A coruja, para muitos povos, representa a inteligência e a clarividência
Por Nílson Souza
Minha avó era coruja. De verdade. Não no sentido da fábula da ave que via seus medonhos filhotes como os mais lindos do mundo. Era coruja, porque carregava esse sobrenome que designa a ave noturna. Seu pai um dos meus bisavôs chamava-se Antônio Alves Coruja, mas a filharada não curtia muito o nome de família, provavelmente devido ao bullying de todas as épocas que não poupa ninguém com identificação de duplo sentido. Tão logo casou-se com um Souza, dona Rita excluiu o sobrenome paterno.
Eu também não uso, mas sei que a ave da sabedoria e do agouro está pousada num dos galhos da minha árvore genealógica. Sequer sou um colecionador de corujinhas, como vários brasileiros e portugueses que curtem miniaturas do bicho por simpatia ou superstição. A simbologia é forte: a coruja, para muitos povos, representa a inteligência e a clarividência — faculdade que muito me agradaria possuir para antever o futuro. Gregos antigos e nativos americanos acreditavam mesmo que a coruja, por enxergar à noite, era uma espécie de oráculo, tanto que a própria deusa da sabedoria e da justiça — Atena — é representada com uma dessas aves no ombro.
Mas nem tudo são flores no imaginário dessa ave de rapina. Os astecas a identificavam como “deus dos infernos” e achavam que ela aparecia para devorar a alma dos moribundos. Na Europa medieval, eram consideradas bruxas disfarçadas e ainda hoje são vistas como guardiãs dos cemitérios.
A verdade é que minhas parentes aladas não fazem mal a ninguém, excetuando-se, obviamente, suas presas — peixes, roedores, insetos e até outras aves. Mas elas também têm seus predadores, e talvez o mais perigoso seja o animal humano. Quando os filmes de Harry Potter estouraram, adolescentes de várias partes do mundo adotaram corujinhas de carne e penas como animal de estimação, imitando o próprio bruxinho e seus companheiros de magia. Depois que a onda passou, centenas foram abandonadas. No Reino Unido, foi preciso criar alas especiais nos santuários de aves para receber as órfãs do filme.
Mas a coruja também se vinga dos humanos. Uma das espécies mais comuns no Brasil é a chamada coruja rasga-mortalha, que emite um som assustador, semelhante a uma roupa sendo rasgada. Diz a lenda que, quando a agourenta passa sobre uma casa ou pousa no seu telhado, algum morador vai virar estrela.
Tem de tudo nessa minha família. Mas nossos filhotes são lindos.
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/nilson-souza/noticia/2022/10/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Instrução: A questão refere-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados na questão. Assinale a alternativa que apresenta a correta opção de pontuação que substitui as figuras, respectivamente.
AVírgula – Ponto-final.
BVírgula – Vírgula.
CPonto-final – Vírgula.
DPonto-final – Dois-pontos.
EDois-pontos – Ponto-final.
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GabaritoB — Vírgula – Vírgula.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Pontuação: vírgula e ponto-final no texto — Gabarito: letra B.
Gabarito: letra B. A sequência correta é Vírgula – Vírgula, pois as duas figuras substituem, respectivamente, uma vírgula obrigatória que isola um aposto explicativo e uma vírgula obrigatória que separa uma oração coordenada assindética — ambas com função de pausa inconclusa, mantendo a continuidade do período. Como se lê no 2º parágrafo do texto: "Gregos antigos e nativos americanos acreditavam mesmo que a coruja, por enxergar à noite, era uma espécie de oráculo" — a primeira figura isola a oração intercalada "por enxergar à noite"; a segunda, no trecho "A simbologia é forte: a coruja, para muitos povos, representa a inteligência e a clarividência — faculdade que muito me agradaria possuir", separa o adjunto adverbial deslocado "para muitos povos".
O comando e o que ele pede
A questão pede que você substitua as figuras (símbolos) por sinais de pontuação corretos, respectivamente. Isso é uma questão de gramática aplicada ao texto: não se trata de interpretar o sentido, mas de aplicar as regras de pontuação ao trecho destacado. O comando "respectivamente" indica que a ordem das figuras importa: a primeira figura corresponde ao primeiro sinal, a segunda ao segundo.
O texto e o movimento argumentativo
O texto é uma crônica sobre a coruja, que transita entre o sentido literal (o sobrenome da família) e o simbólico (a ave como símbolo de inteligência). O trecho destacado está no 2º parágrafo, onde o autor discute a simbologia da coruja e menciona a crença de gregos e nativos americanos. A pontuação correta deve preservar a estrutura sintática e o fluxo de leitura do período.
A técnica que decide: vírgula obrigatória
A vírgula é usada para isolar elementos intercalados (aposto, oração intercalada, adjunto adverbial deslocado) e para separar orações coordenadas assindéticas. No trecho, a primeira figura isola a oração intercalada "por enxergar à noite", que explica o motivo da crença — é uma oração reduzida de infinitivo com valor adverbial, intercalada entre o sujeito "a coruja" e o verbo "era". A segunda figura isola o adjunto adverbial "para muitos povos", deslocado para o início da oração, antes do sujeito "a coruja".
"Gregos antigos e nativos americanos acreditavam mesmo que a coruja, por enxergar à noite, era uma espécie de oráculo"
Aqui, a vírgula é obrigatória porque a oração intercalada "por enxergar à noite" está deslocada de sua posição natural (fim da oração) e precisa ser isolada para não quebrar a relação sujeito-verbo. Sem a vírgula, o período ficaria confuso e gramaticalmente incorreto.
"A simbologia é forte: a coruja, para muitos povos, representa a inteligência e a clarividência"
Aqui, a vírgula isola o adjunto adverbial "para muitos povos", que está deslocado (antecipado) — na ordem direta, seria "a coruja representa a inteligência para muitos povos". O deslocamento exige a vírgula para marcar a pausa e evitar ambiguidade.
Análise das alternativas
1Identificar função sintática
2Termo intercalado?
3Vírgula obrigatória
4Fim de oração completa?
5Ponto-final
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Vírgula – Ponto-final. A primeira figura é corretamente substituída por vírgula, mas a segunda não pode ser ponto-final, pois o trecho "para muitos povos, representa a inteligência e a clarividência" é uma continuação da mesma oração — o sujeito "a coruja" ainda não completou seu sentido com o verbo "representa". O ponto-final interromperia o período, criando um fragmento sem verbo. Erro: contradiz a estrutura sintática — o ponto-final exige uma oração completa, o que não ocorre.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Vírgula – Vírgula. A primeira vírgula isola a oração intercalada "por enxergar à noite"; a segunda isola o adjunto adverbial deslocado "para muitos povos". Ambas são obrigatórias e preservam o sentido e a estrutura do período. É a única alternativa que mantém a continuidade sintática e a correção gramatical.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Ponto-final – Vírgula. A primeira figura não pode ser ponto-final, pois "por enxergar à noite" é uma oração subordinada que depende da oração principal "a coruja era uma espécie de oráculo" — separá-la com ponto-final criaria um fragmento sem sentido completo. A segunda figura, por sua vez, é corretamente substituída por vírgula. Erro: contradiz a estrutura sintática — o ponto-final quebra a relação de subordinação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Ponto-final – Dois-pontos. A primeira figura não pode ser ponto-final pelo mesmo motivo da alternativa C. A segunda figura não pode ser dois-pontos, pois "para muitos povos" não introduz uma enumeração, explicação ou citação — é apenas um adjunto adverbial deslocado. Erro: contradiz a estrutura sintática e o sentido — os dois-pontos exigem uma relação de anunciação que não existe aqui.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Dois-pontos – Ponto-final. A primeira figura não pode ser dois-pontos, pois "por enxergar à noite" não é uma enumeração, explicação ou citação do que vem antes — é uma oração intercalada que explica o motivo da crença, mas não é introduzida por dois-pontos. A segunda figura não pode ser ponto-final, pois o período não está completo. Erro: contradiz a estrutura sintática e o sentido — os dois-pontos e o ponto-final são incompatíveis com a função dos termos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre pausa conclusa (ponto-final) e pausa inconclusa (vírgula). O ponto-final encerra um pensamento completo; a vírgula apenas suspende a leitura para isolar um termo. No trecho, ambos os termos são acessórios (oração intercalada e adjunto adverbial), que não podem ser separados por ponto-final.
PEGA ESSA DICA!
Ao substituir figuras por pontuação, identifique a função sintática do termo destacado. Se for um aposto, vocativo, oração intercalada ou adjunto adverbial deslocado, a vírgula é obrigatória. Se for uma enumeração, explicação ou citação, use dois-pontos. Se for o fim de uma oração completa, use ponto-final.
Conclusão: a regra de ouro é: vírgula isola, ponto-final encerra. No trecho, os dois termos destacados são intercalados e exigem vírgula para manter a fluidez e a correção. Gabarito: letra B.