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Questão de Português — Denotação e Conotação — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsDenotação e Conotação
Código
qa501468
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Nova Friburgo
Ano
2023
Cargo
ACE ( )
Restos de Carnaval


          Não, não deste último Carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval. Até que viesse o outro ano.
          E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
          No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem.
          E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
          Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para Carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
           Mas houve um Carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
           Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele Carnaval, pois, pela primeira vez na vida, eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
           Mas por que exatamente aquele Carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
          Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de Carnaval. A alegria dos outros me espantava.
             Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
           Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro. Rocco. 1999. Jornal do Brasil. Em: 16/03/1968.)
Algumas palavras ou expressões assumem sentido conotativo segundo o contexto no qual estão inseridas. Isso ocorre em:
  1. ANunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado.”
  2. BUma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, [...]”
  3. CQuando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me.”
  4. DDe manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem.”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — “Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Denotação e Conotação: a atmosfera que se acalma

Gabarito: letra C. A alternativa correta é a que apresenta a palavra "atmosfera" em sentido conotativo (figurado), pois, no texto, ela não se refere ao ar ou ao clima, mas ao clima emocional da casa. Como se lê no trecho: "Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me." — a "atmosfera" que se acalma é o ambiente de tensão e alvoroço, não o ar físico. As demais alternativas usam as palavras em seu sentido denotativo (literal, dicionarizado).

A questão cobra a distinção entre denotação (sentido literal, objetivo, que independe do contexto) e conotação (sentido figurado, simbólico, que depende do contexto). O comando pede que você identifique a alternativa em que uma palavra ou expressão assume sentido conotativo — ou seja, que foge do significado básico e ganha um valor expressivo no texto.

No texto de Clarice Lispector, a narradora descreve um Carnaval de sua infância, marcado pela fantasia de rosa que ela finalmente ganha, mas que é interrompido pela piora da doença da mãe. O trecho da alternativa C está no clímax desse episódio: após o alvoroço em casa, a "atmosfera" se acalma. Aqui, "atmosfera" não designa a camada de gases que envolve a Terra, mas o clima emocional, o estado de ânimo do ambiente doméstico. É uma metáfora — a casa não tem atmosfera física que se acalme; o que se acalma é a tensão emocional. Por isso, o sentido é conotativo.

A técnica para resolver é simples: teste se a palavra pode ser entendida literalmente. Se a leitura literal for impossível ou absurda no contexto, há conotação. "Atmosfera" literalmente não se acalma — logo, é figurado. Nas outras alternativas, todas as palavras mantêm seu sentido próprio: "baile infantil", "véu", "cabelos enrolados" são usados em seu significado real.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de vocábulo — a alternativa C parece descrever apenas uma ação comum (pentear e pintar), mas o termo "atmosfera" é a chave conotativa. As demais alternativas são iscas denotativas, com palavras em sentido literal.

Sentido das palavras
  • 1Denotação (literal)
    • Baile infantil
    • Véu cobrindo a cabeça
    • Cabelos enrolados
  • 2Conotação (figurado)
    • Atmosfera que se acalma
      • clima emocional da casa
      • metáfora
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado."

Aqui, todas as palavras estão em sentido denotativo: "baile infantil" é um evento real, "fantasiado" significa vestir uma fantasia de Carnaval. Não há desvio de sentido. A alternativa não apresenta conotação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, [...]"

O trecho descreve uma cena literal: uma mulher com um véu (pano que cobre a cabeça) indo à igreja. "Véu" está em seu sentido próprio, denotativo. Não há figura de linguagem. A alternativa não apresenta conotação.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me."

A palavra "atmosfera" é usada em sentido conotativo: não se refere ao ar ou ao clima, mas ao clima emocional da casa, que estava tenso devido à doença da mãe. A leitura literal é impossível — atmosfera não se acalma. É uma metáfora que expressa o alívio após o alvoroço. Esta é a única alternativa com sentido figurado.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem."

"Cabelos enrolados" e "frisado pegar bem" estão em sentido denotativo: descrevem o ato físico de enrolar os cabelos para que o penteado fique bom. Não há desvio de sentido. A alternativa não apresenta conotação.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar conotação, pergunte: "a palavra pode ser entendida literalmente neste contexto?" Se a resposta for não, há sentido figurado. "Atmosfera" que se acalma é impossível literalmente — logo, é conotação.

Gabarito: letra C — a única alternativa em que uma palavra ("atmosfera") é empregada em sentido figurado, dependendo do contexto para ser compreendida.

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