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Questão de Português — Conjunção — Quadrix 2023

PortuguêsConjunção
Código
qa499085
Banca
Quadrix
Órgão
PROCON DF
Ano
2023
Cargo
AADC ( )

Encerro 2020, o ano que anuncia que o tempo das pandemias chegou, com estranhos sintomas. A ideia de fazer mais uma live, mais um meeting pelo Jitsi, Zoom ou Google, ou mesmo pelo WhatsApp, deixa‑me fisicamente enjoada. Escrever, como faço agora, enquanto as notícias e as mensagens pipocam em um canto da tela, deixa‑me tonta e exausta. Amigos me pedem encontros de Natal, happy hours de ano‑novo. Quero. Mas não consigo. Que o excesso de telas cansa e pode causar transtornos e até doenças, sabemos. A experiência atual, porém, vai muito além disso. O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa.


Sim, aqueles que têm a chance de trabalhar no sistema de home office, o que significa trabalhar a partir de sua casa, são privilegiados em um planeta encurralado pelo vírus. Pensar sobre a desigualdade no tempo das pandemias é pensar sobre quem pode desempenhar suas funções profissionais “remotamente” e quem não pode. A maioria dos que não podem trabalhar remotamente é composta dos mesmos que têm mais chances de figurar em todas as piores estatísticas: os mais pobres, os negros, as mulheres.


Afirmar que a pandemia expõe e agrava a desigualdade social, de raça e de gênero é uma obviedade que várias pesquisas comprovaram ao longo de 2020. A iniquidade abissal do Brasil — e, em menor escala, da maioria dos países do planeta — impõe como privilégio aquilo que é um direito básico, o de ser capaz de se proteger de uma ameaça. Assim, é como privilegiada que discuto aqui a experiência de nos descobrir sem casa, uma experiência que não é apenas subjetiva. Apesar das paredes de concreto que nos cercam, sentir‑nos sem casa é uma experiência bem concreta.


Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office, expressão em inglês para apontar que a casa, no sentido de lar (home), se tornou também o escritório (office), no sentido de local de trabalho. A expressão home office, porém, é ardilosa. A experiência cotidiana mostra que, se há office, não há home.


Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa. Mesmo que essa porta seja invisível, caso das pessoas em situação de rua, essa barreira concretizada pela imaginação cumpre o papel simbólico de fazer borda, de dar limite. No modo pandêmico é ao contrário. Mesmo que materialmente exista uma porta de madeira ou mesmo de ferro, grossa e cheia de fechaduras complicadas, seguidamente precedida da porta do prédio e ainda da porta externa do edifício, como hoje vive parte da classe média urbana, ainda assim não há porta nenhuma porque já não há limite para o que invade a casa pelas telas — todas as telas — desde dentro.


Tudo se complica infinitamente mais quando o mundo do trabalho invade a casa. Com a comunicação facilitada e imediata permitida pela tecnologia, os limites que antes eram determinados pela carga horária da jornada passaram a ser ultrapassados ou mesmo ignorados. A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época.


Com o home office, as condições de trabalho se precarizaram ainda mais.


Internet: <https://brasil.elpais.com> (com adaptações)

Texto para o item.

 

Com relação às ideias, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto, julgue o item.

 

O emprego repetido do conectivo “E” é considerado inadequado, visto que é gramaticalmente incorreta a utilização de tal estrutura no início das frases. Além disso, a recorrência desse elemento constitui um empecilho à coerência entre as ideias do texto.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conectivo "E" no início de frases: inadequação e coerência

Gabarito: letra E (Errado). O item afirma que o emprego repetido do conectivo "E" é inadequado e gramaticalmente incorreto no início das frases, além de prejudicar a coerência. Isso é falso: a norma culta permite iniciar frases com conjunções coordenativas aditivas como "E", e a recorrência desse conectivo, no texto, é um recurso estilístico que reforça a progressão das ideias, não um empecilho à coerência. Como se vê no trecho: "E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade... E uma casa sem porta não é uma casa."

O comando da questão

O item é de julgamento (Certo/Errado) sobre aspectos linguísticos e de coerência. A banca não pergunta se o conectivo "E" é aditivo (isso é dado), mas sim se o uso repetido no início de frases é gramaticalmente incorreto e se prejudica a coerência. São duas afirmações encadeadas: (1) inadequação gramatical; (2) prejuízo à coerência. Para o item estar CERTO, ambas precisariam ser verdadeiras. Basta uma ser falsa para o item ser ERRADO.

O que o texto mostra

O texto é um relato em primeira pessoa sobre o esvaziamento do sentido de "casa" no home office. No 5º parágrafo, o autor usa o conectivo "E" de forma repetida e proposital, em uma sequência que acumula perdas:

"Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa."

A repetição do "E" aqui não é erro: é um recurso coesivo e expressivo (polissíndeto) que encadeia os elementos da perda, dando ritmo e ênfase. Cada "E" adiciona uma nova consequência, e a coerência se mantém porque todos os termos se ligam à ideia central de "perder a casa".

A regra que decide

A gramática normativa não proíbe iniciar frase com conjunção coordenativa. Conjunções como "E", "MAS", "PORÉM" podem abrir períodos, especialmente em textos argumentativos e literários, para retomar ou acrescentar ideias. O que se evita é o uso vicioso (repetição sem função), o que não ocorre no texto: cada "E" tem função aditiva e contribui para a progressão temática.

A coerência, por sua vez, não é quebrada pela repetição; ela é construída pela manutenção do mesmo campo semântico (casa, porta, descanso, refúgio). O conectivo "E" é um operador argumentativo que soma argumentos a favor da tese de que o home office "despeja" a pessoa de sua casa.

1Norma culta
Permite iniciar com "E"
Recurso estilístico (polissíndeto)
2Uso vicioso (repetição sem função)
Evitado
3Coerência
Repetição reforça a progressão
Não é empecilho
Conectivo "E" no início de frase
LEVELsoulevel.com.br
Conectivo "E" no início de frase: Norma culta (Permite iniciar com "E", Recurso estilístico (polissíndeto)); Uso vicioso (repetição sem função) (Evitado); Coerência (Repetição reforça a progressão, Não é empecilho)

Análise do item

O item comete dois erros: (1) afirma que é "gramaticalmente incorreta a utilização de tal estrutura no início das frases" — falso, pois a norma permite; (2) afirma que a recorrência "constitui um empecilho à coerência" — falso, pois a repetição é um recurso coesivo que reforça a coerência, não a prejudica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato acreditar que "E" no início de frase é erro de gramática. Na verdade, é um recurso estilístico legítimo. Desconfie sempre de afirmações que transformam um uso expressivo em "erro" sem citar a norma.

PEGA ESSA DICA!

Em itens de Certo/Errado, se uma das duas afirmações encadeadas for falsa, o item inteiro é ERRADO. Aqui, a primeira já é falsa — não precisa nem analisar a segunda.

Conclusão: o item está ERRADO porque a norma culta admite o "E" no início de frases e a repetição, no texto, é um recurso de coesão e ênfase, não um empecilho à coerência.

Gabarito: letra E (Errado).

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