As últimas três décadas têm testemunhado um fenômeno que poderia ser chamado de feminização do mercado de trabalho. Dois fatores fundamentais contribuíram para a entrada em massa da mulher no mercado de trabalho, nomeadamente a queda nas taxas de fecundidade e o aumento das taxas de escolaridade femininas.
Desde então, começaram a chamar a atenção dos pesquisadores as diferenças salariais, por gênero, para empregos e ocupações, se não idênticas, pelo menos muito similares. Este era um fenômeno totalmente anômalo, não previsto pela teoria econômica tradicional.
Segundo os cânones neoclássicos, por exemplo, em termos abstratos, se porventura existissem diferenças salariais entre trabalhadores igualmente produtivos, fossem eles homens ou mulheres, esperava‑se que, com o tempo, elas desaparecessem. Isto porque, sendo os empregadores agentes racionais, decerto prefeririam contratar os trabalhadores mais baratos (que, no caso, seriam as mulheres), o que faria com que a demanda por trabalho feminino aumentasse.
Como consequência deste aumento de demanda, o seu nível salarial acabaria por elevar‑se até o nível dos salários dos homens. Sendo assim, segundo a perspectiva da teoria neoclássica, o que explicaria as diferenças salariais, caso elas existissem, seriam as imperfeições ou as chamadas “falhas de mercado”, como, por exemplo, a existência de monopólios e de grupos de pressão, como os sindicatos (dominados por homens), que impediriam as mulheres de aceder aos empregos mais bem pagos.
Rev. Cadernos de Campo | Araraquara | n.º 26 | p. 79‑103 | jan./jun. 2019 | E‑ISSN 2359‑2419 (com adaptações).
Texto para o item. Com base nas ideias, no vocabulário e nas estruturas linguísticas do texto, julgue o item. A expressão “as diferenças salariais” funciona sintaticamente como sujeito da forma verbal “começaram”
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GabaritoC — Certo
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Função sintática de sujeito: “as diferenças salariais” e o verbo “começaram”
Gabarito: C (Certo). A expressão “as diferenças salariais” é, de fato, o sujeito da forma verbal “começaram”, como se comprova pela concordância verbal e pela pergunta “o que começou?”. No trecho do 2º parágrafo, lê-se: “começaram a chamar a atenção dos pesquisadores as diferenças salariais”. O verbo está no plural porque concorda com o núcleo do sujeito, “diferenças”. A banca inverteu a ordem natural (sujeito depois do verbo) para testar se você reconhece o sujeito pela concordância, e não pela posição.
O comando e o que ele exige
O item pede um julgamento Certo/Errado sobre uma afirmação sintática: se “as diferenças salariais” funciona como sujeito de “começaram”. Isso é uma questão de análise sintática — não de interpretação de sentido. Você precisa identificar a função do termo na oração, e a ferramenta decisiva é a concordância verbal: o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa. Como “começaram” está na 3ª pessoa do plural, o sujeito só pode ser um termo também no plural — e “as diferenças salariais” é o único candidato que satisfaz essa exigência.
O texto e a localização da resposta
No 2º parágrafo, o autor escreve:
“Desde então, começaram a chamar a atenção dos pesquisadores as diferenças salariais, por gênero, para empregos e ocupações, se não idênticas, pelo menos muito similares.”
Observe a estrutura: o verbo “começaram” vem antes do sujeito. Na ordem direta, a frase seria: “As diferenças salariais começaram a chamar a atenção dos pesquisadores”. O sujeito está posposto ao verbo — recurso estilístico comum em textos formais. A concordância confirma: se o sujeito fosse “os pesquisadores”, o verbo estaria no plural, mas o sentido seria outro (“os pesquisadores começaram a chamar a atenção...”), o que não é o caso. O que “começou” foram as diferenças salariais, não os pesquisadores.
A técnica que decide
Para achar o sujeito de qualquer verbo, faça a pergunta: “Quem/o quê + verbo?”. Aplicando: “O que começou a chamar a atenção?” → “as diferenças salariais”. Esse é o método infalível, mesmo quando a ordem está invertida. Outra pista: o verbo concorda com o núcleo do sujeito — “diferenças” (plural) → “começaram” (plural). Se houvesse um sujeito singular, o verbo estaria no singular.
NÃO CAIA NESSA!
A banca coloca o sujeito depois do verbo e ainda intercala “dos pesquisadores” (que é complemento de “chamar a atenção”), tentando fazer você acreditar que “pesquisadores” é o sujeito. Mas “pesquisadores” está regido pela preposição “de” — não pode ser sujeito. Sujeito nunca vem preposicionado.
1Localize o verbo
2Pergunte: quem/o quê?
3Confira a concordância
4Sujeito nunca é preposicionado
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Análise das alternativas
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmação está correta. O trecho “começaram a chamar a atenção dos pesquisadores as diferenças salariais” comprova que o sujeito de “começaram” é “as diferenças salariais”. A concordância verbal (plural) e a pergunta “o que começou?” confirmam. A ordem inversa não muda a função sintática.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmação de que “as diferenças salariais” não é o sujeito está errada. Quem marca esta opção provavelmente confundiu o sujeito com o termo “os pesquisadores”, que aparece logo após o verbo. Mas “pesquisadores” é objeto indireto de “chamar a atenção” (quem chama a atenção, chama a atenção de alguém). O sujeito é o termo que concorda com o verbo — e “as diferenças salariais” é o único que concorda.
Conclusão
A questão ensina uma lição valiosa: sujeito não é o termo que vem antes do verbo, é o termo com o qual o verbo concorda. Em provas, desconfie de frases com ordem inversa e use sempre a pergunta “quem/o quê?” antes do verbo. Aqui, a resposta é clara: Certo.