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Questão de Português — Termos Acessórios (Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial e Aposto). Vocativo — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsTermos Acessórios (Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial e Aposto). Vocativo
Código
qa501466
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Nova Friburgo
Ano
2023
Cargo
ACE ( )
Restos de Carnaval


          Não, não deste último Carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval. Até que viesse o outro ano.
          E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
          No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem.
          E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
          Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para Carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
           Mas houve um Carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
           Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele Carnaval, pois, pela primeira vez na vida, eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
           Mas por que exatamente aquele Carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
          Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de Carnaval. A alegria dos outros me espantava.
             Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
           Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro. Rocco. 1999. Jornal do Brasil. Em: 16/03/1968.)
Constitui recurso expletivo a expressão destacada em:
  1. ASó horas depois é que veio a salvação.”
  2. BUm menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, [...]”
  3. CUma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval.”
  4. DEm compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem.”
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GabaritoA — “Só horas depois é que veio a salvação.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Recurso expletivo: a partícula "é que" como realce

Gabarito: letra A. A expressão destacada em "Só horas depois é que veio a salvação" constitui recurso expletivo, pois a partícula "é que" é uma expressão de realce que pode ser retirada da frase sem prejuízo do sentido — "Só horas depois veio a salvação" mantém a informação essencial, apenas perdendo a ênfase. O recurso expletivo é um termo que não exerce função sintática, servindo apenas para dar destaque a um elemento da oração.

O comando da questão

O enunciado pede para identificar a alternativa em que a expressão destacada funciona como recurso expletivo. Isso é uma questão de análise sintática — precisamos reconhecer quando um termo é sintaticamente dispensável, sem função gramatical, usado apenas para realce. Não se trata de interpretação de texto, mas de conhecimento gramatical aplicado ao trecho.

O que é recurso expletivo

Recurso expletivo (ou palavra/expressão expletiva) é um termo que não exerce função sintática na oração. Ele é usado para dar ênfase, realce ou reforço a uma ideia, mas pode ser retirado sem que a frase perca o sentido básico. Exemplos clássicos:

  • "É que ele não veio." → "Ele não veio."

  • "Não há dúvida não." (reforço)

  • "É claro que sim." (em alguns usos)

A partícula "é que" é o exemplo mais comum de recurso expletivo. Ela aparece em construções de realce, como em "Foi ele que fez" ou "É assim que se faz". Nesses casos, a estrutura "é que" pode ser suprimida, e a frase continua gramatical e semanticamente íntegra, apenas com menos ênfase.

A diferença entre recurso expletivo e termos acessórios

É comum confundir recurso expletivo com aposto ou adjunto adverbial, pois ambos também podem ser retirados da frase sem prejuízo da estrutura básica. A diferença crucial é que o aposto e o adjunto adverbial exercem função sintática (explicam, especificam, indicam circunstância), enquanto o expletivo não exerce nenhuma função — é mero realce.

Critério

Recurso expletivo

Aposto

Adjunto adverbial

Função sintática

Nenhuma

Explicativa/especificativa

Circunstancial

Pode ser retirado?

Sim, sem perda de sentido

Sim, mas perde-se a explicação

Sim, mas perde-se a circunstância

Exemplo

"É que ele não veio."

"Maria, minha irmã, chegou."

"Chegou cedo."

Análise das alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Só horas depois é que veio a salvação."

A expressão "é que" é um recurso expletivo clássico. Retirando-a, temos "Só horas depois veio a salvação", que mantém o sentido completo, apenas sem o realce. A partícula "é que" não exerce função sintática; serve apenas para enfatizar o adjunto adverbial "só horas depois". Portanto, a alternativa está correta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, [...]"

A expressão destacada "o que para mim significava um rapaz" é um aposto explicativo — ela explica, desenvolve o termo anterior "um menino de uns 12 anos". O aposto exerce função sintática (explicativa), não é um mero realce. Portanto, não é recurso expletivo. A alternativa está incorreta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval."

A expressão destacada "atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval" é uma oração reduzida de gerúndio que funciona como adjunto adverbial de tempo ou modo — indica a circunstância em que a beata ia à igreja. Exerce função sintática, não é expletivo. Portanto, a alternativa está incorreta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem."

A expressão destacada "olhando ávida os outros se divertirem" é uma oração reduzida de gerúndio que funciona como adjunto adverbial de modo — indica como a narradora ficava. Exerce função sintática, não é expletivo. Portanto, a alternativa está incorreta.

Conclusão

A única alternativa em que a expressão destacada é um recurso expletivo é a letra A, pois "é que" pode ser retirada sem prejuízo do sentido, apenas perdendo o realce. As demais alternativas apresentam termos que exercem função sintática (aposto ou adjunto adverbial).

PEGA ESSA DICA!

Para identificar um recurso expletivo, pergunte: "Posso retirar essa expressão sem que a frase perca o sentido básico?" Se sim, e se ela não exerce função sintática (não é aposto, adjunto, complemento etc.), então é expletivo. A partícula "é que" é o caso mais comum.

Gabarito: letra A

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