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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
qa499575
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
IF PA
Ano
2023
Cargo
Asst ( )

As cores do silêncio

 

Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma coisa silenciosa chamada pintura.

 

Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro, dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa invenção. E na arte também, sem dúvidas.

 

Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro de determinados princípios que descobre e de que se vale para impor sua inventividade poética sobre o acaso.

 

No fundo a criação artística é resultado da opção que o artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o que era mera probabilidadeb.

 

Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de obras de Van Gogh. Embora já as conhecesse de longa data, descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever suas telas, percebia por quê.

 

E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura impressionista, feita ao ar livre.

 

Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das coisas. E, ao descobri‐las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que Monet mostra a catedral de Rouen em momentos diferentes do dia.

 

A descoberta da realidade que muda a cada minuto gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam em Cézanne uma reação contrária: ele queria que a nova pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele admirava nas obras dos museus.

 

Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismoa, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.

 

Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre Van Gogh. A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de Borinage. Van Gogh que vai fascinar as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do impressionismo pontilhista.

 

Essa mudança da pintura de Van Gogh, que abandona as cores soturnasd para entregar‐se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida, própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.

 

De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e angustiada de Van Gogh encontrou afinal o modo feliz de inventar‐se. Pintando, ele era saudável.

 

Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do pontilhismoc, Van Gogh descobre seu próprio caminho, tornando- se criador de um universo pictórico que me fascina e fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.

 

A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos: são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor, de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num mundo gráfico‐pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas telas por ele pintadas.

 

Não sei se consigo expressá‐lo: o que está em suas telas não é a paisagem real. Como Cézanne, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é outra, é invenção humana.

 

(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)

Considerando que a escolha adequada do léxico é um dos elementos necessários à construção da coerência textual, indique o vocábulo assinalado que poderia substituir o termo em destaque preservando-se tal coerência.

  1. A“Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, [...]” – rudimentar
  2. B“Em suma, ele torna necessário o que era mera probabilidade.”  – necessidade
  3. C“Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do pontilhismo, [...]” - evasão
  4. D “Essa mudança da pintura de Van Gogh, que abandona as cores soturnas [...]” - sombrias
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — “Essa mudança da pintura de Van Gogh, que abandona as cores soturnas [...]” - sombrias

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição lexical preservando o sentido

Gabarito: letra D. A única substituição que preserva a coerência é trocar "soturnas" por "sombrias", pois são sinônimos contextuais: ambas indicam cores escuras, tristes, lúgubres. No texto, "cores soturnas" refere-se à fase inicial de Van Gogh, marcada por tons escuros e dramáticos, como se lê no trecho: "Van Gogh que vai fascinar as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que ele conhece a pintura dos impressionistas". A troca mantém o sentido de "escuras", "tristes", sem alterar a ideia de que o artista abandonou essa paleta para adotar cores vibrantes.

A questão pede que você avalie, em cada alternativa, se o vocábulo proposto pode substituir o termo em destaque sem alterar o sentido no contexto específico do texto. Isso é uma questão de sinonímia contextual: não basta que as palavras sejam sinônimas no dicionário; é preciso que, naquele trecho, a troca preserve o significado e a coerência. A banca testa sua sensibilidade lexical e sua capacidade de perceber nuances de sentido.

O texto de Ferreira Gullar discute a evolução da pintura, especialmente a de Van Gogh, que abandonou as "cores soturnas" para adotar o colorido vibrante dos neoimpressionistas. A palavra "soturnas" descreve cores escuras, sombrias, que transmitem tristeza ou melancolia. "Sombrias" é o sinônimo perfeito nesse contexto, pois também remete a escuridão e tristeza. As demais alternativas propõem palavras que, embora possam ter relação com o termo original em outros contextos, aqui alterariam o sentido ou quebrariam a coerência.

A técnica para resolver é simples: substitua mentalmente o termo destacado pela palavra proposta e verifique se o sentido da frase permanece o mesmo. Se a troca gerar estranheza, mudar o significado ou introduzir uma ideia que o texto não sustenta, a alternativa está errada. Essa é a essência da coesão lexical: escolher palavras que se encaixem no contexto, mantendo a progressão temática e a coerência.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de sinonímia, leia a frase com a palavra substituída em voz alta. Se soar artificial ou mudar o sentido, descarte. A sinonímia perfeita é rara; o que importa é a equivalência no contexto.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, [...]" – rudimentar

Erro: troca de conceito. "Inovadora" significa algo novo, original, que traz uma mudança. "Rudimentar" significa primitivo, básico, pouco desenvolvido. São antônimos nesse contexto. A opção de Cézanne foi inovadora porque gerou o cubismo, um movimento que revolucionou a pintura. Substituir por "rudimentar" inverteria o sentido, dizendo que a opção era primitiva, o que contradiz o texto. A banca tenta confundir com a ideia de "simples", mas "rudimentar" tem conotação negativa de atraso, não de simplicidade elegante.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Em suma, ele torna necessário o que era mera probabilidade." – necessidade

Erro: troca de classe gramatical e sentido. O termo destacado é "probabilidade", um substantivo que indica algo incerto, possível. A proposta é "necessidade", também substantivo, mas com sentido oposto: algo obrigatório, inevitável. O texto diz que o artista transforma o que era apenas provável em algo necessário, ou seja, ele dá forma concreta ao acaso. Trocar "probabilidade" por "necessidade" eliminaria a oposição entre o casual e o determinado, que é o cerne da frase. A banca explora a relação entre os dois conceitos, mas eles não são intercambiáveis aqui.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do pontilhismo, [...]" – evasão

Erro: troca de conceito. "Incursão" significa entrada, investida, penetração em um território ou assunto. No texto, refere-se ao momento em que Van Gogh adota o pontilhismo. "Evasão" significa fuga, saída, ato de evadir-se. São antônimos nesse contexto. Substituir "incursão" por "evasão" inverteria completamente o sentido, dizendo que Van Gogh fugiu do pontilhismo, quando na verdade ele o adotou. A banca tenta confundir com a ideia de "movimento", mas a direção é oposta.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Essa mudança da pintura de Van Gogh, que abandona as cores soturnas [...]" – sombrias

Correta. "Soturnas" e "sombrias" são sinônimos perfeitos nesse contexto. Ambas descrevem cores escuras, tristes, melancólicas. O texto diz que Van Gogh abandonou as cores soturnas para adotar o colorido vibrante dos neoimpressionistas. A troca por "sombrias" mantém exatamente o mesmo sentido, sem qualquer prejuízo à coerência. A banca testa o conhecimento de sinônimos de uso comum, e "sombrias" é a escolha natural.

Conclusão: A questão exige atenção ao contexto. A alternativa D é a única que preserva o sentido original, pois "soturnas" e "sombrias" são sinônimos diretos. As demais propõem palavras que, embora possam ter relação com o termo em outros contextos, aqui alterariam o significado ou inverteriam a ideia. Lembre-se: sinonímia contextual é a chave — teste cada substituição na frase e veja se o sentido permanece intacto.

Gabarito: letra D

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