo Jitsi, Zoom ou Google, ou mesmo pelo WhatsApp, deixa‑me fisicamente enjoada. Escrever, como faço agora, enquanto as notícias e as mensagens pipocam em um canto da tela, deixa‑me tonta e exausta. Amigos me pedem encontros de Natal, happy hours de ano‑novo. Quero. Mas não consigo. Que o excesso de telas cansa e pode causar transtornos e até doenças, sabemos. A experiência atual, porém, vai muito além disso. O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa.


Sim, aqueles que têm a chance de trabalhar no sistema de home office, o que significa trabalhar a partir de sua casa, são privilegiados em um planeta encurralado pelo vírus. Pensar sobre a desigualdade no tempo das pandemias é pensar sobre quem pode desempenhar suas funções profissionais “remotamente” e quem não pode. A maioria dos que não podem trabalhar remotamente é composta dos mesmos que têm mais chances de figurar em todas as piores estatísticas: os mais pobres, os negros, as mulheres.


Afirmar que a pandemia expõe e agrava a desigualdade social, de raça e de gênero é uma obviedade que várias pesquisas comprovaram ao longo de 2020. A iniquidade abissal do Brasil — e, em menor escala, da maioria dos países do planeta — impõe como privilégio aquilo que é um direito básico, o de ser capaz de se proteger de uma ameaça. Assim, é como privilegiada que discuto aqui a experiência de nos descobrir sem casa, uma experiência que não é apenas subjetiva. Apesar das paredes de concreto que nos cercam, sentir‑nos sem casa é uma experiência bem concreta.


Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office, expressão em inglês para apontar que a casa, no sentido de lar (home), se tornou também o escritório (office), no sentido de local de trabalho. A expressão home office, porém, é ardilosa. A experiência cotidiana mostra que, se há office, não há home.


Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa. Mesmo que essa porta seja invisível, caso das pessoas em situação de rua, essa barreira concretizada pela imaginação cumpre o papel simbólico de fazer borda, de dar limite. No modo pandêmico é ao contrário. Mesmo que materialmente exista uma porta de madeira ou mesmo de ferro, grossa e cheia de fechaduras complicadas, seguidamente precedida da porta do prédio e ainda da porta externa do edifício, como hoje vive parte da classe média urbana, ainda assim não há porta nenhuma porque já não há limite para o que invade a casa pelas telas — todas as telas — desde dentro.


Tudo se complica infinitamente mais quando o mundo do trabalho invade a casa. Com a comunicação facilitada e imediata permitida pela tecnologia, os limites que antes eram determinados pela carga horária da jornada passaram a ser ultrapassados ou mesmo ignorados. A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época.


Com o home office, as condições de trabalho se precarizaram ainda mais.


Internet: <https://brasil.elpais.com> (com adaptações)

Texto para o item.

 

Com relação às ideias, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto, julgue o item.

 

O uso da próclise na oração “Se tornar descasado” é justificado por se tratar de uma frase iniciada com verbo, o que torna gramaticalmente correto o posicionamento do pronome oblíquo átono.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Colocação pronominal: a próclise em “Se tornar descasado”

Gabarito: E (Errado). A assertiva erra ao atribuir a justificativa da próclise ao fato de a frase ser iniciada com verbo — o que, na verdade, é uma proibição (não se inicia período com pronome oblíquo átono). A próclise em “Se tornar descasado” é obrigatória porque a oração é introduzida pela conjunção subordinativa condicional “se”, palavra atrativa que exige o pronome antes do verbo, como se lê no 4º parágrafo: “Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje...”.

O comando

A questão pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma justificativa gramatical. Não se trata de interpretação de texto, mas de gramática normativa aplicada a um trecho do texto. O verbo de comando é “julgar”: o candidato deve verificar se a causa apontada para o uso da próclise está correta. Isso muda tudo: não basta saber que a próclise está correta; é preciso saber por que ela é correta.

O texto e o trecho analisado

O texto discute como o home office “despejou” as pessoas da própria casa. No 4º parágrafo, a autora escreve:

“Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office...”

A oração “Se tornar descasado” é uma oração subordinada adverbial condicional reduzida de infinitivo, introduzida pela conjunção “se”. É exatamente essa conjunção que atrai o pronome oblíquo átono “se” para antes do verbo, tornando a próclise obrigatória.

A regra que decide

A colocação pronominal segue o princípio da próclise obrigatória diante de palavras atrativas. Entre elas estão:

  • Conjunções subordinativas (que, se, embora, quando, como, etc.)

  • Palavras negativas (não, nunca, jamais)

  • Advérbios (aqui, agora, talvez)

  • Pronomes relativos, indefinidos e interrogativos

No trecho, o “se” é uma conjunção subordinativa condicional — logo, atrai o pronome. A justificativa dada pela assertiva, porém, é outra: ela afirma que a próclise se justifica por ser uma “frase iniciada com verbo”. Isso é um equívoco duplo:

  1. Não é verdade que a frase comece com verbo. A frase começa com a conjunção “Se”, que é uma palavra invariável, não um verbo.

  2. Mesmo que começasse com verbo, isso não justificaria a próclise. Pelo contrário: a norma culta proíbe iniciar período com pronome oblíquo átono (ex.: “Me dá” é inadequado; o correto é “Dá-me”). Se a frase começasse com verbo, sem palavra atrativa, o pronome deveria ficar enclítico (depois do verbo), como em “Torna-se descasado”.

A pegadinha da banca

A banca inverte a causa: pega um caso de próclise correta e atribui a justificativa a uma regra que não existe (ou que, na verdade, levaria à ênclise). É uma armadilha clássica de troca de conceito — o candidato que sabe que a próclise está correta pode marcar “Certo” sem verificar o porquê.

NÃO CAIA NESSA!

A banca não pergunta se a próclise está correta (está), mas por que ela é correta. A justificativa apresentada é falsa: “frase iniciada com verbo” não atrai próclise; quem atrai é a conjunção “se”.

Análise da assertiva

Próclise em "Se tornar descasado"
  • 1Justificativa da assertiva (errada)
    • "Frase iniciada com verbo"
    • Não é verdade: começa com "Se"
    • Mesmo se começasse, levaria à ênclise
  • 2Justificativa correta
    • Conjunção subordinativa "se"
    • Palavra atrativa
    • Próclise obrigatória
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Assertiva — ❌ Errada ⟵ GABARITO

A assertiva afirma que a próclise em “Se tornar descasado” é justificada por ser uma frase iniciada com verbo. Há dois erros:

  1. A frase não começa com verbo. Começa com a conjunção “Se”.

  2. A justificativa correta é a presença da conjunção subordinativa “se”, que é palavra atrativa e torna a próclise obrigatória.

Se a frase começasse com verbo, sem palavra atrativa, a colocação correta seria a ênclise (ex.: “Torna-se descasado”), pois a norma culta proíbe iniciar período com pronome oblíquo átono. Portanto, a justificativa apresentada é falsa, e o item está errado.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de colocação pronominal, identifique primeiro a palavra atrativa (conjunção, advérbio, pronome relativo, palavra negativa). Se houver, a próclise é obrigatória. Se não houver, o pronome vai para depois do verbo (ênclise) — exceto em futuro do presente/pretérito, que exige mesóclise.

Conclusão: a próclise em “Se tornar descasado” é correta, mas a justificativa apresentada é falsa. O que a torna correta é a conjunção subordinativa “se”, e não o fato de a frase ser iniciada com verbo. Gabarito: E (Errado).

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