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Questão de Português — Conjunção — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsConjunção
Código
qa501469
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Nova Friburgo
Ano
2023
Cargo
ACE ( )
Restos de Carnaval


          Não, não deste último Carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval. Até que viesse o outro ano.
          E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
          No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem.
          E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
          Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para Carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
           Mas houve um Carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
           Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele Carnaval, pois, pela primeira vez na vida, eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
           Mas por que exatamente aquele Carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
          Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de Carnaval. A alegria dos outros me espantava.
             Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
           Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro. Rocco. 1999. Jornal do Brasil. Em: 16/03/1968.)

No trecho “Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara.” as orações iniciadas pelas conjunções “mas” e “porque” especificam, respectivamente, ideias de:

  1. AContraste e causa.
  2. BCondição e conclusão.
  3. COposição e consequência.
  4. DAcrescentamento e explicação.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Contraste e causa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Valor semântico das conjunções "mas" e "porque"

Gabarito: letra A. No trecho, "mas" estabelece contraste (oposição entre ter medo e considerá-lo vital) e "porque" introduz causa (a razão de o medo ser vital). Como se lê no texto: "Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita...". A alternativa A é a única que nomeia corretamente as duas relações.

O comando

A questão pede que você identifique a ideia expressa pelas conjunções "mas" e "porque" no contexto. Isso é uma questão de semântica das conjunções: não basta saber a classe gramatical, é preciso reconhecer o valor relacional que cada conectivo estabelece entre as orações. O comando "especificam, respectivamente, ideias de" indica que a ordem importa: primeiro o valor de "mas", depois o de "porque".

O texto

No trecho, a narradora confessa ter medo das máscaras, mas imediatamente ressalva que esse medo é "vital e necessário". A conjunção "mas" liga duas ideias contrastantes: o medo (algo geralmente negativo) e a importância vital desse medo (algo positivo). Em seguida, "porque" explica por que o medo é vital: ele "vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara". Ou seja, a segunda oração apresenta a causa da afirmação anterior.

A técnica

Para resolver, pergunte: que relação lógica a conjunção estabelece entre as orações?

  • "mas" é uma conjunção coordenativa adversativa, que expressa oposição, contraste, quebra de expectativa. No trecho, há contraste entre "ter medo" e "medo vital e necessário".

  • "porque" é uma conjunção subordinativa causal, que introduz a causa, o motivo, a razão do que foi dito. Aqui, a causa de o medo ser vital é a suspeita sobre o rosto humano ser uma máscara.

"Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara."

A banca adora trocar causa por consequência e explicação por conclusão. Lembre-se: causa é o motivo (responde a "por quê?"); consequência é o efeito (responde a "o que resultou?"); explicação é uma justificativa (própria de "pois" antes do verbo); conclusão é um fechamento lógico (própria de "logo", "portanto").

1"mas"
Coordenativa adversativa
Contraste / oposição
Substitui por "porém"
2"porque"
Subordinativa causal
Causa / motivo
Substitui por "já que"
3Pegadinhas da banca
Causa ≠ consequência
Explicação ≠ conclusão
Conjunções no trecho
LEVELsoulevel.com.br
Conjunções no trecho: "mas" (Coordenativa adversativa, Contraste / oposição, Substitui por "porém"); "porque" (Subordinativa causal, Causa / motivo, Substitui por "já que"); Pegadinhas da banca (Causa ≠ consequência, Explicação ≠ conclusão)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Mas" expressa contraste (oposição entre o medo e sua importância vital) e "porque" expressa causa (a razão de o medo ser vital). Exatamente o que o trecho mostra.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Condição é ideia de "se... então", típica de "se", "caso"; conclusão é típica de "logo", "portanto". Nenhuma das duas aparece no trecho. A banca troca os valores semânticos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Oposição é sinônimo de contraste, então a primeira parte até serve; mas consequência é o efeito, não a causa. O trecho diz que o medo é vital porque (causa) vem da suspeita, não que a suspeita seja consequência do medo. A banca inverte a relação.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Acrescentamento é ideia de adição ("e", "também"), não de contraste; explicação é uma justificativa, mas "porque" aqui é claramente causal (indica o motivo), não explicativo no sentido de "pois" explicativo. A alternativa mistura valores.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre causa e consequência e entre explicação e conclusão. No trecho, "porque" responde a "por quê?" — isso é causa, não consequência.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o valor de uma conjunção, substitua mentalmente por outra de mesmo valor: "mas" = "porém" (contraste); "porque" = "já que" (causa). Se a substituição mantém o sentido, você acertou.

Gabarito: letra A.

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